Será que aprendemos a nossa lição sobre orcas em cativeiro desde a primeira captura em 1964?

Será que aprendemos a nossa lição sobre orcas em cativeiro desde a primeira captura em 1964?
Foto: The Tyee

Orcas são, sem sombra de dúvida, uma das espécies mais majestosas do nosso planeta. O cérebro da orca é mais de quatro vezes maior que o de um humano e os lobos cerebrais que lidam com o processo de emoções complexas também são significativamente maiores. As orcas vêm evoluindo há milhares de anos, enquanto o homem moderno emergiu há apenas cerca de duzentos mil anos. Esses animais vivem naturalmente em grupos matriarcais, permanecendo perto dos parentes próximos a vida toda. Eles são renomados pela sua grande inteligência e sensibilidade, como demonstrado na comovente história do membro deficiente de um grupo que foi cuidado pelos seus parentes.

Eles são um dos mamíferos mais abrangentes do planeta, que viajam até 160 quilômetros por dia em mar aberto. A expectativa média de vida de uma orca selvagem é de trinta anos para machos e cinquenta para fêmeas. Porém, eles podem viver muito mais que isso! Acredita-se que “Granny” (Vovó), a matriarca do grupo J-Pod, tinha 103 anos de idade quando foi vista na costa do Canadá em 2014.

Infelizmente, nós, humanos, parecemos ter decidido que é perfeitamente correto para nós confinar esses animais incríveis em pequenos tanques e forçá-los a fazer brincadeiras para nossa distração. Uma indústria mundial foi criada para lidar especificamente com o confinamento forçado de orcas, golfinhos e outros animais marinhos… tudo pelo entretenimento humano.

Orcas que são mantidas em cativeiro frequentemente exibem comportamentos estereotipados, tais como mastigar as paredes ou barras de seus tanques, se encalhar voluntariamente e ter surtos imprevisíveis de agressão. Tragicamente, Brancheau não foi a única treinadora de orcas a ser morta enquanto trabalhava com esses animais. Enquanto nunca houve um exemplo registrado de uma orca ameaçando um humano na natureza, mais de 100 “incidentes” entre orcas e seus treinadores já foram registrados apenas nos parques do SeaWorld. Orcas que tem personalidades incompatíveis – e mesmo assim são forçadas a viver confinadas sob condições altamente estressantes –  já machucaram ou até mesmo mataram umas às outras. Orcas confinadas também costumam apresentar depressão, barbatanas dorsais caídas (em machos) e doenças e infecções incomuns que raramente são vistas em seus semelhantes na natureza.

O documentário “Blackfish”, de 2013, foi essencial na mudança de como víamos orcas e outros animais marinhos. Esse documentário explorou a morte da treinadora do SeaWorld de Orlando, Dawn Brancheau, nas mãos de uma orca chamada Tilikum e, no processo, expôs inúmeras práticas desonestas que deixaram os espectadores chocados.

Como resultado, parques aquáticos como o SeaWorld e o Miami Seaquarium nos Estados Unidos e o Loro Parque na Espanha, tem enfrentado grandes críticas nos últimos anos por conta do seu tratamento com as orcas em cativeiro. Com as margens de lucro e a audiência caindo drasticamente, há sinais de que o modelo de orca em cativeiro possa estar caindo em colapso, mas a indústria ainda não vai desistir sem lutar.

Ao examinar como a indústria de cetáceos em cativeiro cresceu até tornar-se grande como é hoje – e porque revelações negativas sobre ela emergiram apenas recentemente – pode ser útil olhar para quando tudo começou. O capitão Paul Watson, fundador da organização de conservação marinha Sea Shepherd, compartilhou recentemente uma postagem na sua página do Facebook divulgando a triste história de Moby Doll – a primeira orca viva a ser mostrada ao público. A captura de Moby Doll na Columbia Britânica, Canadá, em 1964, levou ao crescimento da indústria de cetáceos em cativeiro… além do movimento contra o cativeiro que agora está ganhando voz. Watson então explicou as conexões: “O disparo e a captura de Moby Doll em 1965 levaram diretamente à captura de mais baleias nas águas de Washington e da Columbia Britânica. Isso levou ao confinamento de Skana e ambas Skana e Moby Doll atraíram a atenção de um jovem Dr. Paul Spong que, em 1974, contatou o Greenpeace para falar das baleias, o que levou às primeiras campanhas no mar contra a caça às baleias em 1975”.

Watson pretendia destacar um novo livro chamado “A Baleia Assassina Que Mudou o Mundo” (The Killer Whale Who Changed the World”) de Mark Leiren-Young. Nesse livro, Leiren-Young resume como  Moby Doll deveria ser morta e colocada em exibição no Aquário de Vancouver, ao comando do então diretor do aquário, Murray Newman. Porém, a tentativa de captura por arpão não matou Moby Doll, então Newman decidiu colocá-la em um tanque nas docas de Burrard Dry. Moby Doll ficou lá por três meses até a sua morte, atraindo curiosos membros do público e tornando-se foco da atenção internacional.

Esta foto mostra o quão drasticamente a vida de Moby Dooll mudou após a sua captura: de passeio e caçada por comida no mar aberto a ser alimentada com peixe morto em uma jaula criada pelo homem.

A presença de Moby Doll em Vancouver ajudou a mudar a percepção do público sobre as baleias, de monstros aterradores e sanguinários para seres inteligentes e sensíveis, o que realmente são. Leiden-Young explicou em uma entrevista: “Moby foi uma mudança de paradigma. Quando Moby não se comportou do modo que a mídia esperava, tudo mudou… Na noite que Moby foi pega, o âncora da CBC News disse que o aquário havia ‘capturado um monstro.” Essa foi a palavra que eles usaram. E dentro de um período de mais ou menos quarenta e oito horas, em que a baleia não fez nada de monstruoso, a cobertura mudou completamente. Foram só alguns dias entre Moby ser chamada de monstro e passar a ser chamada de ‘a baleia de estimação de Vancouver.’” Entretanto, Moby Doll pagou um preço alto por ser o “animal de estimação” da cidade sobrevivendo por apenas três meses após a sua traumática captura.

Pelas orcas que continuam a sofrer em cativeiro em todo o mundo hoje, é imprescindível que esvaziemos os aquários para sempre e levemos os animais para tanques no mar – ou, se possível, os reabilitemos para soltá-los de volta à natureza – onde eles não serão mais forçados a viver como espetáculos para o entretenimento humano. Para saber mais sobre a situação destes animais, e sobre como você pode ajudar, verifique os artigos abaixo. O livro “A Baleia Assassina Que Mudou O Mundo” foi lançado pela Greystone Books em setembro passado. Você pode achar mais informações aqui.

Por Aisling Maria Cronin / Tradução de Carla Lorenzatti Venturini

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.