Sintomas de Transtorno Pós-Traumático observados em animais

Sintomas de Transtorno Pós-Traumático observados em animais
Crédito: Dodobird Cage/Jooinn.com

Sintomas de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) incluem mudanças comportamentais e físicas observáveis que ocorrem no hipocampo, uma estrutura encontrada no cérebro de todos os mamíferos humanos e não humanos. Por meio de tais observações das mudanças comportamentais e estruturais no cérebro, várias espécies não humanas demonstram sintomas de TEPT após experiências traumáticas similares aos sintomas expressados em humanos, o que leva muitas pessoas a questionarem se é ético continuar a expor animais não humanos a tais experiências traumáticas.

Estudos de Casos

Elefantes africanos e asiáticos

Após a observação de uma série de comportamentos anormais em elefantes africanos selvagens, o diagnóstico de TEPT em humanos se tornou uma abordagem científica valiosa para entender melhor esses comportamentos anormais. Uma década atrás, esses elefantes jovens sofreram estresse e trauma severos conforme testemunharam seus membros familiares adultos serem mortos e, então, como elefantes recém órfãos, foram manejados, transportados e realocados sem suas mães para fornecerem apoio emocional e sem os membros de sua família para criá-los. Similarmente observado em humanos que passaram por um trauma, observou-se mais tarde que esses elefantes mostraram uma inclinação para violência e, em um ato muito anormal de agressão, mataram mais de cem rinocerontes. Em adição, esses elefantes também mostraram uma inabilidade fora do normal para regular suas emoções e reações ao estresse, comportamento de desvio, e reações repentinas, similares às expressões de sintomas observadas em humanos com TEPT.

Elefantes são vulneráveis ao trauma de formas comparáveis àquelas observadas em humanos devido às “estruturas e processos psicobiológicos” similares, encontrados em ambas as espécies. Além disso, os elefantes africanos com histórico de trauma por “caça furtiva, abate, translocações, separação maternal, e/ou captura para cativeiro, exibiram funcionamento social e emocional danificados consistentes com os sintomas encontrados em sobreviventes humanos de trauma”, e, mais especificamente, aqueles de TEPT. Sintomas similares também foram reportados em elefantes asiáticos após experiências traumáticas, incluindo separação maternal, captura por humanos para entretenimento ou trabalho, agressão física e isolamento. Também observou-se consequências do estresse crônico, das experiências traumáticas e sintomas do TEPT como geracionais e sociais, com a habilidade de impactar uma cultura por inteiro. 

Caninos

O exército dos EUA frequentemente treina e usa cães para ajudarem soldados em combates em outros países. Uma cachorra, chamada Gina, recebeu atenção nacional após retornar de uma temporada no Iraque; de acordo com seu treinador, Sargento Eric Haynes, Gina desenvolveu TEPT e sofreu com sintomas de estresse, hipervigilância, distúrbios do sono, e desvio de estímulos associados com o trauma. Dos 650 milhões de cães que servem o exército, acredita-se que aproximadamente 5% deles desenvolvem sintomas de TEPT; e apesar de se observar caninos militares, como Gina, demonstrarem sintomas de TEPT pós combate, cães não militares também apresentaram sintomas similares após exposição a vários outros incidentes traumáticos, como maus-tratos, abandono e desastres naturais. O tratamento de cães com sintomas de TEPT incluem descanso, novo treinamento, ausência do trabalho, brincadeiras, exercícios, terapia de desensibilização e medicamentos para ansiedade comparados com aqueles prescritos para diagnóstico amplamente aceito de ansiedade por separação em cães.

Bovinos

Por milhares de anos, os bovinos foram domesticados para consumo humano, uso material e trabalho; entretanto, em uma revisão recente da psicologia dos bovinos, a profundidade emocional e inteligência deste animal tão explorado foram pesquisadas e expostas, por exemplo, como o gado criado na pecuária industrializada sofre situações estressantes do “nascimento até o abate”. Isto inclui separação de mães e bezerros, isolamento, procedimentos físicos dolorosos e lesões. Também expôs-se o fato de que “muitos desses procedimentos não são feitos pelo bem-estar do bovino e nem são necessários para o consumo humano desse bovino, mas feitos pelos interesses corporativos em maximizar os lucros”. 

Outro estudo recente examinou a psicologia de bovinos através da resposta ao estresse e regulação emocional na comparação da “expressão do mRNA dos biomarcadores no sangue cerebral” relacionados ao TEPT em dois grupos de gado: bovinos sem histórico de exposição aos lobos e bovinos com histórico de experiências estressantes com lobos. Os dois grupos ficaram expostos a uma imitação de lobo e seus cérebros foram testados imediatamente após, e descobriu-se que os animais sem experiência prévia com lobos não apresentaram biomarcadores relacionados ao TEPT, enquanto que os biomarcadores daqueles com histórico de encontros estressantes com lobos foram consistentes com os relacionados ao TEPT. Portanto, isso sugeriu que bovinos são capazes de desenvolver TEPT. 

Além disso, os estudos mostraram que quanto mais a sociedade cresce em seu entendimento da psicologia de outros animais com vidas emocionais e habilidades cognitivas, mais essa sociedade valoriza o tratamento ético desses animais. Isto não deveria ser diferente, conforme começamos a entender a psicologia dos bovinos e “quem eles são como indivíduos complexos ao invés de bens”.

