Sistema de monitoramento flagra 159 animais silvestres em passagens de fauna de rodovias na região de Ribeirão Preto, SP

Sistema de monitoramento flagra 159 animais silvestres em passagens de fauna de rodovias na região de Ribeirão Preto, SP
Passagem de fauna: caminhos seguros para o tráfego de animais — Foto: Terra da Gente

O monitoramento das passagens de fauna instaladas em rodovias da região de Ribeirão Preto (SP) flagrou 159 animais silvestres de 15 espécies diferentes fazendo a travessia desde fevereiro.

VÍDEO: Animais silvestres são flagrados em passagens de fauna na região de Ribeirão Preto, SP

A informação é da Entrevias, concessionária responsável pela malha viária onde 40 passagens estão instaladas. A implantação das travessias visa evitar o atropelamento de animais nas pistas.

O g1 teve acesso a diversos registros que incluem a travessia de cachorros-do-mato, capivaras, veados-catingueiros, tatu-galinhas, tatus-do-rabo-mole e mãos-peladas. Assista ao vídeo com alguns desses flagras acima.

Biólogo e médico veterinário, Pedro Favaretto explica que atropelamentos podem provocar diversas consequências para os animais.

“Existem animais que têm lesões leves, aqueles que vão a óbito imediatamente e animais que sofrem lesões irreversíveis que precisam de cirurgia ou amputação. Animais que depois não tem a menor condição de voltar pra natureza e acabam, infelizmente, permanecendo em cativeiro o resto da vida”.

As estruturas foram instaladas em pontos estratégicos das rodovias e são adequadas para o uso de animais silvestres em geral, mas, em especial, para mamíferos de grande porte, já que acidentes com eles ameaçam mais a segurança viária.

Além disso, os pontos também foram posicionados pensando em animais que estão ameaçados de extinção.

O monitoramento registrou a passagem de alguns que estão classificados como vulneráveis pela lista de espécies ameaçadas do estado de São Paulo, como a jaguatirica, a onça-parda e a lontra.

No entanto, prevenir o atropelamento de animais de pequeno e médio porte, como répteis e aves também é essencial.

“A gente não pode desconsiderar a importância desse grupo para manter esse ecossistema funcional para que esses ameaçados de extinção também tenham um local adequado para viver, se alimentar e reproduzir”, afirma o biólogo.

Nesta matéria, o g1 explica como funcionam as passagens desde sua implantação até os benefícios para a fauna e motoristas. O texto está dividido em oito perguntas:

  1. Como é escolhido o local da passagem?
  2. Que tipos de passagens de fauna existem?
  3. Quando as passagens foram instaladas?
  4. E as rodovias que não foram duplicadas?
  5. Quais os benefícios das passagens de fauna para os motoristas?
  6. Como os animais sabem por onde devem passar?
  7. O que fazer ao encontrar um animal na pista?
  8. Um contraponto: e os resgates?

Como é escolhido o local da passagem?

Os locais onde as passagens são instaladas são escolhidos a partir de um monitoramento realizado pela concessionária, que mapeia pontos onde ocorrem atropelamentos de animais ou onde a aparição deles são mais frequentes.

“Nós conseguimos reunir um banco de dados bem robusto e entender quais são os pontos mais críticos”, explica Bárbara Perão, analista ambiental da Entrevias.

Ela explica que a iniciativa da concessionária vai ao encontro da exigência da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) para as obras de duplicação das rodovias.

“Os pontos onde tem a maior possibilidade de atropelamento são os pontos onde vão ser implementadas as medidas de mitigação”, afirma Bárbara.

Que tipos de passagens de fauna existem?

As passagens de fauna são pensadas de acordo com os animais que vão utilizá-las. Por isso, as travessias podem ser tanto pontes, que conduzem os animais a fazerem a travessia por cima das rodovias, ou caminhos subterrâneos, destinada a animais menores.

Uma delas é adaptada para anfíbios, grupo que inclui animais como sapo, rãs, pererecas e salamandras.

Esta, em específico, além de ter uma passagem bem menor do que as outras, é molhada, já que as espécies dependem de água para regular a temperatura do corpo e também para respirar.

Para saber quais tipos de passagens serão instaladas em cada ponto, a Entrevias também recorre ao banco de dados.

“Nem todos os animais se adaptam a usar algum tipo de passagem, então, a gente também faz uma análise dos grupos chaves de animais”, explica Bárbara.

Pegada de mão-pelada em passagem de fauna na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias
Pegada de mão-pelada em passagem de fauna na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias

Quando as passagens foram instaladas?

Segundo a analista ambiental, as passagens fazem parte do projeto das obras de duplicação que foram concluídas há cerca de três anos.

“Após a finalização da construção das passagens, a gente vem com a parte de monitoramento para ver se elas estão, de fato, sendo efetivas”, diz Bárbara.

Os “flagras” divulgados pelo g1 foram selecionados a partir dos registros desde fevereiro e, para a concessionária, eles são a prova de que a iniciativa tem trazido resultados positivos.

“A gente ter registrado algumas espécies que estão ameaçadas de extinção atravessando as nossas passagens. É um motivo de muita alegria pra gente, porque está contribuindo com o meio ambiente, com a reprodução da espécie e mantendo as relações ecológicas dos animais”, afirma Bárbara.

