Touradas na Colômbia, um espetáculo no corredor da morte

Touradas na Colômbia, um espetáculo no corredor da morte
O espetáculo é realizado em Bogotá desde 1931. (Imagem: EFE)

Quando ele olha para suas calças justas, parece um bailarino de balé, e até com uma similar elegância. Mas para os populares defensores dos animais em Colômbia, Luis Miguel Castrillón é pouco menos que um assassino.

Aos 25 anos de idade, este matador desata a ira de ativistas tão jovens quanto ele que não concedem reconhecimento algum a sua profissão de toureiro.

Enquanto na praça de Bogotá um público cada vez mais escasso pode ovacioná-lo por sua plasticidade e bravura frente a um touro de meia tonelada, do lado de fora, a polícia emprega a 2.000 policiais para proteger a ele e aos fãs.

Uma implantação maior do que para uma partida de futebol de alto risco, e que de acordo com o gabinete do prefeito, se tornou necessário perante os protestos que terminaram em agressões contra os participantes na Praça Santamaría há um ano.

A Colômbia é um dos oito países onde ainda há touradas. (Imagem: AFP/END)

“Brincando com a vida perante um touro – pode morrer o animal ou eu – para que no final a sociedade me veja como um assassino”, se lamenta Castrillón.

O espetáculo que é realizado em Bogotá desde 1931, salvo pelo veto de quatro anos imposto pelo ex-prefeito e aspirante à presidência de esquerda Gustavo Petro, enfrenta tal pressão que logo poderá ser abolido no país.

Neste mês os juízes frearam uma consulta popular sobre a tauromaquia. Mas o destino definitivo desta atividade deverá ser definido pelo parlamento de agora até 2019.

Por ordem de um tribunal superior em fevereiro de 2017, o Congresso terá que legislar sobre as touradas, se isso não é feito, Castrillón poderá ser preso se volta a tourear, acusado de maus tratos aos animais.

São poucos os dirigentes que assume o custo político de ir contra esses jovens ativistas.

“Depois de ter saído de minha casa aos 14 anos para ser toureiro e hoje me encontrar em uma situação onde não há touros. Seria acabar não somente com uma carreira, mas também com uma vida”, ele conta ao AFP.

A Colômbia é um dos oito países onde ainda há touradas, além da França, Espanha, Portugal, México, Equador, Peru e Venezuela.

A Colômbia é um dos oito países onde ainda há touradas. (Imagem: AFP/END) A Colômbia é um dos oito países onde ainda há touradas. (Imagem: AFP/END)

“Agonizando” 

O último dia 18 finalizou a temporada de touradas após sua reativação em 2017.

A decisão que permitiu que Santamaría fosse novamente o cenário taurino, não salvará a tourada. Assim acredita Andrea Padilla, porta-voz de AnimaNaturalis, uma ONG defensora dos direitos dos animais.

Esta ativista estudou psicologia e direito, e desde os 16 anos é vegetariana e há um ano começou com a alimentação vegana.

Aos 39 anos começou uma causa que, em princípio, procurava regularizar as touradas (reduzir o sofrimento do animal), mas agora pretende sua proibição absoluta para seguir depois com as rinhas de galos ou o rodeio (derrubar a uma vaca em movimento).

“É uma prática que está agonizando. Há uma geração que já não vai nas touradas”, conta ao AFP.

Os antitaurinos exibem fotografias de uma praça com muito menos espectadores que os 10.000 que podem receber a cada tarde do mês de touradas.

Em 2017 participaram cerca de 35.000 fãs em quatro saídas em Bogotá, de acordo com os organizadores do Consórcio Colômbia Taurina (CCT). O espetáculo gera a cada ano 1.200 empregos diretos e 15.000 indiretos.

Além da capital, a temporada inclui a Cali, Medellín e Manizales. Somente em Bogotá as touradas deixaram cerca de 750.000 dólares em impostos.

A Colômbia é um dos oito países onde ainda há touradas. (Imagem: AFP/END)

Nada a negociar

A controvérsia sobre as touradas – uma prática que em Colômbia se remonta ao século XIX – não tem uma via de solução.

Desde o governo que deixará o poder em agosto, até os candidatos presidenciais de centro e de esquerda, passando pelos animalistas, buscam a proibição das touradas por considera-las uma atividade cruel.

Do outro lado, fazendeiros, matadores e aficionados se escudam no direito das minorias a não ser derrubados pelas maiorias e, em suas visões das touradas como uma “arte de verdade, onde se brinca com a vida do toureiro e do touro bravo”, de acordo com Juan Bernardo Caicedo.

Na fazenda deste fazendeiro de 55 anos, na redondeza de Bogotá, o touro bravo vive como rei até os cinco anos de idade, quando sai ao ringue. Se vence, ele viverá outros 12 anos como garanhão.

Com a proibição “desapareceria o touro lutador, porque não serviria para mais nada”, conta ao AFP.

Os defensores dos animais consideram essa abordagem “perversa”, pois de acordo com Padilla, se trata de “manter uma raça para depois massacrá-la em um espetáculo público”.

Para eles a discussão está encerrada e confiam que a pressão em época eleitoral sirva para dar um ponto final às touradas.

E os toureiros reconhecem que há pouco o que podem fazer quando nem um antitaurino aceita ir a um rancho para conhecer seu comércio.

Tradução de Alice Wehrle Gomide

Fonte: El Nuevo Diário 

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