Sofrimento de elefantes na Tailândia inspira uma jornada de amor

Sofrimento de elefantes na Tailândia inspira uma jornada de amor

Por Amy Mitchell-Whittington / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Tailandia maetee1

Mae Tee, uma elefante tailandesa viciada em metanfetamina, foi a responsável por fazer um casal de Gold Coast, na Austrália, Di Coulthard e Steve Franklin, dedicar o resto de suas vidas ao resgate e trabalho com elefantes vítimas de abusos e tortura da Ásia.

Estes gigantes gentis chamaram sua atenção pela primeira vez em 2007, quando uma colega de trabalho recomendou que eles fizessem uma visita ao Elephant Nature Park, em Chiang Mai, no norte da Tailândia, após ter estado lá no ano anterior.

Pesquisando sobre o parque, Di descobriu que ele era gerenciado por uma senhora tailandesa de apelido Lek, que passou duas décadas provendo um santuário para que elefantes torturados ou vítimas de abusos pudessem ser simplesmente elefantes, bem longe das trilhas, madeireiras ilegais e acampamentos de turistas que afligem a maioria dos elefantes asiáticos domesticados.

Tailandia maetee2

Elefantes domesticados são considerados animais comerciais pelo Beast of Burden Act, de 1939, colocando todos os direitos do animal nas mãos do seu dono, que pode negociar e abusar do elefante à vontade.

O governo tailandês já fez algo para amenizar a questão do bem-estar do elefante domesticado, como a proibição em 1989 da exploração madeireira em toda a Tailândia.

Essa proibição foi bem-sucedida ao pôr um fim no trabalho de elefantes em madeireiras, mas resultou em inúmeros animais abandonados, ou redirecionados para as madeireiras de Burma, ou indo para a indústria turística, para realizarem performances em circos, trilhas e mendigando nas ruas.

Tailandia maetee3

Ainda há muito trabalho a ser feito.

O Elephant Nature Park abriga mais de 40 elefantes, a maioria com níveis variados de ferimentos causados pelo trabalho no passado, que podem andar livremente em um vale cercado de florestas e com um rio, a cerca de uma hora e meia da cidade de Chiang Mai.

“Depois de saber sobre o objetivo do Elephant Nature Park e escutar as histórias das vidas dos elefantes antes de seus resgates, nós simplesmente sabíamos que tínhamos que nos envolver de alguma forma”, Di disse.

Tailandia maetee4

“Eu sempre gostei de elefantes, mas foi o lugar que realmente fez com que eu me apaixonasse”.

“Nós queremos tornar a vida dessas criaturas incrivelmente inteligentes melhor, e educar os outros através de nossas experiências”.

O casal é autônomo, o que permite que eles retornem ao parque a cada seis meses para voluntariar seu tempo limpando abrigos, cortando milho e observando os elefantes sendo elefantes, longe de todo o teatro tão comum no turismo tailandês hoje em dia.

Após algumas visitas, Di e Steve decidiram dedicar suas economias comprando um elefante, podendo assim dar a ele uma vida longe do abuso do turismo e das madeireiras ilegais, que dependem tanto dos elefantes para sua renda.

“Uma vez eu vim por cinco dias seguidos para conversar com Lek sobre o resgate de um elefante, porque nós estávamos tentando convencê-la que queríamos resgatar um e ela disse ‘ah sim’, mas não acho que ela estava levando a gente a sério”, Di disse.

“Ela encontra muitas pessoas que se emocionam tanto enquanto estão aqui e dizem que querem fazer algo, mas aí elas vão para casa e esquecem completamente”.

“Só quando eu vim aqui um dia, ela me levou para a cozinha e nós comemos uma refeição tradicional juntas que ela me levou a sério”.

Jodi Thomas, uma colunista que é voluntária em tempo integral no parque desde 2003, disse que Di e Steve deram ao parque tudo que eles tinham.