E as rodovias que não foram duplicadas?

A analista ambiental afirma que até seria possível instalar passagens nestas rodovias, no entanto, a concessionária estuda implantar outras medidas de mitigação nessas estradas que são, basicamente, aumento de sinalização.

Ainda que as passagens tenham se mostrado uma boa estratégia, a cautela de motoristas e motociclistas também pode ajudar bastante a prevenir acidentes nas vias.

Em qualquer pista, reduzir a velocidade em locais em que pode haver presença de animais, atitudes como não jogar lixo na rodovia (já que os resíduos podem atrair os animais que buscam alimento) e preferir viajar durante o dia, período com maior visibilidade e menos movimentação dos animais, podem fazer muita diferença.

Veado-catingueiro passa por passagem de fauna subterrânea na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias
Veado-catingueiro passa por passagem de fauna subterrânea na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias

Quais os benefícios das passagens de fauna para os motoristas?

Além do benefício ambiental, a implantação de passagens de fauna em rodovias também contribui para a segurança no trânsito, já que o atropelamento de animais nas pistas pode gerar consequências graves.

“Tem o benefício ambiental e também tem o benefício social, pensando na questão da segurança viária, de evitar que o animal entre na pista e cause um acidente que, porventura, pode levar até uma fatalidade”, diz Bárbara.

Os valores para implantação das passagens não foram divulgados, porém Bárbara diz que o investimento é alto. Mesmo assim, do ponto de vista econômico, a iniciativa também é viável, segundo a analista ambiental.

Ela explica que um acidente que envolve o atropelamento de um animal, além de causar graves ferimentos e até mesmo mortes, gera um prejuízo econômico considerável devido aos danos causados aos veículos.

“Quando a gente compara isso com os custos que envolvem um acidente com o animal, vale muito mais a pena implementar as passagens”.

Como os animais sabem por onde devem passar?

Os investimentos para prevenção e mitigação de atropelamentos e incidentes envolvendo animais incluem a implantação de cerca em 80 km ao redor das rodovias para a condução da fauna.

“Se a gente só faz a passagem, o animal não vai saber que ele precisa passar ali, que ele não pode ir pra pista. O alambrado vai direcionando para que ele chegue na passagem”, explica a analista ambiental.

Biólogo, Favaretto explica que a medida é essencial para reduzir os atropelamentos, já que não há como disciplinar os animais para utilizarem as passagens.

“Imagina, por exemplo, um tamanduá-bandeira no km 300 e nós temos uma passagem no km 280 e no km 320. Esse animal, obviamente, não vai se deslocar para poder fazer a travessia, ele vai por ali mesmo. Então, além das passagens, é muito importante que haja o telamento das rodovias em áreas de risco e, principalmente, informação para os motoristas”.

O que fazer ao encontrar um animal na pista?

Os motoristas que presenciarem algum animal na pista, ferido ou não, devem informar a concessionária para que uma equipe vá até o local para fazer a retirada ou o resgate. O número é 0800-3000 333.

A Entrevias ainda ressalta que todas as rodovias da concessionária são monitoradas e o abandono de animais é crime.

Pegada de jaguatirica registrada em passagem de fauna na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias
Pegada de jaguatirica registrada em passagem de fauna na região de Ribeirão Preto, SP — Foto: Imprensa/Entrevias

Um contraponto: e os resgates?

Favaretto considera positivas as iniciativas de implantar passagens de faunas em rodovias, mas destaca que são necessárias outras medidas para garantir a segurança dos animais em áreas próximas às pistas.

“É fundamental, é necessário, eu vejo com bons olhos e acho que já está surtindo efeito. Mas nós, infelizmente, ainda temos muitos atropelamentos no dia a dia aqui dentro na nossa malha viária”, pontua o biólogo.

Desta forma, ele pensa que a solução ideal seria uma plano “de ponta a ponta”, que inclua tanto a prevenção dos acidentes quanto um resgate para quando eles ocorrerem.

Esse plano teria que incluir travessias subterrâneas, passagens por cima das rodovias, sinalização para o usuário da via e, por fim, parcerias com ONGs ou centros especializados em reabilitação de animais.

“Nós estamos em pleno ano de 2023 e não temos, ainda, na região de Ribeirão Preto, uma equipe capacitada, habilitada e, principalmente, legalizada para fazer esse tipo de resgate”, afirma Favaretto.

Por isso, além das implantações de passagens de faunas, o biólogo considera que seria importante formar parcerias com equipes capacitadas para resgatar animais atropelados.

“Da mesma maneira que nós temos o resgate SAMU, que vai lá, pega o paciente, põe o colete cervical, coloca na maca e tem todo um processo de olhar pra pessoa, o bicho é a mesma coisa”, afirma.

Resgates mal conduzidos podem desde agravar lesões até mesmo provocar a morte de animais atropelados, mas ainda que eles sejam bem feitos, o resgate por si só não garante uma boa sobrevida.

“O processo de reabilitação é muito mais que o atendimento veterinário emergencial, ele é um trabalho de recuperar o animal para ter condições de voltar para a vida livre”, diz Favaretto.

Por Bárbara Marques

Fonte: G1

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