Sobre cavalos e amizades sem peso nas costas

Sobre cavalos e amizades sem peso nas costas

Por Caroline Chaves, pedagoga

Conheço algumas pessoas que apreciam corridas de cavalos. Que vão, uma vez por semana, assistira essa demonstração de grande esforço físico, animais subjugados, sacrificados além de seus limites. Consideram isso entretenimento. Em época nativista, comemorativa à Revolução Farroupilha, conheço também quem enalteça o cavalo como melhor amigo do homem – do gaúcho?, aquele que arrostou batalhas, que levou no lombo os heróis andrajosos da mais longa revolta brasileira e que carrega até hoje pessoas orgulhosas de pertencerem a esse Estado, às vezes por longas e exaustivas distâncias. No lombo. Melhor amigo.

Eu reflito pensando que não subo nas costas de nenhum dos meus amigos, por melhor que eu os trate. Afora isso, conheço quem encare essa relação como esporte. Sobre o amigo, o faça correr e pular obstáculos. Mais, que o faça seguir atrás de outros animais, como bezerros e ovelhas. Que circunde objetos, que rodopie e que se eleve, que sapateie garbosamente, como prova de obediência e de servidão. A esporadas.

Tudo isso por ser seu amigo.

‘Eu o trato bem, não? Dou comida, dou ração. Por vezes o troco por dinheiro’. Isso mesmo. Além do comércio cotidiano, há regionalmente uma grande feira anual onde ocorrem trocas, vendas de animais das mais diversas raças e valores. Todos bem tratados, claro! Pois bem, direi uma coisa – isso que chamam de amizade, não é amizade. Eu não sou amigo do cavalo, ou de qualquer outro ser, quando só eu me beneficio. Na verdade, eu sugo – e o homem sabe bem como fazer isso com todos os animais que explora – do cavalo sua energia para dele tirar vantagens. Eu o faço doente, eu me fotografo montado nele, eu o vendo, eu o mato, eu o ensino a me temer – é a doma. Porque sou ganancioso. Porque sou egoísta. Porque sou cruel, e não enxergo minha posição no ecossistema. Penso que sou o centro dele.

Segue, então, mais uma revelação. Cavalo, equídeo, quadrúpede qualquer, não foi feito pra nele montar. Isso pode até lhe desagradar. Mas ele não nasceu pra galopar com ninguém em cima de suas costas, percorrendo longas distâncias, ou mesmo curtas, a toda velocidade. Já ouvi uma justificativa assim – ‘mas é como carregar uma mochila’. Pois se eu não quero pôr essa mochila, se fui forçado a isso, por mais leve que ela seja, por melhor que me tratem depois, então não é certo. Mesmo agora, no mês em que mais enaltecemos essa vinculação, eu garanto – precisamos parar de colocar nossas vaidades e nossos desejos acima dos direitos, da liberdade dos demais seres.

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