“Di e Steve são realmente incríveis, eles vieram aqui pela primeira vez uns sete ou oito anos atrás e você sabe que eles estão totalmente dedicados à causa desde então”, Jodi disse.

“Eles realmente se tornaram, desde que vieram aqui, voluntários orientados pelo bem-estar animal”.

O primeiro elefante que Di e Steve tentaram resgatar foi um bebê de 3 anos chamada Aura, que nasceu no Elephant Nature Park.

Sua mãe, Mae Boon Mah, estava alugada pelo parque, e seu dono decidiu levar Aura para realizar o tradicional “pajaan”, um ritual comum que esmaga o espírito de um elefante jovem para torná-lo submisso e domesticado para trabalhar.

O Pajaan envolve colocar um elefante jovem em uma jaula, amarrar seus pés uns aos outros e então enfiar pregos, ganchos e varetas no seu corpo e face, até que ele responda voluntariamente às ordens sendo gritadas a ele.

Este “treinamento” pode durar até 5 dias e nem todos os elefantes bebês chegam ao fim vivos.

“Nós dissemos que queríamos resgatá-la para que ela não passasse pelo treinamento”, Di disse.

“Lek tentou, mas ela não conseguiu pagar a quantia pedida, porque uma vez que ela estabeleceu esse precedente, a notícia de que ela tinha dinheiro e poderia comprar elefantes se espalhou; então, os preços simplesmente sobem, impedindo que ela resgate qualquer um deles”.

“Com a Aura, ela disse que nós não poderíamos resgatá-la”, Di disse.

Alguns meses depois, uma companhia de trilha tentou vender à Lek 2 elefantes que eles tinham comprado, mas perceberam que eram muito velhos e frágeis para trabalhar.

Lek entrou em contato com Di e Steve, que conseguiram financiar a compra de um deles, chamada de Mae Tee, que aos 65 anos de idade, custou a eles U$ 10.000, um pequeno valor considerando que o preço de Aura era três vezes maior.

“Ela tem sérios problemas nos pés já que ela era uma elefanta viciada. Eles acreditam que ela foi alimentada com metanfetamina no passado”, Di disse.

“A metanfetamina calcifica suas articulações, então as pernas dianteiras dela eram muito rígidas. Quando ela andava, suas pernas traseiras giravam para dentro”.

Isso causou feridas de pressão (escarras) que abriam durante a estação úmida, então ela tinha que ficar constantemente acorrentada para que seus pés fiquem limpos, prevenindo-a de andar livremente com os outros elefantes.

“Steve e eu sabíamos que ela não era nossa elefanta, ela é da Lek, mas se nossa opinião tem algum valor, a gente prefere que ela tenha uma vida curta, mas feliz, do que uma vida longa e miserável”, Di disse.

“Aquele dia nós a tiramos da corrente, mas eles tinham que ficar de olho nos seus pés”.

Eventualmente Di e Steve decidiram comprar umas botas feitas especialmente para Mae Tee, e conseguiram encontrar em uma companhia australiana chamada Aussie Dog, especializada em produtos para animais domesticados e de zoológicos.

“Por um tempo eu pensei que seria meio anormal um elefante com botas, mas então o Steve disse que a condição dela é anormal”, Di disse.

“Foi causado por humanos, então deixe-nos fazer algo a respeito”.

Steve trouxe as botas de 6,5 kg em março passado para Mae Tee, que as usou por 3 meses antes de morrer pela idade.

Desde então, Di e Steve trabalharam em muitos outros projetos que cuidam de elefantes pela Tailândia, além de trabalhar no Elephant Nature Park, indo a qualquer lugar onde eles possam realmente se dedicar ao trabalho.

“Cada projeto é completamente diferente, cada um com seu lado positivo e com seu lado negativo, e estamos procurando por lugares onde a gente possa dar nosso dinheiro e energia para outras pessoas”, Di disse.

“No fim do dia, isto não é sobre alianças com pessoas, mas sim sobre os elefantes asiáticos e fazer o melhor para eles”.

Fonte: Brisbane Times

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.