Santuários de animais em Madrid: voltar a viver

Santuários de animais em Madrid: voltar a viver

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É quinta-feira. Como todos os dias a quatro anos, Laura Luengo levantou às sete da manhã para dar comida a seus animais, limpar as instalações e realizar as mil e uma atividades para cuidar dos 250 seres que moram com ela: porcos, vacas, perus, cabras, cachorros, gatos, galinhas, ovelhas, entre outras espécies. Um trabalho tão duro como de qualquer fazenda, com a diferença que Luengo não trabalha em uma, mas sim, em um santuário madrileno Wings of Heart, o lugar ao que dedica sua vida e suas economias para, junto do seu companheiro Eduardo Terrer, dar uma nova oportunidade aos animais vítimas de exploração e abuso. “Sempre fomos ativistas pelos direitos dos animais”, explica a vallisoletana de 34 anos. “Mas chegou um momento em que percebemos que os animais de fazenda não tinham para onde ir. Decidimos constituir uma associação, procurar um terreno e dedicar nossa vida a salvá-los”, acrescenta.

Não é tarefa fácil. Além dos 6.000 euros mensais de gastos operacionais para manter uma instalação como esta, Luengo e Terrer se depararam com um vazio legal. “A lei não reconhece a figura de santuário ou protetora de animais de fazenda, assim, nos exigem o mesmo que uma fazenda convencional: principalmente imposições focadas às questões sanitárias relativas ao consumo de carne”. A diferença é substancial: cada animal que entra no santuário vive lá até o final dos seus dias. Não é como um abrigo ou uma proteção, onde só tem espaço para os animais domésticos que depois são adotados; aqui tem lugar para todas as espécies, pois eles entendem que todo animal tem direito a não ser considerado um recurso e, principalmente, a ser feliz. Especialmente depois de uma vida de sofrimento.

A Espanha está passando por um mini-boom desses santuários. Em menos de um ano foram inaugurados cinco. O pioneiro, El Hogar Pro Vegan (O Lar Pró Vegano), em Tarragona, nasceu em 2007. “O começo foi difícil”, lembra uma das coordenadoras, Diana Esteban. “Começou como abrigo para cães e gatos, mas o campo de compaixão foi se ampliando até o resto dos animais”, explica. Embora hoje esteja consolidado, o lar tem os mesmos problemas que qualquer outro santuário. “Não temos ajuda nem subsídios e nos mantemos exclusivamente graças às doações”, conta Diana.

Para Paula González, colaboradora do blog El Caballo de Nietzsche, de tema animal, e voluntária do Wings of Heart, “os obstáculos econômicos são inumeráveis. Estamos divididos entre o odioso termo ‘exploração financeira’ e outro mais amável e que se ajusta mais à realidade, que é associação ou ONG”.

A falta das redes de apoio

Talvez a prova mais evidente do quão árduo é esse caminho são as dificuldades que o Santuário Gaia, em Girona, está passando. No fim de 2014 o santuário lançou um pedido desesperado de ajuda: seu contrato de aluguel acabou e tiveram que procurar um novo local. Mas as doações não eram suficientes para adquirir um novo terreno, o que se somou à ausência de ajuda por parte dos bancos. “É fundamental garantir a compra e não o aluguel para conseguir a sobrevivência do projeto a longo prazo”, aponta Paula. E mesmo que possa contar com o dinheiro, ainda não é fácil. “Não há terrenos que tenham as instalações que um santuário de animais precisa, então temos que construí-las. As instalações idealizadas pelos agricultores e criadores também não servem, porque não vamos repetir os padrões arquitetônicos de escravidão.

Exigimos um novo modelo de habitação para os animais. O mais fácil é pensar e construir nós mesmos, com o elevado custo que isso gera”. Esta situação de desamparo contrasta com a de outros países, como os EUA, onde desde 1998 os santuários estão associados à American Sanctuary Association (ASA). Há mais de 50 santuários distribuídos pelo país e a maioria funciona de uma forma infinitamente menos precária. Para Diana, essa diferença é um sintoma de que algo está faltando deste lado do mundo: “Nos países mediterrâneos falta cultura de doação e voluntariado, algo muito mais enraizado nos países anglo-saxões”, explica.

No Wing of Heart, alheios a estes problemas, os animais vivem em um regime de semiliberdade: durante o dia andam pelos pastos livremente; à noite dormem em abrigos individuais. Santiago e Ruth vieram conhecer Doc, um javali de personalidade social que apadrinharam ao conhecer sua história, tão desoladora como a da maioria dos animais que vivem no santuário. “Havia tantos animais que sobreviveram a situações de exploração, que foi difícil escolher um, mas finalmente nós escolhemos o Doc”, conta Santiago. “Sua mãe foi morta quando era pequeno”, lembra Luengo. “Sendo filhote de javali, passou a ser utilizado como entretenimento para os cachorros, uma prática muito comum entre os caçadores. Um deles o levou, e Doc acabou na casa de uma mulher que colabora com protetoras. Não sabia o que fazer com ele, e ele veio para cá”. Hoje é surpreende ver o sortudo Doc correndo com outros animais e relacionando-se mansamente com os humanos, cuja presença já está acostumado. “Ele vive com os porcos: estou convencida que pensa que é um deles”, brinca Luengo.

A história de Doc é a mesma de qualquer animal que povoa o Wings of Heart. A maioria deles chega em condições deploráveis, e alguns, em situação limite. É o caso de Manu, um pequeno potro que, depois de chegar ao ponto de quase não sobreviver, está fazendo grandes progressos graças a uma reabilitação longa e cara. Seu caso gerou muita atenção nas redes sociais, onde o santuário é especialmente ativo. A compaixão, a empatia e o apoio recebido por doadores anônimos possibilitaram que ele volte a andar, em um processo que iam documentando com vídeos e fotos que acumularam centenas de Curtir.

Além do clique, os sócios-doadores de Wings of Heart podem visitar o santuário para conhecer em primeira mão. Quando o fazem, ficam impressionados. “Muita gente, inclusive pessoas do campo, se surpreende ao ver como os animais se adaptam a sua nova vida”, explica Laura Luengo. “Quando desaparece neles o medo e a ameaça, tudo muda radicalmente”. Por isso é fácil vê-la brincando alegremente com qualquer animal que vive no santuário, sem distinção. Luengo, como tantos outros ativistas que lutam contra o especismo – a discriminação por motivos de espécie – não prioriza animais supostamente domésticos dos que não são. Na verdade, Luengo está convencida que muita gente também não faria essa distinção se tivesse a oportunidade de ver como os habitantes de Wing of Heart vivem e convivem com as pessoas.

“Não há diferença entre uma cabra tratada com respeito e um cachorro como os que muitos têm em casa”, defende.

Fazer com que cada vez mais pessoas entendam esse respeito é o objetivo principal dos santuários. Seus responsáveis são otimistas em relação ao futuro e acreditam que a forma como os animais são vistos está mudando para melhor. E nessa luta estão dispostos a continuar colocando seu pequeno grão de areia. “Os santuários são um oásis”, diz Luengo. “Uma projeção de um mundo ideal onde se pode conviver em harmonia com os animais sem precisar abusar deles. De igual para igual”, acrescenta. Para Diana, cada um dos animais que vivem no santuário tem uma missão: “Ser embaixadores de sua espécie para mostrar à sociedade o que os animais em realidade são: seres inteligentes, sociáveis e carinhosos com direito a uma vida digna”.

Fonte: La Marea

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