Sem carne no prato, sem couro no sapato: movimento vegano conquista público também no Espírito Santo

Sem carne no prato, sem couro no sapato: movimento vegano conquista público também no Espírito Santo
Izzy é vegana militante contra o entretenimento animal — Foto: Isabela Altoé

Um prato onde não entra carne bovina, frango, peixe, qualquer fruto do mar, mel, ovo e nenhum derivado de leite. Um guarda-roupa onde não entra seda, couro e penagem. Não ao circo, zoológico, cavalgadas e espetáculos que exploram o entretenimento animal. Consegue imaginar sua vida assim? É o que já fazem quase 5 milhões de brasileiros, um número que cresce também no Espírito Santo. Muito além do “pode” e “ não pode”, o veganismo vem se consolidando como um movimento político pela não-violência, contra o impacto ambiental e a favor do estilo de vida saudável.

VÍDEO: Em Movimento: Veganismo

Isabela Altoé (ou Izzy), jornalista e mestranda em Ciências Sociais, é vegana há cinco meses, mas vegetariana desde 2015. Ela, que sempre militou contra o entretenimento animal, mudou a alimentação quando percebeu incoerência entre seu discurso e seus hábitos. “Eu defendia que não podia maltratar o animal em zoológico, mas comia carne. Aos poucos, fiz a transição. Minha maior preocupação era deixar de comer o que eu gostava, tipo hambúrger. Hoje, vejo que isso foi o de menos. Tudo dá pra fazer em versão vegana”.

“Eu defendia que não podia maltratar o animal em zoológico, mas comia carne. Aos poucos, fiz a transição.” – Izzy Altoé

Já Marcela Uliana, médica de saúde integrativa, adotou o veganismo há cinco anos quando se deparou com dados sobre o impacto da alimentação onívora no equilíbrio ambiental do planeta. No processo, foi percebendo que o maior desafio estava além do prato. “A alimentação é desafiadora, mas é algo que você se acostuma no dia a dia. Já os produtos de limpeza, os cosméticos depende do seu engajamento pra ser fácil de encontrar ou não. Muitos produtos ainda são testados em animais, assim como roupas. A internet é uma grande aliada e o bicarbonato de sódio e óleo de coco também”, brinca.

“A internet é uma grande aliada e o bicarbonato de sódio e óleo de coco também.” – Marcela Uliana

Marcela é médica de saúde integrativa e vegana há 5 anos — Foto: TV Gazeta ES

Marcela usa bicarbonato de sódio para substituir produtos de limpeza e a pasta de dente. Filha de dentista, o sorriso vegano já foi aprovado, mas com ressalvas. “O bicarbonato é muito abrasivo, então não é todo dia que eu uso. Às vezes, só a escova sem pasta mesmo. Há pouco tempo, encontrei cremes dentais veganos que hoje compro pela internet.”

Se era difícil ser vegano há 78 anos, quando o pacifista inglês Donald Watson criou o termo “vegan”, hoje não é mais. Uma rápida pesquisa pela tag “vegan” no Instagram já te leva pra um mundo de fotos e receitas coloridas que fazem qualquer carnívoro querer experimentar.

Incontáveis perfis nas redes sociais se dedicam a compartilhar receitas para a alimentação e cosméticos. Um deles é o @eudesouzavlog, um perfil no Instagram do estudante capixaba David Souza, vegano há quatro anos. Ele ensina a fazer churros, pudim, coxinha, lasanha, pizza, empadão, torta, provando que vegano não come só salada. “O legal é ver o feedback disso, muitas pessoas fazem as minhas receitas, compartilham comigo e ficam felizes de conseguirem fazer uma comida gostosa, vegana e barata em casa”, conta David. Questionei sobre a comida vegana não ser cara mesmo e ele disse: “Se um vegano quiser comer industrializados, ir a restaurantes caros, vai ficar caro – assim como alguém não vegano com esses hábitos também gasta muito. E tem coisa mais cara que 1kg de carne? Com o mesmo valor da carne, você vai à feira e compra vegetais pra semana toda. No veganismo até a casca de banana vira bife.”

“Com o mesmo valor da carne, você vai à feira e compra vegetais pra semana toda. No veganismo até a casca de banana vira bife.” – David Souza

David divulga seus pratos na internet e mostra que é possível ser vegano sem gastar muito — Foto: David Souza

É no seu perfil que Izzy também compartilha suas aventuras na cozinha. “O veganismo mudou minha vida porque comecei a me interessar pela cozinha e a me questionar sobre minha relação com comida, inclusive meu mestrado em Ciências Sociais é na área de Antropologia da Alimentação”.

Prazer, comida

Pela força do hábito, a gente come o que come porque reproduz o que nos foi passado pela família. O vegano é quem parou pra se questionar o que está além da bandejinha de carne na seção de frios do supermercado. Izzy provoca: “Nossa cultura alimentar é pautada em esconder que a carne que se come já foi um ser vivo. Há uma hiperhigienização nos processos – o que acaba nos distanciando de que a carne na bandejinha já foi um animal inteiro com cabeça. Quase não se compra um animal inteiro com cabeça. E quando compra, as pessoas acham esquisito, acham nojento.” A pesquisadora provoca sobre a relação do homem com outros seres vivos.

