Santuário vegano oferece segunda chance a animais vítimas de maus-tratos

Santuário vegano oferece segunda chance a animais vítimas de maus-tratos

O santuário Wings of Heart, nos arredores de Madri, abriga cerca de 300 animais sobreviventes do abandono e da exploração pecuária.

Por María Zuil / Tradução de Flavia Luchetti

Vacas, gansos, ovelhas, porcos e cabras convivem neste espaço administrado por Laura Luengo e Edu Terrer, um casal que deixou tudo para por em prática a sua filosofia de vida, direcionada ao veganismo e ao direito dos animais.

A cabra Estrella é um destes animais. Ela caiu de um penhasco na província de Almería e, por três dias, ficou sozinha, sem água e comida, esperando que alguém fosse ajudá-la. O pastor encarregado recusou-se a assumir sua responsabilidade. Foi quando um grupo de montanhistas a encontrou e ela finalmente pode ser resgatada, tendo uma segunda oportunidade a 500 km dali.

Agora Estrella vive no santuário Wings of Heart e diariamente recebe duas horas de cuidados exclusivos, com tratamentos, troca de fraldas e passeio. Estrella já não pode saltar pelos montes como antes, mas tem uma cadeira de rodas para se mover, e ainda é bastante desconfiada, à exceção de Laura: “Ela me deixa fazer tudo, sou a única que a acalma”.

Uma história, um nome

Há cinco anos em funcionamento, o santuário tem casos como o de Javi, um touro de três anos que foi resgatado com apenas um dia de vida após sua mãe ter sido levada para um matadouro. Sua história é apenas uma dentre todas as que estão por trás de cada animal que vive neste centro.  Rayito é um javali que foi encontrado ainda bebê e agora recebe os visitantes. Sua melhora amiga é Barbosa, uma porca que foi salva de um matadouro por um grupo de ativistas.

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“Sempre estivemos envolvidos em movimentos pelos direitos dos animais e sentimos que tínhamos que montar um lar onde eles pudessem ter uma vida em liberdade”, explica Laura, co-fundadora do Wings of Heart. A maioria dos animais chegou ao santuário através de associações e voluntários, procedentes de apreensões em casos de maus-tratos ou abandono; alguns chegaram após sofrerem acidentes de caminhões, que os levariam para o abate, ou também resgatados das inundações do Rio Ebro em 2015. Uma vez no santuário, os animais ganham um nome, que geralmente coincide com o da pessoa que os trouxe ou resgatou, reivindicando também que seus direitos devem ser iguais aos dos seres humanos.

Há cerca de vinte santuários na Espanha

Para montar este projeto a inspiração veio do modelo de santuário surgido nos Estados Unidos há vinte anos, que tem como objetivo acolher a todos os tipos de espécies que tenham sido maltratadas. Na Espanha há cerca de vinte espalhados por toda sua geografia. “Nós o idealizamos pensando nos animais de fazendas, que foram criados para o consumo, porque acreditamos que é possível excluí-los da alimentação humana, mas não podem ser dados para adoção”, explicou Laura, que reconhece que seu gesto ainda é pequeno, mas espera poder atingir muitas pessoas. “Acreditamos que, apesar de serem poucos animais, já ajudamos a dar visibilidade sobre o problema e, sobretudo, eles têm a oportunidade de levar uma vida em paz”.

O santuário ainda não tem reconhecimento legal, está constituído como uma fundação e assim dispõe de uma “surreal” licença de produtor rural para poder abrigar animais, “eles têm que passar pelos mesmos controles como se fossem gado para consumo”, lamenta Laura. “Estamos em um vazio jurídico porque não existe essa consciência de que alguém resgata um animal apenas para que ele viva”.

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Antes de se entregarem aos cuidados de seus peculiares companheiros, Laura estudou Belas Artes e conciliava o trabalho enquanto se dedicava ao ativismo. Eduardo era programador e trabalhava em uma empresa familiar. Juntos, eles começaram a resgatar animais que acolhiam em sua casa, mas logo perceberam que não era suficiente, por isso se mudaram de Valencia para se dedicarem em tempo integral a expandir e cuidar desta grande família, com a ajuda de voluntários que passam longos períodos no santuário. O casal se dedica com prazer, todos os dias, a esta causa, embora não tenham tido um dia de folga sequer nestes dois últimos anos.

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Cerca de 900 parceiros financiam o projeto

“Eu queria poder me dedicar 100% na causa dos direitos dos animais e, ainda que no começo tivesse muito medo de renunciar a minha vida, estou muito feliz em ter feito essa escolha”, explica Eduardo, embora reconhecendo que nem sempre é fácil. “Quando você vê que alguns estão muito mal, gera muita impotência, ou quando você tem um resgate e há complicações. Nós também temos preocupações com o orçamento, porque precisamos de dinheiro para seguir avançando”.

O santuário é financiado pelas contribuições de cerca 900 sócios, onde conseguem em média doze mil euros por mês, necessários para a comida, material, o aluguel da propriedade de sete hectares e especialmente para veterinários e medicamentos. “Muitos chegam aqui porque já têm algum problema e não servem para os pecuaristas, sua vida já não tem valor”, conta Laura. Contudo, também é difícil a compreensão de veterinários que os ajudem a salvar, o que para a maioria é somente um pedaço de carne: “É difícil encontrar especialistas que tenham os conhecimentos para salvar suas vidas, custe o que custar, e não apenas para o que produz”.

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Diante desta falta de cuidados especializados, Laura e Eduardo tiveram que ir aprendendo através da experiência para saber, por exemplo, como curar as feridas da ovelha Evelyn, recém-chegada a casa com uma fratura e que agora se recupera da cirurgia. Também no caso da mula Luna, que passou boa parte de seus 29 anos trabalhando com cargas pesadas e em consequência teve uma grave fratura no quadril, agora necessitando de um guindaste para ser levantada para curar as feridas por ficar tanto tempo deitada.

Ela é precisamente uma das principais razões pelas quais eles estão em busca de um novo lar, mas desta vez a dupla procura um imóvel próprio, onde possam construir todas as instalações necessárias e instalar-se definitivamente: “Estamos olhando fazendas em Astúrias, com pastos verdes onde os animais possam estar em liberdade”, explica Laura. “Aconteça o que acontecer, queremos que eles tenham um lar”.

Livro publicado para angariar fundos para o santuário: http://ochodoscuatroediciones.org/wp-content/uploads/2015/12/Refugiados_Ochodoscuatro_ediciones.pdf

Fonte: El Confidencial

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