Sequestro e morte de 4 filhotes de cães gera revolta em MG; jovem confessou

Sequestro e morte de 4 filhotes de cães gera revolta em MG; jovem confessou
Filhotes foram mortos em Pains (Foto: Focinho Gelado/Divulgação)

A Polícia Civil em Pains investiga um caso de violência contra animais que gerou comoção na cidade esta semana. Um jovem de 29 anos confessou o sequestro e o assassinato de quatro filhotes de cães da raça beagle, que foram levados de uma fazenda. O próprio rapaz entregou aos investigadores um saco com os animais dentro, que foram reconhecidos pelo tutor.

Para a polícia, ele disse que ficou assustado com uma ligação que recebeu e por isso cometeu o crime, mas não deu outros detalhes durante o depoimento. Um laudo emitido por um veterinário atestou que os filhotes foram mortos com violência e crueldade. O G1 teve acesso às fotos dos animais mortos, mas como são fortes, a reportagem optou por não divulgar.

Por ter se entregado às autoridades mais de 24 horas após do crime, o jovem foi solto e vai responder em liberdade – fato que revoltou o tutor dos cães e também uma entidade criada no município para defender o cumprimento dos direitos dos animais.

Pude verificar lesões e fraturas na cabeça (traumatismo craniano )e no pescoço, provavelmente decorrente de pancadas nos mesmos.
Hélio de Paula Gonçalves, veterinário

De acordo com a Polícia Civil, o furto dos filhotes ocorreu na tarde de domingo (23). O rapaz teria entrado na fazenda e retirado os animais do cercado em que estavam. No dia seguinte, o dono da fazenda, Nei José de Mello, de 66 anos, descobriu a identidade do autor do furto. Algumas pessoas chegaram a vê-lo na região.

O dono da propriedade e dos animais pediu ajuda a alguns amigos, que telefonaram para o jovem e pediram que ele devolvesse os animas. Ainda segundo a Polícia Civil, não houve ameaça. Eles disseram que o jovem poderia voltar à propriedade e deixar os cães onde os havia encontrado ou mesmo que os soltasse perto do local. Disseram, também, que se a proposta de devolução fosse aceita, não chamariam a polícia.

Mas na terça-feira (25), um dia após o contato feito com o jovem, os animais não haviam sido devolvidos. Foi então que Nei José de Mello resolveu procurar a Delegacia de Polícia Civil, onde pediu ajuda. Investigadores foram à casa do rapaz, no Bairro Alvorada e, lá, a mulher dele, cuja idade não foi divulgada, disse que tinha visto os animais na casa quando eles ainda estavam vivos.

Na quarta-feira (26), o jovem pediu a outra pessoa que entregasse à Polícia Civil um saco plástico com os corpos dos cães, que foram acondicionados em um freezer. O pacote foi entregue a um colaborador terceirizado, que auxilia a Polícia Civil, mas não é servidor do Estado. Sem saber o que fazer, o colaborador acionou a Organização Não Governamental (ONG) Focinho Gelado, que defende os direitos dos animas na cidade.

A presidente da entidade, Cáthya Goulart, contou ao G1 o que sentiu quando viu o conteúdo do pacote. “Os animais estavam destroçados, com ferimentos enormes. Pareciam ter sido mortos com pauladas na cabeça”, disse.

A ONG chamou o médico veterinário Hélio de Paula Gonçalves, que analisou os corpos na noite de terça-feira. A reportagem teve acesso ao laudo da necropsia. “Examinei os quatro filhotes da raça Beagle, sendo dois machos e duas fêmeas. Os mesmos já se encontravam sem vida. De acordo com as lesões observadas externamente e durante a palpação, pude verificar lesões e fraturas na cabeça e no pescoço, provavelmente decorrente de pancadas nos mesmos”, disse o veterinário.

Ainda segundo o laudo, a flacidez dos cadáveres e a presença de gases acumuladas por baixo da pele indicam que os filhotes foram mortos há mais de 12 horas. “Os filhotes estão congelados sob a minha custódia, caso haja necessidades de futuras investigações”, finalizou.

Foi constatado que os óbitos dos animais ocorreu há mais de um dia. Então, não era mais flagrante.
Polícia Civil

Confissão

Na quarta-feira (26), o próprio autor procurou a Polícia Civil e confessou ter furtado e matado os cães. Ele alegou aos investigadores que teria ficado assustado com uma ligação que recebeu, mas não deu outros detalhes.

Ele foi ouvido por um delegado e liberado. De acordo com a Polícia Civil, isso aconteceu porque o caso não podia mais ser registrado como flagrante. “Foi constatado que os óbitos dos animais ocorreu há mais de um dia. Então, não era mais flagrante. Agora o despacho será enviado à Justiça”, informou a Polícia Civil.

Enquanto isso, o suspeito de furtar e matar os quatro filhotes de beagles vai aguardar em liberdade pela decisão do juiz. Ele poderá responder pelos crimes de furto e violência contra animais. A pena máxima prevista para o primeiro é de reclusão de dois a oito anos e multa. Já para o segundo crime – de maus-tratos contra animais – a pena pode ser de detenção de três meses a um ano, e multa.

Revolta

A soltura do jovem que confessou o crime com crueldade deixou indignada a presidente da ONG Focinho Gelado. Ela se lembra de um fato ocorrido em 2015, quando um homem matou a golpes de facão um cachorro que havia entrado em casa, em Pains.

“Apesar de ter sido em flagrante, não aconteceu absolutamente nada com ele, que continua solto. Infelizmente esse fato que ocorreu agora não é o primeiro. Temos mais um assassino de animais andando à solta por aí, sem sofrer nenhum tipo de penalidade, como se nada tivesse ocorrido. Isso não me surpreende porque a gente sabe que as leis que foram criadas para proteger animais não são seguidas no Brasil. Esses homens representam um perigo à sociedade. Alguém capaz de assassinar filhotes indefesos é capaz de qualquer coisa”, lamentou Cáthya Goulart.

Quando fui chamado para ver os animais que tinham sido entregues à Polícia Civil, fui prontamente. Quando tirei o primeiro filhote, reconheci na hora, mesmo com tantos ferimentos. Minha pressão foi a 18 por 10.
Nei José de Melo, tutor dos animais mortos

O G1 conversou com Nei José de Melo, dono da propriedade invadida e dos animais mortos. O motorista aposentado, de 66 anos, relatou a diferença entre o momento em que cuidou dos filhotes na manhã de domingo e quando foi chamado para reconhecer os corpos.

“Eu estive na fazenda na manhã do domingo. Coloquei ração e coloquei água fresca para todos os filhotes. Eles estavam ótimos. Quando fui chamado para ver os animais que tinham sido entregues à Polícia Civil, fui prontamente. Quando tirei o primeiro filhote, reconheci na hora, mesmo com tantos ferimentos. Minha pressão foi a 18 por 10”, contou.

Nei disse também que não era íntimo do homem que furtou e matou os animais. “Eu só o conhecia de vista. Não tinha absolutamente nada contra ele e nunca tínhamos tido nenhum desentendimento. Estou com muita raiva dele, mas tenho dó da mulher dele, que é uma boa pessoa. Tudo o que quero agora é que o delegado e o juiz façam justiça. É só disso que eu preciso”, finalizou.

Defensores de direitos de animais protestaram em 2015 contra crime semelhante (Foto: G1)
Defensores de direitos de animais protestaram em 2015 contra crime semelhante (Foto: G1)

Por Ricardo Welbert

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