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Quase 20 anos depois de ser proibida, farra do boi ainda é praticada em Governador Celso Ramos, SC

Mesmo proibido por lei desde 1997, o costume de soltar o boi pelas ruas de Governador Celso Ramos, a 50 quilômetros de Florianópolis, é repetido todos os anos na Sexta-Feira Santa, numa espécie de ritual que para a cidade. A polícia, que tem o dever de cumprir a lei, até se mostra presente, mas é incapaz de evitar as investidas dos homens contra o animal, que é testado até o limite antes de ser abatido e virar alimento. Nesta época do ano, a farra do boi é o assunto da comunidade, formada na sua maioria por pescadores, e atrai multidões de pessoas de diversas regiões do Estado que dizem “manter viva a tradição” trazida pelos primeiros imigrantes açorianos, em medos do século 18, para o litoral de Santa Catarina. 

Sentadas em volta da praça 15 de Novembro, no centro de Governador Celso Ramos, senhoras se misturam aos mais jovens para aguardar ansiosamente a chegada do boi. Os garotos discutem sobre a força do animal, enquanto os foguetes anunciam mais um ritual. O local é um dos pontos de encontro dos farristas, que dali seguem para onde estiver acontecendo a farra Na última sexta-feira (18) o Notícias do Dia percorreu as ruas do município, um dos poucos lugares no Estado aonde a farra do boi acontece indiscriminadamente sem pudor.

A farra se tornou um evento que atrai pessoas de toda a região da Grande Florianópolis. A reunião de pessoas que se revezam para correr atrás do boi se transforma numa verdadeira festa, que inclui musica, bebidas e descontração. Se colocar na frente do boi torna-se um ato de coragem, e que algumas vezes acaba com pessoas feridas, como foi o caso de um jovem que acabou sendo levado para o hospital, na quinta-feira da semana passada, depois de ser atingido pelo animal.

A popularidade chama a atenção tanto de adeptos como dos contrários, que combatem a forma cruel como acontecem as farras. A imprensa não é bem-vinda, assim como os contrários. Estes últimos são chamados pelos nativos de “haole”, por normalmente serem pessoas que não foram criadas na cidade. E é nesse clima de medição de forças, entre o que é legal e tradicional, que todos se manifestam sobre a farra. “Não existe mais boi como antigamente, a polícia fica em cima, mas que tem farra tem e é uma coisa muito boa”, conta um pescador nativo, de 51 anos.

Evento oficial da Prefeitura mantém costumes

Para agradar uma grande parcela de adeptos na cidade, a Prefeitura instituiu a Festa Campeira, onde os participantes enfrentam o boi em um mangueirão (arena), mas sem poder ferir o animal. Neste ano, o evento chegou a sua segunda edição, numa festa com bandas, barraquinhas de pinhão e bebidas. O narrador do evento comanda a festa, lembrando os participantes sobre a força do animal e sobre os cuidados. Uma equipe médica fica de prontidão.

No centro da arena, os participantes se revezam em duplas, e desafiam o animal como se fosse ele próprio o demônio. Uma das teorias para tradição da farra do boi tem fundo religioso, onde o boi seria a própria personificação do mal. Como Cristo está morto, para ressuscitar no domingo de Páscoa, o mal solto poderia prejudicar a ressureição do senhor.

No entanto, a Festa Campeira não trata o evento como a farra do boi propriamente dita. Os farristas são chamados de peões e a dinâmica lembra as tradicionais touradas espanholas.

Farra clandestina é evento na cidade

Passava da 1h da madrugada de sábado (19), quando o tenente Magalhães avisa pelo rádio as suspeitas de uma farra do boi na comunidade de Areias de Baixo. No local, um enorme boi preto se escondia das dezenas de farristas que corriam com lanternas pela propriedade atrás dele. Todos queria ver o tamanho da fera e desafiá-la. O boi já estava no local há dois dias, e todos aguardavam a vinda de mais animais para farrear.

