Tortura como lucro e divertimento nas redes sociais: você pode estar contribuindo com tudo isso

Tortura como lucro e divertimento nas redes sociais: você pode estar contribuindo com tudo isso
Este vídeo que mostra um bebê macaco sendo torturado durante semanas ou até meses ainda se encontra online depois de repetidas denúncias para o YouTube.

No mês passado, a Social Media Animal Cruelty Coalition (SMACC), uma colaboração entre várias ongs de proteção animal, publicou mais um relatório chocante sobre a realidade dos animais expostos em grandes canais de mídia social: Youtube, Facebook, Instagram e TikTok. “Teasing as Torture” (provocação como tortura) revela o lado mais que sombrio das redes sociais, onde vários tipos de torturas são produzidos, publicados, assistidos e monetizados com vídeos que chegam a somar dezenas de milhões de visualizações.

No ano passado, a SMACC havia publicado seu primeiro relatório documentando a crueldade feita contra animais expostas nas redes sociais, analisando mais de 5 mil vídeos contendo crueldade contra animais que no total somaram mais de 5 bilhões de visualizações e estimadas dezenas de milhões de dólares para seus criadores e o YouTube. Os tipos de crueldades documentadas nesses vídeos vão desde afogamentos e quebra de membros propositadamente até o assassinato de mães enquanto seus filhotes são filmados chamando em completo desamparo. Atos cruéis são também cometidos por pessoas “bem-intencionadas” que de alguma maneira torturam seus animais de companhia por desconhecimento. Muitos desses animais são repetidamente abusados por longos períodos de tempo. Resgate falsos de animais é a segunda categoria de vídeos mais comumente postados após vídeos de caçadas.

Vídeos em que predadores naturais como cobras são colocados ao lado de suas presas, normalmente dóceis e desorientadas, são comumente encontrados nas redes sociais. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Vídeos em que predadores naturais como cobras são colocados ao lado de suas presas, normalmente dóceis e desorientadas, são comumente encontrados nas redes sociais. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Não é nem um pouco difícil de encontrar esse tipo de conteúdo online. No momento da escrita deste artigo, uma pesquisa rápida pode levar a centenas de vídeos que mostram algum tipo de abuso ou tortura. Muitos destes vídeos sendo monetizados e gerando lucro para seus criadores e plataformas.

Segundo a pesquisa da SMACC, canais do YouTube contendo esse tipo de conteúdo pode chegar a ter 45 milhões de seguidores. Com a popularidade crescendo a cada dia, esses canais aumentam ainda mais sua visibilidade e se tornam lucrativos para seus criadores e para as plataformas.

Este canal é dedicado a mostrar animais silvestres como pets e em várias situações de estresse. Este canal tem mais de 5 milhões de seguidores e o número de visualizações excedeu a 746 milhões. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Este canal é dedicado a mostrar animais silvestres como pets e em várias situações de estresse. Este canal tem mais de 5 milhões de seguidores e o número de visualizações excedeu a 746 milhões. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Os tipos de tortura praticado são variados. Animais são postos em situação de pânico na presença de outros animais, como seus predadores naturais e até atados a eles, enquanto são filmados para o divertimento do autor e de seu público (que comenta com risos). Fogos de artifício são estourados do lado de cães e gatos. Animais são propositadamente feridos para depois serem “tratados”, muitas vezes com o uso de práticas cruéis.

Este rato foi atado ao rabo de um gato, que por tentar se libertar das amarras, acaba matando o rato. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Este rato foi atado ao rabo de um gato, que por tentar se libertar das amarras, acaba matando o rato. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Apesar de abusos claros e intencionais, há casos em que o comportamento do animal é mal interpretado ou intencionalmente ignorado. Um vídeo, por exemplo, de um leão-marinho no escuro mostrando sinais claros de medo sendo tocado e arrodeado por muitas pessoas com lanternas teve 5.6 milhões de visualizações. Algumas vezes as expressões que os animais apresentam não são claras para o público, como no caso de uma arraia que a receber “cosquinhas” apresenta uma reação falsamente interpretada como “sorriso”, mas que é na verdade sinal de medo e dificuldade respiratória.

