Quase meio milhar de animais acaba mais um ano sem família em Madeira, Portugal

Quase meio milhar de animais acaba mais um ano sem família em Madeira, Portugal
Fotos: Reprodução Internet

O ano de 2016 está a dar os finalíssimos ‘cartuchos’ e o DIÁRIO decidiu fazer um balanço do número de animais que irão passar o Natal e Fim de Ano em abrigos, na constante espera de uma família que os acolha para o resto da sua vida. Uma espera que se revela infinita e desesperante para muitos animais que, ou por serem ‘velhos’, por terem alguma deficiência, por não terem raça e não estarem dentro dos padrões de beleza, nem chegam a entrar na ‘lista’ de possibilidades da maioria dos adoptantes.

O DIÁRIO conversou com algumas das associações em defesa dos animais da Região, nomeadamente, a Animad, Ajuda Alimentar a Cães e a associação AMAIS, que gere actualmente o Canil Municipal do Funchal. E, segundo os dados recolhidos, há quase 500 animais, entre cães e gatos, prontos para serem adoptados nestas associações.

Apesar de estarmos a assistir a uma sociedade lentamente mais preocupada com os direitos dos animais, ainda se registam casos bastante cruéis na Região no que toca ao abandono e maus-tratos de animais de companhia. Exemplo disso, é o caso uma cadela que foi encontrada na Serra de Água, juntamente com os seus quatro filhotes bebés há poucos dias, pela associação Ajuda Alimentar a Cães. Os animais foram deixados à deriva numa zona bastante fria, à chuva e extrema fome. A cadela, entretanto resgatada com os bebés pela referida associação, revelou sinais óbvios de trauma, não conseguindo conter o medo que nutre por humanos.

João Freitas, presidente da Mesa de Assembleia da Ajuda Alimentar a cães, é advogado e aproveita os conhecimentos da sua profissão para a luta pelos direitos dos animais. Com a criminalização dos maus-tratos e abandonos de animais de estimação, lei que entrou em vigor em 2014 em Portugal, João Freitas tem participado e acompanhado os processos, nas suas diferentes fases, de crimes praticados contra os animais domésticos na Região. Segundo o advogado, estão a decorrer, até ao momento, cerca de 20 processos neste âmbito, na Madeira. As participações deste tipo de crime são feitas às autoridades competentes, nomeadamente ao Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (SEPNA), que intervém e dá o devido seguimento a cada situação.

As associações em defesa dos animais não têm mãos a medir nas acções de resgate e acolhimento dos animais que são encontrados em condições, lamentavelmente, de extrema magreza e com graves problemas de saúde. Mas a verdade é que, dependendo de donativos e de alguns eventos de angariação de fundos, os recursos destas instituições são extremamente limitados e as dívidas nas clínicas veterinárias multiplicam-se a toda a hora. É por isso mesmo que Natália Vieira, presidente da Animad, pede às instituições públicas que apoiem as várias associações em defesa dos animais da Região e que promovam mais iniciativas em prol dos animais. “É urgente para ‘ontem’ que o Governo Regional tenha um programa exaustivo na questão animal”, alerta Natália Vieira. “Nós não temos abrigos suficientes e custa ver os animais a morrerem no canto da estrada. E na altura em que se falou do fim da eutanásia, devia-se ter pensado, também, na criação de mais abrigos para as associações”, confere.

A responsável da Animad alerta, também, para a criação de protocolos mais económicos para as famílias mais carenciadas na Madeira “que, nem tendo o que comer, jamais irão conseguir cuidar dos seus animais como deve ser”.

No caso do Canil Municipal do Funchal, Sara Machado, responsável pela gestão da instituição, explica que, devido à lotação do espaço, só consegue aceitar casos extremamente graves, nos quais os animais temem pela própria vida, onde se incluem ninhadas, animais feridos e doentes. “Recebemos há pouco tempo uma ninhada que tinha sido abandonada ainda com o cordão umbilical. Este é apenas um exemplo de animais que são abandonados mesmo para morrerem”, lamenta.

Em plena contagem decrescente para o Natal, a associações zoófilas alertam para que se tenha cuidado com a aquisição de prendas de Natal por impulso que envolvem seres vivos. Para muitas famílias, esta época festiva é a altura ideal para oferecer o primeiro cão às crianças lá de casa ou até mesmo a um familiar ou amigo. O animal, que idealmente chega dentro de uma caixinha muito bem decorada e faz as delícias de todos nos primeiros dias, acaba por se tornar num fardo quando a família se apercebe que afinal não estava devidamente preparada, quer em termos de espaço, tempo e responsabilidade, para viver com esta ‘prenda’ de Natal durante mais 16 ou 18 anos, tempo médio de vida dos cães.

João Freitas, representante da Ajuda a Alimentar Cães, esclareceu ao DIÁRIO que, de facto, as alturas onde se regista um maior abandono de animais é nos meses de verão, altura em que se vai de férias e se decide, simplesmente, deixar o animal para trás, e em Janeiro, um mês após a aquisição das ‘prendas’ de Natal muito ‘fofinhas’ que, entretanto, começaram a crescer e passaram a exigir mais cuidados que nem todos estão dispostos a ter. “O mês de Natal é um presente envenenado para a nossa associação”, desabafa João Freitas. O porta-voz da Ajuda Alimentar a Cães explica que as pessoas acabam por devolver o animal recebido no Natal com as mais infinitas desculpas: ou porque as crianças já se fartaram dele, ou porque faz as necessidades no sítio errado, ou porque cresceu demais, ou porque simplesmente, ladra. Então, não é suposto um cão ladrar e um gato miar?”, questiona.

Arranjar adoptantes responsáveis é uma constante preocupação de qualquer associação em defesa dos animais. No entanto, Sara Machado, responsável pela gestão do Canil Municipal do Funchal, conta que é muito difícil constatar se, de facto, as pessoas estão mesmo empenhadas para assumir este compromisso. “As pessoas podem mentir e não conseguimos ver se o que nos estão a dizer é realmente verdade, quando vêm ao canil para adoptar um animal. Claro que tentamos fazer muitas perguntas sobre a intenção dos adoptantes e tentamos dar apoio após a adopção. Depois, o que pedimos é que nos dêem um ‘feedback’ da situação dos animais, por exemplo, através de fotografias”, explica.

A grande maioria dos animais que chega a um abrigo já fez parte de uma família que outrora os recebera naquela manhã de Natal ou noutra época especial. Mas, como refere Sara Machado, “quando surge uma dificuldade, os animais são sempre os primeiros a serem descartados”.

Oferecer este tipo de prenda a outras pessoas no Natal é muito arriscado, explica Natália Vieira, presidente da Animad. “A própria pessoa é que deve ter previamente um contacto com o animal para ver se há uma ligação de energias entre os dois porque depois as coisas podem não correr bem e o animal é que acaba abandonado”.

Portanto, fica aqui o apelo das associações zoófilas presentes na Madeira: Após este Natal, não aumente, ainda mais, o número de animais abandonados na Região Autónoma da Madeira. Os animais são prendas de uma vida, não de uma época.

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Por Matilde Abreu 

 Fonte: Diário de Notícias / mantida a grafia lusitana original

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