Espanha paraiso campo verde burro

Quando para um burro o paraíso é um campo verde

O sistema legal da Espanha ainda falha na abordagem do abuso animal, dizem ativistas dos direitos dos animais.

Por Silvia R. Pontevedra / Tradução de Alice Wehrle Gomide

“Fernando adora ser beijado. Ele aprecia tanto ser amado que algumas vezes ele chora quando você o acaricia”, diz Abigail, a cofundadora do Mino Valley Farm Sanctuary em O Saviñao, Lugo, na Espanha.

É uma vida completamente oposta aos dias em que este burro passou amarrado sem nada para comer ou beber e sem nenhuma forma de escapar os ataques de outros animais que rasgavam suas canelas. Agora, somente a um quilômetro pela estrada, Fernando é tratado como um rei por Abigail e seu parceiro Mike Greer, que juntos fundaram o Mino Valley quatro anos atrás em uma área de 40.000 metros quadrados em Ribeira Sacra, Galícia. O santuário é agora o lar de 200 animais, desde ovelhas até galinhas, cada um com seu próprio nome e passado envolvendo crueldade e negligência, apesar de que, como Abigail admite, “é difícil diferenciar uma galinha da outra”.

Em pouco menos de cinco anos, 10 santuários de animais como Mino Valley apareceram pela Espanha. Tipicamente dirigidos por veganos, os animais correm livremente, seu leite é reservado para seus bebês, e eles são protegidos do abuso causado pelos humanos.

Embora os refúgios de animais sejam registrados como beneficentes, a lei espanhola os trata como se fossem fazendas que geram renda

Santuários como o Gaia em Camprodon, Girona, ou Wings of Heart em Madrid, que tipicamente abrigam entre 100 e 300 animais, possuem tantos apoiadores no exterior como dentro da Espanha. Mas, apesar de serem registrados como instituições de caridade, a lei espanhola os trata como se fossem fazendas que geram rendas.

Os santuários são manejados por uma quantidade de voluntários e financiados pelos regimes de adoção de animais, subscrições de membros e doações que vêm, mais frequentemente que não, do exterior. Eles também possuem lojas veganas online, mas o custo para manter os animais é enorme – Ismael López e Coque Fernández, os fundadores de Gaia, dizem que os custos mensais giram em torno de €10.000 (cerca de R$ 40.000).

Mas enquanto mais e mais santuários estão sendo fundados, os grupos ativistas dos direitos dos animais dizem que a lei não está fazendo o suficiente para proteger os animais. Por exemplo, não houve nenhum recurso legal quando 10.000 animais de fazenda “foram autorizados a morrer” nas enchentes do Rio Ebro em março de 2015, ou quando um caminhão carregando 804 porquinhos de dois meses de idade sofreu um acidente em La Rioja, matando quase todos, sobrando somente 150. Desses, os ativistas conseguiram salvar somente 16 do abate, entre eles Leticia, Xita e Raúl, que agora estão morando em Gaia.

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Os santuários são um testamento dos extremos da crueldade e da bondade humana que os animais enfrentam pelos espanhóis; eles abrigam porquinhos com ferimentos na coluna causados pelo excesso de animais e pobres condições de transporte que agora se movem com cadeiras de rodas. Há cabras que recebem sessões diárias de fisioterapia antes de serem levadas de volta para o campo em carrinhos de bebê. Há galinhas que perderam todas suas penas e que agora usam casaquinhos de lã. E então há animais que foram resgatados da morte certa em feiras locais – ovelhas que foram salvas das covas de lobos ou lixeiras; patos, coelhos e porcos vietnamitas que já se tornaram famosos por celebridades como George Clooney e que, após serem usados como brinquedos, foram abandonados.

Os Geers estão procurando por outro pedaço de terra para que eles possam continuar salvando animais, mas dizem que não têm muito tempo. Nesse ínterim, eles têm que construir cabanas de madeira para abrigar os três novos membros da família que estão esperando em Vacaloura, de Santiago, outro santuário da redondeza, enquanto seus abrigos estão sendo preparados.

