Recuperado, filhote de coruja rara é devolvido à natureza em Mogi das Cruzes, SP

Recuperado, filhote de coruja rara é devolvido à natureza em Mogi das Cruzes, SP

Ave tinha sido resgatada durante troca de poste, em julho. Animal ficou três meses no CEPTAS de Cubatão.

Por Jamile Santana

SP Mogi filhote coruja

Depois de três meses de recuperação, aprendendo a caçar e a enfrentar o calor, o frio e a chuva, o filhote de coruja de espécie rara, resgatado durante uma troca de poste no mês de julho, em Mogi das Cruzes, foi devolvido à natureza. O caburé-acanelado, foi solto em Cocuera na tarde desta quinta-feira (8), próximo ao local onde foi resgatado. A ave passou por tratamento no CEPTAS Unimonte, de Cubatão, especializado neste tipo de animal.

“Foi um brilhante trabalho feito pela equipe nestes últimos meses. O filhote havia sido retirado do convívio com os pais muito cedo, e por isso precisava aprender a caçar e a suportar os diferentes climas, antes de ser devolvido ao seu habitat. Lá em Cubatão, a coruja foi exposta a ambientes que simulavam mata, com a presença de outros animais”, explicou o médico veterinário Jefferson Renan Araújo Leite, resposável pela soltura.

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Pelas mãos de Ana Beatriz Melo Cardoso, de 9 anos, o caburé-acanelado ganhou o mundo. “Ele voou tão rápido, nem olhou para trás. Entrou no meio do mato. É um começo de uma nova vida”, disse o veterinário.

O animal foi trazido de Cubatão, e solto em Cocuera, próximo ao local onde foi encontrado. “Desta forma, a ave poderá encontrar seu grupo”, destacou. A incidência do caburé-acanelado em Mogi foi registrada pela primeira vez no começo deste ano, em Taiaçupeba. “Até então, não tinhamos essa espécie em nossa natureza local. No começo do ano, foi registrada a presença de um casal de caburés e, em julho, três filhotes foram encontrados durante a troca do poste. Só este que soltamos hoje sobreviveu e está totalmente recuperado”, detalhou.

Campanha

Segundo dados da Polícia Ambiental do Alto Tietê, no ano passado, 991 animais silvestres foram encontrados, entregues ou apreendidos pela equipe na região. Só em 2015, já são 524 casos. Em Mogi das Cruzes, por exemplo, estes animais recebem atendimento no Centro de Controle de Zoonoses mas, dependendo da gravidade, são encaminhados ao Centro de Recuperação de Animais Silvestres (CRAS) do Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo.

Com o alto volume de ocorrências, cerca de 80 por mês, especialistas defendem que a região precisa – para ontem – de um centro especializado mais completo em alguma cidade da região. De acordo com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), que administra o CRAS no Parque Ecológico do Tietê, desde 2011 a unidade recebeu e tratou 1.903 animais resgatados ou apreendidos no Alto Tietê. Deste total, 1.619 animais são de Mogi das Cruzes.

O veterinário iniciou uma campanha, que arrecada assinaturas para a petição “Ajude Mogi das Cruzes a ter um Centro de Triagem de Animais Silvestres( CETAS)”. Até a noite desta quinta (8), o documento já tinha 1.154 assinaturas.

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Atendimento

As cinco ocorrências de animais que citamos no começo do texto foram atendidas pelo veterinário Jefferson Renan Araújo Leite que, além de ser funcionário público e atuar no CCZ de Mogi, é especialista em animais silvestres. Sua experiência no resgate de diferentes espécies é o motivo pelo qual o profissional se dedica à elaboração de um projeto para a implantação de um Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) ou de um CRAS no município.

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“Há uma demanda grande de atendimento a animais silvestres em toda região. Estamos em uma área muito rica em biodiversidade e é muito comum o encontro de espécies silvestres em situação de risco ou feridas, sem mencionar as apreensões de animais vítimas do tráfico. O que fazemos hoje, é um pré-atendimento, de forma precária, até poder encaminhar para um Centro na Capital ou outra cidade. Perde-se tempo e esse deslocamento piora o estado de saúde dos animais, sem contar o estresse’, explicou o veterinário.

Segundo a Polícia Ambiental, em 2014 foram encontrados ou entregues 338 animais e aves silvestres. Nesse ano, já são 127 casos. Há ainda a recuperação de animais, que são apreendidos em operações de combate o tráfico. No ano passado 653 animais foram apreendidos, contra 397 neste ano. Na maioria dos casos são aves como canário da terra, corujas, tucanos, sabiás e até espécies que ainda não foram catalogadas. Isso, sem contar os atendimentos feitos pela Delegacia de Meio Ambiente, da Polícia Civil.

