Tensões crescentes quanto à tradição de touradas na Espanha

Tensões crescentes quanto à tradição de touradas na Espanha

Tradução de Alda Lima

Tensões quanto às touradas estão crescendo na Espanha, onde a morte de um toureiro no ringue, transmitida ao vivo pela televisão, adicionou lenha na fogueira para um debate nacional sobre a secular, mas controversa tradição.

Ativistas dos direitos dos animais renovaram seus apelos pela proibição total de touradas após Víctor Barrio, 29 anos, ser ferido na coxa e no peito durante uma tourada na cidade oriental de Teruel no sábado dia 9.

Muitos usaram as redes sociais para celebrar a morte de Barrio, a primeira de um matador no ringue desde 1985. Os críticos também insultaram pela internet sua viúva, Raquel Sanz, que escreveu no Twitter que seu marido tinha perdido sua vida em “glória”.

O Primeiro-ministro conservador, Mariano Rajoy, que no dia 13 prestou homenagem a Barrio após a sua morte, condenou o derramamento de ódio pelo falecido matador, chamando os insultos de “bárbaros”.

No início deste mês, dezenas de ativistas dos direitos dos animais seminus se encharcaram de sangue falso e ficaram na frente da arena de touradas de Pamplona, uma das maiores do mundo, para protestar contra o início do festival de corridas de touros de uma semana de San Fermin.

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Anos de protestos dramaticamente semelhantes precedem a proibição do governo regional de Castilla e Leon em junho da matança de touros em festivais da cidade, em um movimento que tem como alvo o polêmico festival Toro de la Vega, da região norte, onde cavaleiros perseguem um touro e o matam com uma lança na frente de espectadores .

O evento de séculos de idade, que tem lugar no coração da conservadora Espanha, tem atraído cada vez mais protestos nos últimos anos, com manifestantes se deslocando até o local e usando o Twitter para denunciar o que eles acham ser uma tradição nacional anacrônica.

“Conseguimos posicionar toda a sociedade espanhola contra esta celebração”, disse Silvia Barquero, presidente do partido do bem-estar animal da Espanha Pacma, que ganhou cerca de 285.000 votos em uma eleição geral 26 de junho, um recorde para a formação de 13 anos de idade.

Mas os defensores das touradas, conhecidos como “aficionados”, não vão desistir sem lutar. Eles veem as touradas como uma arte que é parte integral da cultura espanhola, como o flamenco.

O primeiro grupo da Espanha pró-tourada, a Bull Foundation (Fundação Touro), composta por criadores, matadores e “aficionados”, foi criada no ano passado.

Manifestações de protesto em favor do controverso passatempo foram realizadas, como uma na cidade oriental de Valencia, uma das principais cidades de touradas, que atraiu milhares de pessoas em março.

O governo do Partido Popular de Rajoy votou por anexar o status de “interesse cultural nacional” às touradas em 2013, o que concede à indústria firme proteção legal.

Toureiros são “heróis”

A tourada é “a cultura do nosso povo”, disse Diego Sanchez de la Cruz, jornalista financeiro e co-fundador do La Economia del Toro, uma plataforma independente que realiza análises econômicas das touradas.

Toureiros são “heróis, capazes de lutar, vezes e mais vezes, com animais que pesam 500 quilos”, acrescentou ele.

Por sua vez, neste debate nacional de longa duração, ativistas de direitos animais discordam com o lugar da prática em sua cultura, vendo os toureiros como “torturadores”.

“Nós podemos nos esconder atrás de palavras como cultura, arte, ritual, mas na prática é um touro que apunhalamos com bandarilhas e uma espada, que matamos e torturamos”, disse a porta-voz do Pacma, Laura Duarte.

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Há alguns sinais de crescente vontade política de parar as touradas. O novo partido de extrema-esquerda Podemos, que ficou em terceiro lugar nas pesquisas do mês passado, é contra.

Após as eleições municipais de maio de 2015, várias cidades onde o partido ganhou poder como Madrid e A Coruña, no noroeste, barraram o financiamento público para eventos de touradas ou pararam de incluir touradas como parte de suas festas anuais.

Espera-se que espetáculos com touros sejam banidos ainda este ano nas Ilhas Baleares, no Mediterrâneo, governadas por uma coligação incluindo o Podemos.

O movimento vem seis anos após o nordeste da Catalunha tornar-se a primeira região na Espanha continental a banir as touradas.

Valência, a terceira maior cidade da Espanha, proibiu a tradição de soltar touros com tochas acesas ligadas a seus chifres chamados “bous embolats”.

A vereadora de cultura da cidade, Gloria Tello, disse que a prática era um “abuso” e uma “aberração que viola os direitos dos animais”.

Opositores das touradas apontam com orgulho dados do Ministério da Cultura que mostram que o número de eventos envolvendo touros caiu de 2.290 em 2011 para 1.736 em 2015.

Fonte: The Local Es

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