Mesmo sem abuso físico, animais são submetidos a variados tipos de estresse psicológico, como por exemplo quando um animal é assustado com o uso de máscaras ou a comida é propositalmente posta fora de seu alcance e a reação do animal é filmada ao ele tentar repetidamente alcançar o alimento sem sucesso. Mesmo entre os abusos físicos, alguns métodos podem não ser óbvios para o público leigo, mas bastante conhecido entre as pessoas que assistem a esses vídeos rotineiramente por diversão e sadismo. Vão desde banhar o animal com substâncias urticantes à limpeza frenética da região anal de filhotes de macacos na troca de fralda. Animais que parecem nesses vídeos são normalmente manuseados de maneira agressiva, mantidos em gaiolas pequenas e sujas ou em ambientes inadequados, e normalmente revelam sinais de infecções, doenças e condições físicas e psicológicas degradantes.

Máscaras são usadas para assustar filhotes e filmar suas reações de completo pânico. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Máscaras são usadas para assustar filhotes e filmar suas reações de completo pânico. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Macacos, na sua grande maioria filhotes, são frequentemente mostrados como pets, vestidos e forçados a se comportar como humanos. Isto por si só já é um ato claro de abuso animal. No entanto, o tipo de tortura praticada contra primatas, especialmente do gênero macaca, atinge a patamares inimagináveis (ver sessão “Ódio a Macacos” abaixo).

É importante ressaltar que muitas pessoas que assistem a esses vídeos demonstram raiva ou repulsa pelo abuso cometido. No entanto, cada clique, visualização ou comentário aumenta a popularidade do conteúdo. Por isso é importante buscar informação sobre a origem e intensão dos vídeos antes de decidir clicar play. Informações como a imagem de miniatura, o título, outros vídeos publicados pelo usuário, descrição e comentários irão ajudar a elucidar a verdadeira intensão do autor do vídeo (veja alguns exemplos no final do texto).

As redes sociais não somente permitem que conteúdos mostrando crueldade contra animais se espalhem, como incentiva que ela aconteça por torná-lo lucrativo. No entanto, a legalidade por trás da crueldade animal nas redes sociais é problemática. O abuso de animais não é ilegal em todos os países, e onde é, a fiscalização pode ser ineficiente ou inexistente. Além disso, a ênfase na privacidade do usuário e na liberdade de expressão torna ainda mais difícil a identificação, investigação e punição dos criadores desse tipo de conteúdo.

É inadmissível, no entanto, que plataformas gigantes como o YouTube, Facebook e TikTok continuem a permitir que este tipo de conteúdo seja postado e proliferado em suas plataformas, e ainda mais que obtenha lucro com esse tipo de conteúdo sem que sejam responsabilizados.

Estas plataformas, e em especial o YouTube, foram contatados por membros da SMACC diversas vezes, no entanto, até hoje nenhuma resposta e ação satisfatória foi tomada. Inúmeros vídeos mostrando crueldade óbvia e intencional contra animais foram denunciados, os quais muitos até hoje permanecem públicos. Para se ter uma ideia, dos 60 vídeos denunciados por voluntários da SMACC num período de uma semana, apenas dois tinham sido removidos uma semana depois (um no YouTube e um no TikTok). Esses vídeos incluíam resgates falsos, caça de animais amaçados de extinção, cachorros fisicamente abusados, macacos sendo alimentados e banhados com álcool, animais sendo comidos vivos, e um gato drogado com feijões grudados por todo o seu corpo. Nenhum desses canais, usuários ou páginas envolvidas foram restringidos de qualquer maneira. Um exemplo de um vídeo horrendo ainda não removido pelo YouTube é de um macaco bebê que foi submetido a tortura prolongada onde feridas foram feitas em seu corpo e incessantemente “curadas” de maneira dolorosa. No vídeo claramente se vê o filhote tendo sua saúde física se deteriorando com o passar do tempo. Este vídeo foi denunciado no início do ano e até hoje permanece online.