“Entre os animais resgatados, só chegam na minha mão aqueles que necessitam de atendimento imediato ou que são trazidos por populares. Há outras entradas via Polícia Ambiental e Delegacia do Meio Ambiente, que vão direto para São Paulo”, explicou Jefferson Leite.

De acordo com o comandante da 5º Cia da Polícia Ambiental, Júlio César Araújo da Silva, a instalação de um centro de recuperação de animais silvestres na região é uma necessidade. “Seria viável uma vez que evitaria o transporte dos animais e aves por rodovias, reduzindo o tempo de deslocamento até o local de destinação, evitando assim o estresse dos animais”, destacou.

Biodiversidade

Para se ter uma ideia, só o Parque Natural Municipal Francisco Affonso de Mello – Chiquinho Veríssimo, na Serra do Itapeti, pode ser considerado um grande viveiro da flora e fauna nativas da Mata Atlântica. Com área de 352,3 hectares, o local é hoje ponto de referência para a comunidade científica e um referencial para a comunidade, que participa de visitas monitoradas. Sua biodiversidade inclui 372 espécies vegetais, entre árvores, arbustos e orquídeas, 207 espécies de aves, 62 de mamíferos e 40 de anfíbios. O parque possui Centro de Visitantes e trilhas interpretativas.

O fotógrafo Antônio Wuo, especializado na produção de desenhos e no registro de fotos de belezas naturais defende a instalação do centro. No ano passado, ele lançou o livro “Mata Atlântica – Frágil Exuberância – Um Ensaio Artístico”, que registra em 500 imagens, a vida animal e vegetal dentro da Serra do Itapeti. Foram 10 anos de incursão na mata. “Mogi e região têm uma variedade de vida silvestre. Com segurança podemos afirmar que são mais de 350 espécies de aves, não saberia nem estimar os números todos, mas particularmente já registrei muitos mamíferos, répteis, anfíbios e uma quantidade imensamente expressiva de insetos. Quando o inevitável ocorre, não temos estrutura, nem logística para o socorro. Recentemente, em uma troca de postes, apareceu uma família de corujas caburé-acanelado, uma especial preciosidade. Era o casal e três filhotes. Um deles foi resgatado, cuidado e enviado para Cubatão para continuidade do procedimento de mantê-lo, treiná-lo para reintrodução na natureza. Um centro aqui em Mogi seria absolutamente essencial, e aumentaria a margem de sucesso. Progresso não se faz, nem se fará, separando educação ambiental e integração com o meio ambiente”, diz o fotógrafo.

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Urbanização

O avanço da urbanização em áreas de proteção ambiental, além da falta de fiscalização nestas regiões, também provocam ocorrências de fuga de animais silvestres. Algumas espécies mal foram catalogadas e já estão ameaçadas de extinção, como no caso do bicudinho-do-brejo-paulista, ave recém-descoberta em uma área de preservação em César de Sousa que foi afetada por uma obra municipal que resultou na seca de um pequeno lago.

“Esse pássaro só é incidente nesta região e em áreas próximas ao Rio Paraíba e São José dos Campos. Além da fiscalização, é preciso trabalhar com a população, com educação ambiental. Essa área de preservação (lagoa), por exemplo, é cheia de entulho, de lixo. Nesse trecho encontram-se várias espécies como os caboclinhos-de-barriga-vermelha e o de barriga-preta, aves migratórias que viajam centenas de quilômetros para se reproduzirem ali”, afirmou Jefferson Leite.

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Implantação

De acordo com Leite, a implantação do CETAS ou do CRAS não precisa, necessariamente, ser feita pelo Poder Público. O veterinário tem feito diversas pesquisas sobre a implantação destes dispositivos em outras cidades, e em vários casos, a criação dos centros surgiu em parceria com empresas, como forma de compensações ambientais. “Isso pode ser feito a partir de um CNPJ. Em Jambeiro, por exemplo, a empresa que administra o aterro sanitário criou o projeto como forma de compensação. Isso também acontece com algumas empresas que precisam atender Termos de Ajuste de Conduta (TACs), determinados pelo Ministério Público”. O médico veterinário está concluindo um projeto com dados sobre o volume de ocorrências com animais silvestres em áreas urbanas e busca parcerias para implantação.

Algumas áreas de Mogi que poderiam abrigar o centro já foram sondadas. “Além da localização em si, é necessário pensar numa área onde é possível fazer a soltura destes animais. Em Mogi, já observamos a possibilidade no Itapeti e Taiaçupeba. Área é o que não falta”, destacou.

A Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo informou que “na região Leste do Estado há a maioria desses empreendimentos em funcionamento e relativamente próximos a Mogi das Cruzes. Este Departamento de Fauna entende que a prioridade, na presente gestão, é implantar CETAS em outras regiões do Estado, como ao norte, oeste e centro, que não contam com esses equipamentos”.

Fonte: G1

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