Silvestre não é pet?

Silvestre não é pet?
Foto: Pixabay

Nos últimos dias um debate tomou conta do país. Um rapaz, morador do interior do Amazonas viralizou na internet ao postar fotos e vídeos de seu dia a dia na companhia de um filhote de capivara. Ele mora numa fazenda, seu quintal é um rio e as atividades que a pequena capivara compartilha com ele, nas imagens, são as mesmas que faria se estivesse em companhia de sua mãe biológica, menos fugir de predadores, porque, até onde se sabe, ela dorme dentro da casa do Agenor, o rapaz que a adotou, segundo ele, quando lhe trouxeram o filhote recém nascido sobrevivente da morte da mãe.

No público leigo em geral as imagens causaram ternura e admiração. Os vídeos e fotos mostram não cenas de maus-tratos e exploração, mas um cuidado e carinho que geralmente recebem os cachorrinhos adotados por moradores de cidades. Mas exatamente esse detalhe, o carinho e proximidade entre os dois, causou indignação de uma parcela da população que diariamente ocupa as redes sociais com suas pautas reivindicando os direitos dos animais de serem vistos como indivíduos sencientes e não como meras coisas, os chamados veganos.

E o jargão adotado e repetido à exaustão nesses dias por muitos veganos foi “silvestre não é pet”. Eu não conheço o Agenor e nem a Filó, esse é o nome que a capivara recebeu dele. Não posso dizer se ela realmente é bem tratada e se está feliz, ninguém que não os conheça de perto pode. Pelas imagens sim, ela parece estar muito bem, protegida, alimentada, segura e construindo uma relação de parentesco com seu cuidador. E com base nisso é que surgiu o jargão. Exatamente ou apesar de parecer que ela está sendo bem tratada causou indignação e a ira dos pretensos defensores dos animais não humanos. Então não interessa discutir aqui se a capivara foi mesmo resgatada, se ela realmente é bem tratada, porque a indignação é sobre um animal silvestre vivendo como um pet, mesmo que o rapaz resida no meio do mato.

A sociedade chama de pets indivíduos não humanos tratados como companhia. Não sei nem o que significa esse nome, pois eu não classifico os animais em categorias. O que sei é que eu e a maioria das pessoas, incluindo os veganos, acham muito positivo que animais não humanos como cães e gatos, que vagam pelas ruas abandonados, sejam adotados e recebam esse status. Muitos nem chamam de pet, por parecer um nome mercadológico, e nem de “animais de estimação” e sim de filhos. O sonho de qualquer indivíduo que passa frio, fome e sede nas ruas seria se tornar um filho adotivo de um ser humano amoroso, que lhe cubra de carinho, cuidados e proteção. 

Mas se ao invés de vagar pelas ruas poluídas das cidades um animal não humano estiver vagando por trilhas de mata, perdido de seu bando, órfão, ferido, prestes a morrer de fome ou a matar a fome de outro animal, tudo muda de perspectiva. O ideal nesse caso, segundo exposto nas opiniões das pessoas que se intitulam veganas nesses últimos dias, seria não se envolver. Humanos, segundo eles, não devem ter nenhum tipo de relacionamento com animais silvestres, para não interferir na dinâmica natural das coisas. Alguns, os mais compassivos, diriam que até pode haver um envolvimento num caso extremo assim, mas não por qualquer pessoa, não um leigo. Um ser humano leigo, que nunca estudou nada sobre animais silvestres e não conhece o seu “papel ecológico” não deveria chegar perto em hipótese alguma. O máximo de intervenção aceitável seria chamar o IBAMA.

O IBAMA, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, é um órgão governamental responsável por, segundo ele mesmo: “proteger o meio ambiente, garantir a qualidade ambiental e assegurar a sustentabilidade no uso dos recursos naturais”. E é muito útil sim, quando bem aparelhado por uma gestão governamental responsável, para inibir o desmatamento, o garimpo ilegal, proteger terras indígenas, e coibir todas as arbitrariedades cometidas por seres humanos em ambientes de conservação. Mas o objetivo do Ibama, e de qualquer órgão conservacionista, o próprio nome já diz, é conservar o meio ambiente. É somente cuidar para que os ecossistemas continuem a funcionar assim como as leis naturais ditaram, com equilíbrio e sem interferência humana. Os animais não humanos, dentro dessa lógica, não são vistos da forma que citei acima que os veganos dizem enxergar, como indivíduos sencientes que teriam direitos. São apenas “recursos naturais”, peças, que devem estar ali para que o ambiente se equilibre. E, não raro, a atuação desses órgãos prevê até o assassinato de muitos desses indivíduos para equilibrar as coisas. Há casos em que animais não humanos são mortos com aval desses órgãos para que plantas não entrem em extinção. Pois entidades conservacionistas só se preocupam com espécies e não com indivíduos não humanos. Então, mesmo que seja louvável o papel do IBAMA em proteger o meio ambiente, isso não é necessariamente bom para os indivíduos não humanos silvestres.