Chimpanzés

Por sofrerem experiências traumáticas, muitos chimpanzés também desenvolveram sintomas semelhantes aos do TEPT em humanos. Um estudo focou no comportamento de dois chimpanzés, Jeannie e Rachel, enquanto os dois residiam em um santuário após eventos traumáticos sofridos em laboratórios como objetos de testes. Anos após passarem pelo trauma, os chimpanzés demonstraram sintomas que incluíam “perturbações na personalidade, nas habilidades sociais e formação de identidade, estresse persistente e uma alta vulnerabilidade à automutilação… caracterizada pela dissociação… hipervigilância, ansiedade e desregulação emocional associadas com o estresse crônico do perigo recorrente”. Jeannie foi especialmente observada, e teve várias demonstrações repentinas de agressão e aflição; enquanto que Rachel foi vista consistentemente a vocalizar sons de aflição e causar automutilação em suas mãos, e somente parou depois que saía sangue das lesões e ela parecia estar exausta.

Outro estudo observou os comportamentos de mais dois chimpanzés, Poco e Safari, com experiências traumáticas similares no começo de suas vidas: ambos eram mantidos para entretenimento depois que mataram suas mães para o comércio de carne, sofreram de estresse severo e isolamento, e mais tarde foram colocados em um santuário, onde eles continuaram a demonstrar sintomas de estresse psicológico, apesar de décadas de reabilitação e ambientes enriquecidos com outros chimpanzés.

Papagaios-cinzentos 

Outro estudo recente examinou os sintomas e gatilhos potenciais do TEPT em papagaios-cinzentos mantidos como animais de estimação. Reconhecidos como criaturas altamente inteligentes, sociais e sensíveis, os papagaios-cinzentos são frequentemente mantidos como animais de estimação devido ao seu extenso tempo de vida e por sua habilidade de imitar expressões verbais de outras espécies, apesar de a maioria dos papagaios não ser classificada como domesticada. Papagaios-cinzentos cativos demonstraram comportamentos incomuns e perigosos; estes incluem agressão para com outros, como bicar, assim como automutilação ao arrancarem suas penas, o que pode causar dano severo em sua pele, com a criação de lesões e inflamação. Adicionalmente, papagaios-cinzentos desenvolveram medo de humanos, apesar de relacionamentos prévios ou existentes, e as possíveis explicações para esse comportamento incluem mecanismos para lidar com estresse, isolamento, tédio e medo gerado por experiências dolorosas prévias pelo manejo em cativeiro. Notou-se que esses comportamentos se aproximam de perto com os sintomas de TEPT e que as fontes do trauma, como ser manipulado, capturado, removido de seu habitat natural, e/ou ter suas asas cortada, combinados com a falta de um ambiente enriquecido e a habilidade de realizar comportamentos naturais, incluindo voar, forragear, socializar e tomar banho, não permitem a formação de mecanismos apropriados para lidar com isso tudo. Entretanto, papagaios-cinzentos com ao menos quatro horas de contato humano diário mostraram uma queda de 90% na probabilidade de automutilação, o que leva à recomendação de que os tutores em potencial não devem procurar por papagaios-cinzentos se não conseguirem se comprometer com esse tempo.

Macacos Rhesus  

Uma revisão dos macacos rhesus que sofreram maus-tratos quando jovens encontrou similaridades entre as propriedades neurobiológicas desses macacos e as de vítimas humanas de maus-tratos infantis infantil com TEPT. Além disso, estudos prévios de veteranos de guerra com TEPT demonstraram que seus líquidos cerebroespinhais (LCE) continham elevadas concentrações do hormônio liberador de corticotropina (CRH), o que também foi consistentemente observado em humanos vítimas de trauma e maus-tratos infantis. Similarmente, em macacos que foram maltratados quando bebês apresentaram níveis elevados de CRH, comparados aos níveis baixos encontrados em macacos que não sofreram maus-tratos. Os macacos maltratados na infância apresentaram comportamento agressivo quando adultos. Como a concentração do CRH no LCE foi demonstrada na contribuição de como os indivíduos respondem ao estresse e lidam com emoções, o aumento do CRH no LCE após experiências traumáticas provavelmente contribui para os comportamentos agressivos nos macacos adultos que também foram maltratados na infância, similarmente à forma como o aumento do CRH no LCE provavelmente contribui para os sintomas de TEPT observados nos humanos.

Conclusão 

Como demonstrado em múltiplos estudos de casos, muitos animais não humanos mostraram mudanças anormais no comportamento e sintomas neurológicos de TEPT após um incidente traumático, similares aos comportamentos e sintomas de TEPT observados em humanos. Como explicado no livro Mental Health and Well-Being in Animals, o bem-estar animal melhora quando se permite que os animais tenham autonomia e a habilidade para explorar e entender seu ambiente.

Além disso, como visto em humanos e não humanos, um ambiente seguro que permita aos sobreviventes de trauma autonomia e liberdade ao tomar decisões, habilidade de engajar em interações sociais positivas, e capacidade de escolher em quais atividades se engajar sem a ameaça de novo trauma ou exposição para lembrá-los do trauma passado podem diminuir os sintomas do TEPT.

Em adição, a responsabilidade da sociedade para respeitar e proteger o tratamento ético de seres sencientes, independentemente se são considerados úteis ou não para os humanos, se torna mais relevante conforme se observa mais espécies demonstrarem sintomas de TEPT após experiências traumáticas nas mãos dos humanos.

E, finalmente, com múltiplos estudos de múltiplas espécies que expressaram múltiplos sintomas de TEPT como os observados em humanos, desde mudanças comportamentais e químicas, muitos concordam que é hora de a sociedade reconsiderar como ela vê, trata e traumatiza animais não humanos.

Como a maioria dos experimentos em animais, a pesquisa de TEPT em animais é cruel e os resultados normalmente não se traduzem bem em testes em humanos. Assine esta carta para se juntar ao Citizens for Alternatives to Animal Research and Experimentation (CAARE) para pedir o fim dos testes de TEPT em animais!

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Por Samantha Carlson / Tradução de  Alice Wehrle Gomide

Fonte: One Green Planet 

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