Ser a espada da justiça ou a luz do poste?

Por Sônia T. Felipe

Na luta em defesa dos direitos animais, a luta abolicionista vegana, vivemos emocionalmente em conflito entre duas sendas: usar a espada da justiça e clamar por cobrança de quem não respeita os direitos fundamentais dos animais não-humanos, ou adotar a postura do poste de luz que não se move mas ilumina a passagem dos caminhantes.

São duas formas de intervir no mundo, de propor mudanças radicais. Uma, para os casos emergenciais, quando todos os recursos se esgotaram, toma a espada nas próprias mãos e executa os atos necessários para mostrar quanto os animais estão sofrendo e sendo violentados pelas práticas institucionalizadas de uso, abuso, exploração e matança deles para benefício unilateral humano.

A outra, sem espada na mão, adota a postura do poste de luz, tanto faz se o poste está na passagem pública ou no cercado de um cômodo no qual os humanos se recolhem para ler, conversar e pensar sobre si mesmos e sua interação maléfica com o resto do reino animado e mesmo com o não tão ostensivamente animado assim.

São duas formas de mudar a si mesmo, mudando as crenças nas quais sua mente foi formatada para fornecer combustível aos interesses de poder moral, mental, espiritual, emocional e material aos quais nossa existência individual se submete até que passamos a pensar por conta própria.
Duas formas de ativismo animalista abolicionista. Uma não prospera sem a outra. Para agir e não cometer novos erros na ação é preciso estar iluminado ao agir. É preciso estar com a consciência redesenhada, tendo clareza dos danos aos animais que a ação visa reparar e os próprios limites que têm que ser enfrentados na ação.

É preciso lembrar que a ação só é pedagógica se for seguida de outras intervenções para ajudar outras pessoas a compreenderem o sentido da ação e a tomarem parte do ativismo, escolhendo cada uma delas uma das duas posições, de acordo com sua capacidade e seus limites naquele momento. Aqui faço menção ao trabalho da Anda e do Veddas pelo país afora.

Quando não se pode usar a arma da justiça, porque a espada já está cheia de sangue dos inocentes, ainda assim se pode adotar a postura do poste de luz. Não arrede pé de sua posição, mas faça isso segurando a sua tocha. Seja como a lâmpada do poste, iluminando o caminho dos passantes. Difícil ser poste? Sempre!

Queremos a resolução dos dilemas e conflitos com o fio da espada, porque o corte nos dá a ilusão de que o problema foi superado. Esquecemos que muitos cortes só acrescentam mais sangue, mais dores, mais sofrimento ou tormento àqueles que estão ao alcance ou são atingidos por eles. Nem todas as coisas frutificam quando são podadas. Há cortes que sangram até matar.

Para eliminar do mundo da nossa consciência o sono da treva, precisamos de luz e de calor. Da presença de quem não traz a morte do corpo nem da alma, a esse outro vulnerável que só pede o amor e o respeito, porque tudo o que lhe fazemos ele sente.

Entretanto, nem todos os conflitos podem ser dirimidos apenas mudando-se a consciência, porque os grandes problemas impostos aos animais decorrem de práticas intstitucionalizadas que precisam de uma interferência para serem abolidas.


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