Silvestre não é pet?
Foto: Pixabay

Mas por que pessoas que defendem os animais, haveriam de concordar com isso? Por que quem defende indivíduos não humanos acredita que se o indivíduo for silvestre ele deve ser tratado como parte de uma espécie apenas? O meu palpite é que o movimento que diz lutar pelos direitos dos animais não serem vistos como coisas, o veganismo, tenha, nos últimos anos, tomado um outro rumo. As novas gerações estão muito mais atentas às questões ambientais e climáticas e passaram a aderir ao veganismo como forma de protesto/postura pró meio ambiente. O argumento é que a criação de animais para abate é uma das principais causas de desmatamento e destruição do planeta Percebo que o discurso tem mudado de direção e pouco se fala hoje sobre a senciência dos animais abatidos e muito se fala sobre o quanto seu consumo na forma de carne tem feito mal ao meio ambiente.

Dentro dessa perspectiva, de desespero para que o planeta não se acabe em cinzas, as pessoas têm esquecido o interesse dos indivíduos que juram defender. E ao dizer que bois, porcos, peixes e galinhas são sencientes e não carne estão, pelo que parece, apenas querendo que carne deixe de ser produzida. (Alguém precisa avisar a esses veganos que o cultivo de arroz também prejudica o planeta). Apelar para a senciência dos animais que são tratados como carne é dizer para as pessoas que elas estão sendo especistas, pois estão tratando o boi, por exemplo, com consideração diferente do que tratariam um cachorro. Mas produzir carne é apenas uma das consequências do especismo. Especismo significa discriminar injustamente um indivíduo por ele pertencer ou não a uma espécie. Então se os veganos criticam severamente as pessoas chamadas carnistas, que comem animais, por considerarem os bois de forma diferente do que consideram os cachorros, tratando uns como insumo e o outros como filhos, não estariam sendo especistas também ao dizer que o filhote de cachorro merece ser salvo e o de capivara merece o destino que a natureza decidir? 

Não percebem que nomenclaturas como “pet”, “doméstico”, “praga”, “cobaia”, “de corte”, “proteína”, “invasor”, “silvestre”, foram estabelecidas por pessoas especistas? O especismo que categoriza os indivíduos não humanos para diferentes fins. E o fim de todos eles, para a lógica especista, é serem usados pelos seres humanos, seja para entreter, seja para servir de alimento ou para ter certeza que o planeta continue a girar. E por que os veganos só questionam a separação dos animais em categorias quando falam dos domésticos os chamados de proteínas ou de corte? Por que questionam os carnistas sobre “amar uns e comer outros” e quando falam de animais que vivem na natureza eles são os primeiros a lembrar de categorias? Por que são extremamente contra animais serem usados para testes em laboratórios e acham muito aceitável que órgãos ambientalistas apoiem testes com indivíduos silvestres? (Sim, muitos testes são feitos em nome da conservação do meio ambiente, e esses testes não são nada parecidos com um influencer dando banho com shampoo numa capivara.) Por que enxergam o sofrimento dos que estão vagando pelas cidades e fecham os olhos para o sofrimento na natureza, que é bem maior em número? Por que um ser humano pode amar um porco e não uma capivara? Será que os veganos, que explicam aos carnistas que o agronegócio tem interesse que as pessoas não amem os bois e os porcos, nunca pararam para pensar que também há um interesse ecologista em fazer as pessoas não amarem os animais silvestres, ou melhor, não os enxergarem como indivíduos e sim como recursos naturais?

Ser antiespecista é quebrar essa lógica. É realmente enxergar todos os animais não humanos como indivíduos sencientes, ou seja, que sentem dor, medo, frio, calor, fome, tristeza, alegria, conforto e procurar respeitar todos igualmente. Ser antiespecista é ser rebelde contra o que está estabelecido para os outros de outras espécies. É entender que nomenclaturas servem apenas para os humanos saberem como usar cada animal não humano. Eles não são nomenclaturas, não estão separados em gavetas, eles são, todos eles, indivíduos que querem viver e viver bem, eles são iguais. Então todos eles merecem respeito, ajuda e todos eles, sim, todos eles podem ser pets, se ser pet significa ser respeitado, ser amado, ser cuidado e protegido. Se ser pet significa deixar de ser visto como coisa e ganhar uma cama, um prato, um abraço, cura das feridas, distância de parasitas, cuidados veterinários, parar de passar frio e fome. Se ser pet significa viver em melhores condições do que se estava antes, sendo respeitado como indivíduo, por que não?

Nenhum vegano, que eu saiba, se opõe quando um animal não humano sai da categoria “de corte” e é “promovido” à “pet”, porque entendem que ele passará a viver infinitamente melhor se tiver a sorte de ter um bom tutor, terá uma vida longa e não morrerá esquartejado num matadouro para alimentar seres humanos. Quem determinou que os que nasceram no mato não merecem isso? Quem não ia preferir isso, ser cuidado e respeitado, a cumprir um “papel ecológico” que, na maioria das vezes significa morrer de forma horrível ainda filhote. “Papel ecológico”, aliás, é uma coisa que nós humanos, faz muito tempo, rejeitamos para nós mesmos, não é?

Por Leide Fuzeto Gameiro

Fonte: Olhar Animal

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