Quase 90% dos bichos resgatados em BH pelo Centro de Zoonoses voltam às ruas, diz prefeitura

Quase 90% dos bichos resgatados em BH pelo Centro de Zoonoses voltam às ruas, diz prefeitura

Estima-se que pelo menos 4 mil cães e gatos vivem nas ruas de Belo Horizonte. Até maio deste ano, 1.400 foram recolhidos pelo Centro de Controle de Zoonoses da capital, onde foram vermifugados, vacinados, castrados e “microchipados”. Apenas 26 retornaram aos seus donos e 154 conseguiram um novo lar. Cerca de 1.220 retornaram às ruas.

“É uma decisão muito difícil. Mas precisamos abrir espaço para receber outros animais que precisam de cuidados”, disse a gerente de controle de Zoonoses Silvana Tecles Brandão.

Os animais são recolhidos mediante demanda da própria população. Segundo Silvana, são de 30 a 40 chamados por telefone, por dia. Nem sempre é possível atender às solicitações, porque muitas vezes, quando um dos carros da CCZ chega até o local apontado, o animal já saiu, especialmente se estiver saudável. Mas não são raros os casos em que são encontrados atropelados, com graves sequelas de saúde.

“Infelizmente, as pessoas não veem o bicho como um ser vivo. Atropelam, vão embora e largam o animal. Não têm responsabilidade”, lamentou Silvana.

Quando chegam ao CCZ, eles recebem avaliação veterinária e, se machucados, são tratados. O dono é aguardado por dois dias. Caso não seja procurado, o cachorro ou gato é castrado, recebe controle de pulgas e carrapatos, vermífugo e faz exame de sangue para doenças, como leishmania, no caso dos cães.

Eles também recebem um microchip, o que possibilita que, caso sejam resgatados novamente, a prefeitura possa conhecer todo o seu histórico. “Isso permite vermos, futuramente, se precisa atualizar algum exame e evita procedimentos desnecessários”, afirmou.

A partir do terceiro dia, é colocado à disposição para adoção, um caminho ainda pouco escolhido por quem quer ter um animal de estimação, lamenta Silvana. Para atrair adotantes, ela já chegou a comprar apetrechos e a fazer fotografias produzidas para divulgar nas redes sociais. Numa destas investidas, de oito gatinhos disponíveis, sete conseguiram um novo lar.

Mas a adoção se complica ainda mais para animais que são considerados especiais, seja pelo temperamento ou porque têm alguma doença ou deficiência. “Toda adoção especial é feita com muito critério. Um animal que é cego, que é idoso, que é mais ativo precisa de adotante especial. Por isso, faço a pessoa vir aqui mais de uma vez, interagir com o animal, mostrar que quer mesmo. Existem alguns animais que é preciso achar a pessoa certa para ele”, contou.

Se o cachorro ou gato não for adotado entre 15 a 20 dias, ele é deixado novamente no local próximo onde foi capturado, para que não perca vínculo com a comunidade, segundo a prefeitura. Este é o destino de 90% dos bichos que chegam ao CCZ.

De acordo com Silvana, o espaço não comporta toda a demanda que chega diariamente. São 16 canis individuais, usados para animais mais bravos e aqueles que estranham o convívio com outros bichos. São doze canis maternidade, para cadelas gestantes, cadelas que pariram ou filhotes encontrados abandonados em caixas pela cidade. Também há nove canis coletivos, em que há espaço para cães jovens e macho e fêmeas separadamente. Toda a estrutura cabe, em média, 140 cachorros. Além disso, há 12 gatis, onde cabe uma média de 25 gatos.

‘Abandono ainda é uma questão de cotidiano das pessoas’ — Foto: Marcella Gasparette

“É possível atender todo mundo? Não, não é possível. São muitas demandas e o abandono ainda é uma questão do cotidiano das pessoas. É um problema crônico. (…) E é uma responsabilidade da sociedade também. O animal que está na rua porque alguém o colocou lá. Ou colocou a mãe ou o pai”, afirmou.

 A gerente do controle de Zoonoses reforça que, apesar de muitas pessoas ainda acionarem a CCZ pedindo para buscar seus animais, alegando mudança ou viagem prolongada, não é este o papel do órgão. “A gente precisa levar mais a sério esta questão. Se quero ter um animal, tenho que ter por completo. Tenho que saber que vou gastar, que vou precisar tratar uma doença e que vou viajar e vou precisar saber onde deixar”, disse.

Para dar conta de um serviço que não tem fim, ela reconhece a importância da parceria com ONGs de resgate de animais, que garantem lar e cuidados aos bichinhos abandonados. “A ajuda de ONGs é fundamental. Não é um problema só do poder público. Se hoje está difícil, com tantos ativistas e ongs ajudando a não deixar tantas demandas só com a CCZ, imagine se não tivessem estas pessoas iluminadas”, disse Silvana.