“Ainda temos uma visão muito antropocêntrica, de que o homem está no centro de tudo e a gente acaba não vendo os outros seres que estão a nossa volta. E é muito importante resgatar essa relação!”

“Nossa cultura alimentar é pautada em esconder que a carne que se come já foi um ser vivo.” – Izzy Altoé

Por que o veganismo virou moda?

No Brasil, 14% da população se declara vegetariana, segundo pesquisa do IBOPE de Abril de 2018. Isso representa um crescimento de 75% em relação a 2012. A expectativa é que o veganismo aumente proporcionalmente. Não dá pra dizer que é só modinha, né?! Entenda:

Riscos Alimentares

Episódios como os da ‘vaca louca’, ‘carne de papelão’, entre outras denúncias sanitárias, aumentam a insegurança alimentar. O risco de um alimento contaminado e a dúvida da procedência são uma das motivações que endossam o movimento vegetariano e/ou vegano. O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos divulgou em 2017 o resultado de uma pesquisa que afirma que o consumo excessivo de carne vermelha aumenta em 26% o risco de doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e infecções.

“Há um movimento de vida saudável, alimentação mais natural. Então, as pessoas se aproximam do estilo vegetariano ou vegano”, comenta a nutricionista Daiana Von Borel.

VÍDEO: Em Movimento: Nutricionista fala sobre veganismo

Questão Ambiental

Neste ano, o relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU divulgou alerta máximo para o aquecimento global, indicando que o consumo de carnes e laticínios intensifica a emissão de gases. O rebanho bovino responde por mais de 17% de gases de efeito estufa no Brasil.

E a questão ambiental: a agropecuária é a atividade que mais causa impacto no planeta. Uma plantação enorme de grãos para alimentar bicho e não para alimentar gente. Desmatamento, perda de habitat, emissão de gases. No mais, a carne é um dos alimentos que mais usa água para ser produzido. São 16 mil litros de água para 1kg de carne. (Fonte: ONU Water Report).

Soma-se a isso a motivação pelo amor aos animais, contra os maus tratos, sofrimento e exploração.

A lei da adaptação

Se aumenta a demanda, há que se aumentar a oferta. Hoje, já são mais de 20 estabelecimentos veganos na Grande Vitória, entre restaurantes e cafés. Fora os que já se mobilizam a incluir opção vegana no cardápio. A praça de alimentação de um grande shopping em Vila Velha ganhou há menos de um mês uma opção vegana. Pedro Henrique Rocha, proprietário também vegano, trabalhou no varejo dentro de shoppings por 10 anos e sempre encontrou dificuldades de se alimentar. Daí, a ideia de abrir um espaço vegano. “Nesses 27 dias em que estamos abertos as expectativas estão excelentes. O feedback está sendo super positivo, apesar de ainda existir muito preconceito sobre esse estilo de vida.”

Mesmo quem não é adepto ao veganismo, acaba sendo atraído pela curiosidade de novos sabores. Eu, Luanna, sou onívora, mas bastante curiosa. Fui convidada a participar de uma degustação às cegas de aperitivo e sobremesa vegana no restaurante do Pedro Henrique. E confesso: surpreendente! Confira no vídeo como foi.

VÍDEO: Experiência vegana surpreende capixabas

É um movimento que as grandes marcas acompanham. Neste ano, a Danone trocou o leite de vaca pelo leite de amêndoas em uma linha de iogurtes veganos. O que ganhou respaldo também pelo público com intolerância à lactose.

Manuela Felício está a frente do Bistrô Baby, em Vitória, uma empresa com foco em produtos para celíacos e também pessoas com alergias e intolerâncias à laticínios. “Eu tenho uma filha com alergia ao leite e percebemos que havia um gap no mercado pra esse nicho. Como os nossos doces são livres de leite e de ovo, acabamos atraindo uma clientela que é vegana. Isso é inclusão alimentar.”, comemora Manuela lembrando de que o nosso corpo está dando respostas a alimentação que praticamos, o que requer novos hábitos.

Por Luanna Esteves

Fonte: Gshow


Nota do Olhar Animal: A matéria traz uma definição de veganismo que entendemos como equivocada. Diz ela que “…o veganismo vem se consolidando como um movimento político pela não-violência, contra o impacto ambiental e a favor do estilo de vida saudável.”

Acompanhamos o site Ética Animal na definição que consta em seu site:

“O veganismo é uma posição moral que se opõe à exploração dos animais não humanos ou, de outro modo, a prejudicá-los. Isso inclui o que fazemos diretamente, como a caça e a pesca e também inclui o que sustentamos como consumidores, o que afeta um número muito maior de animais. Os animais não humanos são rotineiramente mortos e obrigados a sofrer em fazendas e matadouros. Isso acontece porque existe uma demanda por produtos de origem animal, especialmente produtos alimentícios. O veganismo significa não consumir esses produtos para que os animais não sejam prejudicados para produzi-los.

No âmago do veganismo está o respeito por todos os seres sencientes. Os veganos veem todos os animais sencientes como seres que devemos respeitar, não como objetos para usarmos.”

Portanto, veganismo tem a ver com animais não humanos, não com “estilo de vida saudável” ou com questões ambientais, exceto as que atingem os próprios animais não humanos. Eles são o foco.

Leia o texto completo em http://www.animal-ethics.org/exploracao-animal/veganismo-pt/

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