Entre a tarde de sexta e a madrugada de sábado os relatos davam conta de farra do boi em praticamente todas as regiões de Governador Celso Ramos, desde a Armação, Palmas, Ganchos e Areias. Não é raro, nos eventos, encontrar políticos, empresários e pessoas influentes na cidade, que normalmente são quem compram os bois. “Se naquele ano que eu comprei 10 bois tivesse concorrido a vereador eu ganharia a eleição”, chegou a confidenciar um político da cidade num dos pontos de concentração na noite de Sexta-Feira Santa, na comunidade da Armação.

Diário de Bordo – relato dos jornalistas que acompanharam farra do boi como intrusos

Por volta das 17h chegamos em Ganchos do Meio, na praça 15 de Novembro, por onde passa a SC-410. O lugar é o principal ponto de encontro para a farra do boi. Fomos a um bar e pedimos informação sobre o horário e local da farra, mas, ao contrário do que pensávamos, essa informação não foi fácil de ser obtida. Os farristas não costumam falar o local para quem não é da cidade. “Vai ter farra, só não sei aonde”, disse uma mulher.

Com o aumento de policiais por toda a cidade, a movimentação a cada ano que passa a farra acontece de forma mais cautelosa e em regiões mais afastadas, de difícil acesso, e, portanto, mais conhecida pelos moradores. Deslocamo-nos por Palmas, onde teria uma farra do boi, ao chegar ao local, em uma rua sem saída, um jovem disse apenas: “Acabou. O boi foi pra faca”.

Já era noite, e não tínhamos nenhuma informação dos horários da farra do boi. Mas, ao mesmo tempo, sabíamos que ela estava ocorrendo em diversos pontos da cidade. Nas rodas de conversas as pessoas falavam os nomes dos bois e externavam seus atos de coragem ao enfrentar o animal.

Na Armação da Piedade encontramos um ponto de concentração, em frente a Base da Polícia Militar. Alguns jovens chegaram animados comentando e mostrando fotos do boi. Apesar de alguns deles terem se machucado durante a “brincadeira”, o medo não parecia existir. “Ele foi subir na cerca, não deu conta e caiu. Foi levantar e o boi passou por cima”, contava um deles, de forma natural.

Uma das dificuldade era trazer o boi. Devido as barreiras policiais os farristas precisaram ter cautela para conseguir transportar tantos animais de um lado para o outro. Uma barreira montada no principal acesso ao município, na SC-410, monitorou a situação impedindo o transporte de animais.

Na praça 15 de Novembro, uma blitz impediu que a farra acontecesse na madrugada de sábado. Ali os policiais ficaram até as 3h. Logo que saíram começou a preparação, mas até as 5h30 ninguém tinha conseguido trazer o boi. Centenas de pessoas aguardavam ansiosamente no local. Alguns dormindo nos carros.

Em 15 horas na cidade, trilhamos caminhos de areia, escuros em meio a grandes pastos e poucas residências. Apesar de todos falarem da farra, ainda não a tínhamos presenciado.

Depois de alguns longos minutos circulando atrás de uma pista que nos levaria até a comunidade Areias de Baixo, visualizamos uma grande movimentação de carros. O boi estava em um terreno cercado, e sem luz alguma. O único sinal de iluminação vinha das lanternas dos jovens que adentravam no terreno para “brincar com o boi”, como diziam. O animal estava no local desde quinta-feira. Ele já apresentava claros sinais de cansaço e não corria muito. Na escuridão não era possível ver o que eles faziam com o boi, além de provocarem. Em alguns momentos todos gritavam e apagavam as lanternas.

As diversas lanternas apontadas para o boi revelavam os enormes chifres, o tamanho do animal impressionava, mas isso só dava ainda mais disposição para que ele fosse instigado pelos participantes.

Fonte: Notícias do Dia

Nota do Olhar Animal: Veja matéria sobre o destino dos animais resgatados da farra do boi clicando aqui.

 

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