Tico, o gato de uma vida e a história de um assassinato

Tico, o gato de uma vida e a história de um assassinato

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Manhã de quarta-feira última, a estudante universitária Mena Aysel, foi alertada por populares que um gato preto chorava muito na área verde do loteamento onde mora, no bairro de classe média alta Urbanova, em São José dos Campos. Ela foi procurar e o que encontrou foi uma cena desesperadora que se seguiria por várias horas, recusas de veterinários em atender o animal e um sofrimento que tomou o gato Tico até suas últimas horas.

O relato detalhado da jovem mostra o nível de sofrimento e de crueldade que o gato foi submetido:

“Resgatei um gatinho o qual diziam ser a minha no alambrado na mata perto de casa, corri para ver, não era a minha, pouco me importava de quem era, eu só queria tira-lo dali. O miado agonizante pedindo socorro desesperadamente, era nitidamente um apelo pela vida. Não pensei duas vezes, entrei numa loja de tinta sim essas casinhas que vendem latas de tinta, quem sabe uma alma ali me ajudaria, afinal o gato parecia fora de si, e muito arisco para tentar tira-lo sozinha .

Foi então que um senhor me reportou que ali na reserva o gatinho miava ha horas desde cedo. Era de cortar o coração. Eu pedi ajuda a 3 veterinários que não vem ao caso, não faz diferença no momento, pois recusaram a me ajudar, não sei o porque então se formaram em veterinária, não seria para salvar vidas dos animais? preservar os pequenos? ama-los? Pois bem, enfim nada adiantou nem se quer meu pedido de socorro, resolvi me virar sozinha, fui atrás de ajuda na UNIVAP, a principio não queriam me ajudar, mas expliquei que eu precisava de ajuda,e não era possível que ninguém ali seria capaz de não me ajudar, foi então que disseram que eu poderia tentar descer ate a área silvestre , sim o portão da guarda florestal ,área restrita dentro da UNIVAP e pedir ajuda.

E foi o que eu fiz, não foi preciso dizer muito, um senhor muito atencioso se prontificou em me ajudar e não pensou duas vezes, entrou no meu carro sem saber quem eu era, e de onde eu vinha e foi comigo resgatar o Tico. Chegando lá não foi fácil, ele mal conseguia se arrastar, estava sujo, melado, e muito debilitado a única coisa que ele fazia era miar desesperadamente. Como diz minha mãe parecia que ele gritava AiAiAi… como uma criança quando se machuca. E foi bem isso mesmo. Era um grito de dor, não deixava ninguém chegar perto. E eu consegui. Não sei porque cargas dágua no mesmo dia um amigo postou uma oração a St Gertrudes, a santa que cuida dos felinos, e eu fiz aquela oração e na hora do desespero lembrei muito dela e de São Francisco.

Apliquei Reiki no gatinho, fiz o que pude para deixa-lo bem, foi atendido com muito carinho pela minha amiga Dra. Ana Paula Oliveira Carvalho, que identificou os tutores, que por sinal e mundo pequeno era de um casal muito querido Rosi Masiero e Julio Ottoboni. Tentamos de tudo, mas o Tico estava sofrendo muito e com 3 fraturas diagnosticadas no raio x,com muita dor no coração que eu venho agradecer pela ajuda da Aninha e do Toninho, porque eu nao teria conseguido resgatar o meninão sozinha. E por incrível que pareça, eu o entendia…sentia sua dor e conversava com ele” .

O Tico foi encontrado ainda pequeno na favela Santa Cruz, ao lado da prefeitura de São José dos Campos no final do ano de 2007. Era saudável, muito esperto e forte. Estava com 7,6 anos de idade.

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O seu tutor, o jornalista Júlio Ottoboni, relembra sua chegada : “ Ele veio com seu irmão, Teco, para casa dentro de um caixa de papelão que minha esposa, a Rosi Masiero, arrumou no lugar. Era feiosinho, magrinho e com o tempo se tornou lindo, brincalhão e muito esperto. Teve uma história linda e intensa, conseguiu que uma gata abandonada na mata, a Jack, o adotasse e vivia com ela para todo lugar, Conseguiu o impossível, que a Jack voltasse a conviver com humanos. Foi feliz, muito amado, e adorava chegar em casa no meio da chuva para ser enxugado com a toalha. Virava de barriga para ser esfregado, depois comia ração de peixinho e ia dormir na nossa cama, espalhado, e quando acordava ficava pedindo para abrirmos a janela ou a porta ‘para ir para o trabalho’, como a Rosi Masiero dizia. Ele madrugava… nestes dias em que estava muito machucado, dormi ao seu lado, com suas patas segurando minha mão. Ao ver o Sol nascer e quis sair. Não conseguia mais ficar em pé, então se arrastou e olhando para mim, chorou. Só pude dizer “meu amor, você está machucado, tenha paciência Ticão’, disse com um nó na garganta e depois chorei muito. A liberdade no Tico estava comprometida, seu maior trunfo na vida havia se perdido. Ele nasceu livre e assim morreu”.

Tico não suportou o retorno da cirurgia de reconstituição de sua bacia, que foi esmagada provavelmente por uma paulada, conforme avaliou o veterinário. Os nervos ficaram expostos e as dores foram tão intensas que ele passou a ter alucinações. Ele morreu as 18h20 do último domingo (22), em estado de choque, depois de lutar desesperadamente para sobreviver. As postagens no Facebook sobre o drama de Tico alcançaram grandes números de visualização e compartilhamento, tanto no Brasil como na Argentina e Itália.

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