O que você pode fazer para ajudar:

  1. Assine a petição online: www.smaccoalition.com/petitions e repasse para a sua rede de amigos.
  2. Escreve para as redes! Nunca negligencie o poder da escrita. Todos nós somos de alguma forma usuários e, portanto, também consumidores dessas redes. É inadmissível que gigantes como o YouTube, Facebook, TikTok e Instagram continuem lucrando com a crueldade animal.
  3. Siga o conselho da SMACC:
    a. Esteja informado. Acesse o site da SMACC www.smaccoalition.com para mais informações. As vezes a crueldade contra animais nas redes não é óbvia. É bom estar consciente das formas de exploração existentes.
    b. Não assista! Quanto maior o número de visualizações este tipo de conteúdo recebe, mais cresce em popularidade e se torna lucrativo para seus criadores.
    c. Denuncie para a plataforma. Todas as plataformas têm seu mecanismo para receber denuncia, se não tiver a categoria “abuso animal”, escolha a categoria mais próxima.
    d. Não comente ou (des)curta o vídeo! Qualquer tipo de interação apenas aumenta a popularidade desse tipo de conteúdo. O melhor a fazer é não interagir de qualquer maneira e denunciar o vídeo para a plataforma.
    e. Não compartilhe. Isto também irá aumentar a popularidade do vídeo. Ao invés, compartilhe as informações postadas pela SMACC e seus membros para conscientizar mais pessoas.

Fique atento para estes tipos de torturas online:

• Resgates falsos

Como colocar animais em contato com seus predadores e depois fingir resgate ou animais que são intencionalmente machucados para depois serem tratado sob a lente das câmeras. Antes de assistir qualquer vídeo de resgate, dê uma olhada no canal. Este canal posta vários vídeos similares? O mesmo animal já apareceu em mais de um vídeo?

Animais postos junto aos seus predadores para simular um resgate. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Animais postos junto aos seus predadores para simular um resgate. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

• Falsa denúncia

Canais ou páginas que se apresentam por serem dedicados a expor a crueldade (muita vezes extrema) feita por outros canais ou indivíduos, mas na verdade usam essa roupagem para que seus vídeos não sejam retirados do ar e para enganar uma parcela de seu público que acredita que este canal é genuíno.

Criadores de conteúdos de tortura extrema com animais acharam uma maneira de evitar que seus vídeos e canais sejam removidos simulando que estão fazendo um “documentário” sobre o assunto.
Criadores de conteúdos de tortura extrema com animais acharam uma maneira de evitar que seus vídeos e canais sejam removidos simulando que estão fazendo um “documentário” sobre o assunto.

• Ódio a macaco (Monkey Hatred)

São vídeos e canais dedicados a fazerem todos os tipos de crueldade com macacos adultos e filhotes. Estes canais têm um público fiel que cultua o seu ódio contra macacos nos comentários e em comunidades secretas em outros canais, como o discord. Esses vídeos podem chegar ao mais alto grau de sadismo, que passa de inserir agulhas nos olhos de um macaco amarrado, a colocar um macaco vivo no liquidificador ou direto na chama do fogo. Dezenas ou muito mais desses vídeos estão online no presente momento no YouTube. Apesar desses vídeos de tortura extrema serem os que são apagados em uma frequência mais alta, após serem denunciados pode levar uma semana para que sejam retirados do ar — tempo suficiente para que a comunidade de Monkey Haters veja, copie e espalhe o conteúdo.
Os abusadores de macacos podem se apresentar como as “mães” de seus pets e normalmente escrevem no título de seus vídeos “chorando” ou pedindo “comida”/“leite”. Os abusadores também usam palavras como “prank” (pegadinha), “engraçado”, “máscara”, “assustado”, “bravo”, “vomitando”, entre outras. A escolha dessas palavras revela que os criadores desse tipo de conteúdo estão conscientes das reações negativas das suas vítimas. Os comentários nesses vídeos também revelam a consciência de uma parcela do público da natureza torturante desses vídeos, como por exemplo, ao usar emojis de risada e até a chegar a requisitar que conteúdo similar seja criado e postado.

Macacos são geralmente referidos como “ratos” por estas comunidades que cultivam o ódio a esses animais. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Macacos são geralmente referidos como “ratos” por estas comunidades que cultivam o ódio a esses animais. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Os tipos de crueldade comumente usadas são realizadas principalmente contra filhotes como o uso de roupas que restringem seus movimentos (como o uso dos braços); o abandono de filhotes muito fracos e pequenos enquanto são filmados em completo desamparo; alimentos postos a mostra, mas de alguma maneira inalcançáveis; mamadeiras são dadas e logo retiradas; filhotes vestidos obrigados a ficarem sentados enquanto assistem um humano preparar algum alimento e punidos quando se movimentam—isto cause aflição e confusão neles; filhotes sendo punidos por ter apresentado algum comportamento “condenável” pelo seu “tutor”.

