Resgatados de Brumadinho, animais que aparecerem em jogo do América são adotados

Resgatados de Brumadinho, animais que aparecerem em jogo do América são adotados
Resgatados de Brumadinho, animais que aparecerem em jogo do América são adotados — Foto: Divulgação

Um grupo de cães entrou no gramado da Arena Independência, na região Leste de Belo Horizonte, no último dia 5, quando o América e o Athletic travaram uma partida pelo Campeonato Mineiro de 2022. Os bichos, que foram resgatados de Brumadinho nos últimos três anos, desde que a mina do Córrego do Feijão se rompeu na cidade, ganharam notoriedade no gramado e, principalmente, parte deles, um novo lar. Dois foram adotados por torcedores do Coelho após a ação, e outros 30 estão em processo para ganharem uma nova família.

Magda Castro, de 50 anos, supervisora de fauna da fazenda Abrigo de Fauna, na cidade de região metropolitana da capital, comemorou a inciativa do time mineiro. A Vale cuida de cerca de 300 animais, entre cães e gatos, que foram resgatados no município. Todos passam por diversos procedimentos antes de estarem elegíveis para adoção – desde vacinação, castração, vermifugação, até treinamentos de socialização com outros bichos e com seres humanos. Muitos, antes de serem acolhidos, tinham medo, ou agressividade, o que, conta Magda, ficou no passado.

“Esses animais foram impactados direto ou indiretamente [pela tragédia em Brumadinho]. São animais que, ou são abandonados em áreas de obras, ou de propriedades atingidas pela lama, ou cães e gatos errantes, que ficam vagando na cidade. Foram recolhidos logo após o rompimento, ao longo dos últimos três anos, muitos por abandono. Eram animais que viviam na rua e tinham várias comorbidades. Muitos eram animais mais arredios, tinham medo. Nós tratamos de todas as doenças e fazemos um trabalho de comportamento com especialistas para trabalhar a socialização”, explica.

“Foi uma ação brilhante. O América está nessa defesa [dos direitos dos animais]. Nos preparamos uma semana inteira. Fazemos a seleção dos animais com perfil de guia, que se socializam bem. Ficaram juntos uma semana para ficarem bem um com o outro. Chegamos com eles cerca de quatro horas antes para se ambientarem no local, entenderem onde estão. Andamos nos entornos, nas arquibancadas. No local onde eles ficariam à exposição. Levamos água, tapetinho, comida, e a equipe de veterinários para ajudar no manejo. Entregamos eles para os atletas na hora de entrar em campo. Cada um escolheu um”, narra.

Acompanhamento

Além de os animais passarem pelos procedimentos veterinários antes de serem adotados, há um acompanhamento por, ao menos, seis meses, depois que eles são entregues aos tutores. Durante o processo, é feito, também, um alinhamento entre a personalidade de cada bicho e o que os adotantes procuram.

“Monitoramos, no mínimo, por seis meses para ver se adequou no novo lar. O tutor quer adotar tem que levar a documentação de identificação, precisa estar disponível para a gente fazer o acompanhamento, aceitar o monitoramento por esse período. Ajudamos caso [o animal] não se adeque, também. É preciso estar com a disponibilidade para cuidado com o animal. Temos todos os cuidados”, diz Magda.

Amigos que ficam

Dentre as várias histórias que cercam o projeto, a supervisora narra uma que a marcou. Um idoso, que sofria com um processo crítico de depressão, adotou, por intermediação da neta, um cão, também idoso, que se tornou um grande amigo.

“Selecionamos um animal que tinha o mesmo perfil que o senhor. Após a adoção, eles tomavam banho de sol juntos, caminhavam juntos, e o idoso passou a ter uma motivação a mais. A neta nos contou como isso mudou a vida dele”, lembra.

Outro, foi a relação entre uma família que adotou um cão que não tinha uma das patas. O bicho havia sido atropelado e foi resgatado pela iniciativa. “A família nos contou como foi importante para as crianças, até para entenderem e lidarem com a condição física dele”, acrescenta.

“A troca de carinho, de atenção, é enorme com o humano que adota. Vira um companheiro. Traz um bem-estar muito grande para pessoa, independente de raça, tamanho. Os animais com raça indefinida que vêm de rua se tornam muito gratos. É impressionante. Você o tira de uma condição muito ruim e contribui para reduzir que isso aconteça. Ainda, ajuda a reduzir doenças de zoonoses em geral, reduz a quantidade de animais que ficam expostos a maus tratos. [Quem adota] não contribui só com a pessoa, nem só para o animal, mas para a saúde pública”, defende.

Adoção é discutida caso a caso

A mineradora não restringe quem pode adotar os animais, desde que os procedimentos-padrão sejam cumpridos. Não é necessário viver na região metropolitana de Belo Horizonte, nem em Minas Gerais, por exemplo. “Anteontem [segunda-feira (15), uma menina que adotou, que viu o jogo [do América], de Montes Claros, veio buscar o cão”, exemplifica.

“Em Minas, a cerca de 200km de Brumadinho, entregamos para os tutores. Não bloqueamos adoções, mas discutimos cada caso. O monitoramento é essencial. Se não conseguirmos prestar contas, é um problema. Se for uma família que tope fazer online, temos possibilidade de fazer esse acompanhamento. No momento, discutimos uma possibilidade para o Maranhão”, conclui.

Por Lucas Negrisoli

Fonte: O Tempo

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