Tourada promovida em nome da associação Acreditar gera polémica em Portugal

Tourada promovida em nome da associação Acreditar gera polémica em Portugal

A promoção de uma tourada em nome da Acreditar está a gerar polémica.

A Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro diz que não autorizou a utilização do seu nome na promoção do evento, mas a organização garante que a Acreditar sabia e estava de acordo com tudo.

O evento, intitulado “Acreditar na Vida”, realiza-se a 14 de marco em Beja e tem como cabeça de cartaz o cavaleiro João Moura, constituído arguido, com Termo de Identidade e Residência, no âmbito de um processo de alegados maus-tratos a animais.

Mas a polémica é anterior ao processo de João Moura e remonta ao início do ano, quando a Acreditar foi confrontada com o cartaz.

“Na altura em que começámos a conversar não sabíamos quem eram os cavaleiros convidados. Mas ter um cavaleiro indiciado por crimes [de maus-tratos] é grave”, disse fonte da Acreditar à TVI24.

O caso tornou-se, entretanto, viral nas redes sociais, depois de o grupo de Intervenção e Resgate Animal – IRA ter partilhado, esta sexta-feira, o cartaz na sua página no Facebook, uma publicação que tem já milhares de partilhas.

https://www.facebook.com/intervencaoeresgateanimal/posts/1091179511222570

Na imagem constam duas figuras, a de um touro e de uma criança, as associações beneficiárias – a Acreditar e o Centro de Paralisia Cerebral de Beja e os nomes dos seis cavaleiros, entre os quais João Moura.

A Acreditar assume que iniciou conversações com o filho do promotor do espetáculo, cuja neta era acompanhada no núcleo da associação em Coimbra, sabendo desde o primeiro momento que a intenção era a de que fosse beneficiária de um festival tauromáquico. No entanto, no decorrer das mesmas, acabou por não se rever no protocolo que seria estabelecido, não dando, por isso, o seu aval ao mesmo.

Percebemos que algumas formas de entendimento eram contra a nossa filosofia e rejeitámos o protocolo. Na altura nem sabíamos em que data seria o espetáculo. Em meados de janeiro somos confrontados com o cartaz. Dissemos, várias vezes, que não estávamos de acordo com o protocolo nem com várias atitudes. Agimos sempre de boa fé”, disse fonte da Acreditar à TVI24.

Para a Acreditar, o seu nome “está a ser usado abusivamente” e as suas tentativas junto da organização da tourada para que retirasse o seu nome do cartaz foram sempre rejeitadas.

Quando confrontados com os cartazes efetuados sem autorização e ao arrepio dos cuidados de imagem da Acreditar, solicitámos a sua retirada, demarcando-nos de qualquer envolvimento neste evento. Em momento posterior, o presidente da Acreditar escreveu ainda ao promotor da tourada reiterando a nossa posição, atuação e filosofia. Nada foi feito e a organização afirmou pretender uma indemnização para a retirada dos cartazes”, justifica a Acreditar, num esclarecimento divulgado na quinta-feira, na sua página no Facebook.

Em https://www.acreditar.org.pt/files/esclarecimento.pdf tem acesso ao Esclarecimento da Acreditar relativo a evento a realizar-se a 14 de Março de 2020.

Julkaissut Acreditar Torstaina 27. helmikuuta 2020

Uma indemnização que a Acreditar diz não poder pagar, muito menos iniciar uma batalha judicial.

Não recorremos aos tribunais porque não podemos desperdiçar recursos, que são canalizados para as crianças com cancro”, explicou a fonte.

A Acreditar sublinha, por fim, que o valor angariado na tourada “não reverte” para a associação.

Organização desmente Acreditar

Também nesta sexta-feira o promotor do evento reagiu ao esclarecimento da Acreditar.

Para o organizador, José Manuel Ferreira Paulo, as explicações da associação não passam de “mentiras do princípio ao fim”.

Em março de 2019, por questões pessoais da minha neta, tive um conhecimento mais profundo do trabalho da Acreditar – centro de Coimbra. E da triste realidade que é ter em casa uma criança com um cancro (ou 3!) e não ter recursos para as acompanhar nem para as próteses… Daqui surgiu a ideia da organização do festival. Portanto, logo em março iniciámos as conversações. Ficou acordado a realização do mesmo. Nenhuma condição me foi imposta”, esclareceu.

Segundo o promotor, o protocolo “unicamente definia que a Acreditar não estava envolvida na organização” e que iria “receber 80% do lucro”.

Dessa verba, a prioridade seria pagarem três próteses às amigas da minha neta do centro de Coimbra”, indicou.

Ferreira Paulo disse que apenas foi pedida “uma alteração ao texto para que a atribuição das referidas próteses se enquadrasse nos critérios da associação”, que nada mais gerou discórdia, mas assumiu que o protocolo “não foi assinado”.

O promotor do evento lamentou, ainda, que a Acreditar tenha tido “medo de uma ou duas plataformas e de uns quantos” antitouradas.

Mentem quando dizem que lhes pedi uma indemnização. Aquilo que foi dito foi que para haver um incumprimento unilateral do que estava acordado teria de pagar as despesas efetuadas até ao momento.”

Leia o comunicado enviado às redacções da empresa que está a organizar o Festival “Acreditar na Vida”, que se realiza a 14 de Março, em Beja.

Julkaissut Tauronews Perjantaina 28. helmikuuta 2020

Fonte: TVI 24 / mantida a grafia lusitana original


Nota do Olhar Animal: Uma estratégia para tentar validar uma imoralidade é tentar associá-la a uma ação benemérita, algo que seja bem visto pela sociedade, e uma atividade de cunho filantrópico se presta bem a isso. É o que fazem os promotores de touradas em Portugal e alguns organizadores de rodeios e vaquejadas no Brasil, Aqui também destinam parte da arrecadação para hospitais, etc. A necessidade de fazer esta “compensação moral” atesta mais ainda o imoralidade destas atividades e confirma que os organizadores dos eventos têm plena consciência de que o que fazem contra os bichos é errado, principalmente o mal que causam aos animais na preparação e nos bastidores do “espetáculo”. O fazem pela grana e ponto.

Já as organizações beneficiadas, cronicamente carentes de recursos, se prestam a receber o dinheiro obtido com os abusos e maus-tratos contra animais.

Um indício de que a estratégia dos torturadores funcionou é pessoas comentarem com frase que começam por “ah, mas pelo menos…”, minimizando a tortura imposta aos animais por conta do benefício que essa violência traz para humanos (com a doação do dinheiro para uma instituição filantrópica). Sim, o que acontece em touradas, rodeios e vaquejadas é tortura, não há o que minimizar. E validar o terror imposto aos animais é uma postura extremamente especista. Aqueles que jamais se submeteriam à tortura para gerar renda para instituições filantrópicas fazem esta “caridade” com o sofrimento e dor alheios. Desonesto, não?

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