Também há duas vacas e um touro que receberam refúgio em O Saviñao, enquanto seus casos são tratados no tribunal. Eles foram resgatados com outros 13 de uma fazenda vizinha em Boiro, onde eles eram mantidos em condições horríveis. Cordas com um metro de comprimento os mantinham ancorados em um lago de excremento e faziam com que eles não conseguissem sequer mudar de posição. A superlotação era tanta que havia mesmo casos de passagens nasais deformadas. Quando o grupo ativista galego Vox Ánima finalmente soou o alarme, os chifres dos touros encontrados tinham se transformado em somente uma casca porque as cordas usadas tinham cortado todo o fluxo sanguíneo. Eles também descobriram que as vacas tinham passado o inverno na beira da estrada enquanto seus bezerros estavam dentro da fazenda, mergulhados em lama.

Em março, no período de uma semana, houve três denúncias separadas de negligência animal na Galícia, incluindo o caso Boiro. Os outros dois foram descobertos em pequenas comunidades de Chantada e Friol na província de Lugo, onde os fazendeiros tinham deixado quase 100 vacas perecendo em condições terríveis.

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No momento que as autoridades chegaram, o fazendeiro em Friol tinha queimado seu gado morto, mas não o fazendeiro em Chantada. Agora nas mãos da polícia, as fotos do que aconteceu lá são chocantes. A polícia contou 39 animais mortos, apesar de que alguns restos estavam em tal estado de decomposição que era difícil de dizer com certeza. Outros foram encontrados deitados em piscinas de lama.

Alguns dias depois, a história virou destaque, gerando controvérsia nessa região amplamente rural. O governo regional galego fez questão de separar as revelações atormentadoras dos problemas atuais na queda do preço do leite que está fazendo com que mais e mais fazendeiros fechem suas portas. Quando questionados por repórteres, os agentes disseram que inspeções rigorosas tinham sido realizadas. Enquanto isso, os sindicatos estavam divididos sobre o assunto; alguns seguiram a linha oficial, outros criticaram as políticas que não estão fazendo nada para ajudar os fazendeiros.

Ao mesmo tempo, os grupos ativistas tentaram chamar a atenção para o sofrimento dos animais de fazenda com protestos na frente de matadouros onde os animais que tinham sido resgatados de Friol e Chantada foram levados.

Na noite do dia 20 de abril, ativistas de todo o país vieram para tentar impedir que esses animais infelizes fossem abatidos, mas sem sucesso. O último touro de Friol, que estava saudável, sobreviveu até uma semana atrás enquanto seu caso estava sendo revisado dentro do matadouro.

A não ser que um animal seja confiscado pelas autoridades, o dono ainda pode decidir seu destino; e isso se um inspetor do governo não der a ordem de abater o animal por motivo de saúde. Os ativistas da região estão em alerta. Grupos como Libera avisam que mais casos de abuso estão sendo expostos, com alguns aumentando os temores de que, por trás da negligência bruta, exista “uma tentativa de lucrar com compensação econômica”.

No mesmo dia que o touro de Friol encontrou sua morte, o fazendeiro de Chantada apareceu na corte. O caso contra ele foi trazido por um dos poucos advogados na Espanha especialistas em direito animal, Victor Valladares, que entrou com a ação judicial em nome da Provegan Foundation e três dos maiores santuários animais no país – Gaia, Wings of Heart e Hogar Provegan, em Tarragona. De acordo com Valladares, um relatório feito duas semanas antes não tinha chegado ao tribunal em Chantada, e o governo regional da Galícia ordenou o abate do gado que tinha sobrevivido tão apressadamente que os veterinários que estavam trabalhando com os grupos ativistas não tiveram tempo de reunir evidências relevantes.

No tribunal, o fazendeiro testemunhou que seus animais morreram de uma infecção bacteriana que causou sua morte em um período de somente cinco dias. Seus problemas financeiros o forçaram a usar uma comida de má qualidade, ele disse. Mas os grupos ativistas dizem que não houve nenhuma evidência que suportasse o que ele disse. Eles agora estão exigindo uma sentença de dois anos de prisão e pretendem entrar com uma ação judicial contra o governo regional da Galícia assim que eles tenham reunido evidências suficientes para tal.

Fonte: El País

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