Proteger e Cuidar

Há dez anos, a professora de enfermagem Vânia Goveia cuida dos gatos de rua que aparecem no campus da UFMG. — Foto: Patrícia Fiúza

Nos jardins da escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG), na Região Hospitalar de Belo Horizonte, cada um dos 80 gatinhos tem nome. Todos eles são conhecidos e reconhecidos pelas professoras Vânia Goveia e Ana Lúcia Mattia, que sentem falta quando um ou outro não aparece na hora das refeições, no final da tarde. “Eles não precisam de nome; nós é que precisamos para identificá-los. E para dizer uma a outra: ‘olha, tem vários dias que o Tigrinho não aparece.’ É importante para sabermos onde e como estão”, disse Vânia.

Logo que chegou à escola para dar aulas, há dez anos, a professora universitária ficou sensibilizada com a quantidade de gatos de rua que perambulavam pelo campus. Em pouco tempo, se rendeu aos felinos e se juntou a Ana Lúcia nos cuidados diários dos animais. A iniciativa deu tão certo que virou projeto Proteger e Cuidar, que hoje conta com mais de 40 madrinhas.

Muitos gatinhos do campus já nasceram ali, mas ainda há quem deixe “presentinhos” – como Vânia carinhosamente chama as caixas que são abandonadas com filhotinhos no local. O último foi em abril, quando alguém deixou uma caixa com quatro filhotes, dois quilos de ração e um bilhete. “Certamente, era alguém que conhecia o projeto, porque pedia desculpas, dizendo que não tinha condições de cuidar”, afirmou.

Vânia e Ana Lúcia dividem tudo: do carinho e cuidados aos animais até as contas. Diariamente, as duas colocam ração e água. Os novos gatos que chegam são levados ao veterinário, vacinados, castrados e vermifugados. E, depois, são colocados para adoção. Seis alunas da faculdade ainda ajudam a divulgar e a encontrar lar para os gatos.

Cerca de 80 gatos vivem no entorno da Faculdade de Enfermagem da UFMG. Lá recebem carinho e ração de voluntárias. — Foto: Patrícia Fiúza

Os adultos que já vivem soltos há muito tempo, Vânia e Ana Lúcia fazem questão de mantê-los no local. “A maioria não é gatinho manso, até gosta da nossa presença, mas não se adaptaria numa casa”, disse.

Para cuidar dos animais, o projeto conta com as madrinhas, que doam R$ 45 para compra de ração e outros suprimentos. Ainda tem aqueles que, uma vez por mês se juntam aos mutirões para ajudar na limpeza das vasilhas e do local onde ficam.

Delegacia agora tem lista de adotantes

Reportagem de cachorro encontrado amarrado em posto de saúde motivou a criação da lista de adotantes. — Foto: Reprodução TV Globo

A dificuldade para encaminhar cães e gatos que chegavam à Delegacia de Investigação de Crimes contra a Fauna foi o que inspirou a delegada Carolina Bechelany a ter uma iniciativa inédita em Belo Horizonte: criar uma lista de adotantes.

A ideia surgiu depois que o G1 contou a história, em abril, de um cachorro abandonado em um Centro de Saúde, no bairro Cachoeirinha, em Belo Horizonte, com suspeita de leishmaniose.

“As pessoas começaram a procurar a delegacia querendo adotar o cãozinho que estava num posto de saúde, amarrado. Quando nós, da delegacia vimos que estavam procurando, pensamos em criar a lista”, contou.

A lista de adotantes foi lançada no Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho. Os interessados preenchem uma lista padrão com nome, telefone, características do animal que a pessoa tiver interesse. Assim que o bichinho surge, segundo Carolina, o interessado é acionado para busca-lo na delegacia. Um termo de adoção é assinado e posteriormente vai ser homologado na justiça.

Atualmente, a delegacia está com 13 cães para adoção. Eles foram resgatados na quinta-feira (4) em situação de maus tratos, no bairro Providência, em Belo Horizonte. Segundo a polícia, a doação dos filhotes já pode ser feita. Os adultos estão sendo encaminhados para castração.

Polícia Civil tem 13 cães disponíveis para adoção; eles foram resgatados na quinta-feira (4) — Foto: Patrícia Fiúza

Quem tiver interesse, pode procurar pessoalmente a Delegacia de Investigação de Crimes contra a Fauna na Rua Bernardo Guimarães, 1571, Lourdes, ou pelo telefone (31) 3282-1356.

Por Patrícia Fiúza

Fonte: G1

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