Usuários dedicados a criar vídeos de tortura extrema estão de alguma forma relacionados à canais onde a tortura de macacos não é tão óbvia para o público desavisado e os quais podem chegam a ter milhões de seguidores—maioria desses canais dedicados a mostrar a vida de macacos filhotes criados como pets (exemplos acima). Desta forma, estes usuários mantêm canais rentáveis e se utilizam do mesmo para recrutar mais membros para suas comunidades sadistas. Uma vez formada, essas comunidades de “Monkey Haters” se tornam dinâmicas, navegando por diversas plataformas e comunidades secretas. Dentro desses grupos, vídeos de tortura extrema são requisitados e criados sob encomenda. Um vídeo deste pode custar $100 dólares. O YouTube, Facebook e outras plataformas por permitirem que canais dedicados a esse tipo de cultura do ódio operem por meses ou até anos tem possibilitado que essas comunidades não só existam como cresçam, impactando de maneira imensurável os animais vítimas dessas torturas a nível global.

Canais e páginas bastante populares no YouTube e Facebook mostram macacos filhotes com roupas sendo alimentados e “educados” de maneira completamente antinatural a eles. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Canais e páginas bastante populares no YouTube e Facebook mostram macacos filhotes com roupas sendo alimentados e “educados” de maneira completamente antinatural a eles. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

• Animais na indústria do entretenimento

Desde performance em circos, zoológicos, aquários até nas ruas, as vezes legais ou ilegais no país de origem. Este tipo de entretenimento tem ganhado força nos últimos anos com a avalanche de selfies e vídeos de turistas com estes animais.

• Caça

Enquanto a caça é amplamente aceita como uma atividade normal ao redor do globo, os vídeos de caça nas redes sociais são frequentemente feitos com o propósito de ganhar curtidas e compartilhamentos, e gerar lucros para seus criadores. Esses vídeos normalmente mostram mortes prolongadas, sofrimento extremo e usam métodos legais e ilegais para capturar e matar os animais.

• Comendo animais vivos e suas partes

Um vídeo mostrando uma mulher comendo um polvo vivo ganhou mais de 3 milhões de visualizações. Outro exemplo é um vídeo de uma mulher comendo a pata de um urso no Vietnam, onde esta prática é ilegal.

Se alimentar com animais vivos tem ganhado popularidade nas redes. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Se alimentar com animais vivos tem ganhado popularidade nas redes. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

Ao se recusarem a proibir boa parte da crueldade contra animais nas suas políticas de conteúdo e diretrizes, as redes sociais acabando por promover esses atos como socialmente aceitos e apropriados.

• Vídeos de esmagamento

Entre os atos mais chocantes de crueldade óbvia e intencional documentado pela SMACC estão os vídeos de esmagamento de animais vivos, onde os animais são esmagados até morrerem por um humano com o uso de seus sapatos ou um objeto, como um livro no qual a pessoa senta-se ao topo.

Um coelho filhote sendo esmagado vivo por uma mulher que senta em cima de seu corpo. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/
Um coelho filhote sendo esmagado vivo por uma mulher que senta em cima de seu corpo. Fonte: SMACC — www.smaccoalition.com/

• Animais silvestres como pets

Macacos, tigres, corujas, ursos, entre vários outros animais silvestres são criados inapropriadamente em ambiente doméstico para o entretenimento, status e curtidas nas redes sociais.

Referências:

SMACC Spotlight Reports

SMACC Report 2021

Por Silvana Sita

Fonte: SMACCoalition


Nota do Olhar Animal: Parece-nos que a melhor forma de combater a exploração comercial dos vídeos que contém maus-tratos contra animais, fato denunciado na matéria, é a total proibição da MONETIZAÇÃO de qualquer conteúdo dessa natureza. Isso afastaria os que lucram com o sofrimento e restringiria as exibições às postagens que buscam exatamente denunciar ações de maus-tratos e abusos contra os bichos.

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