Um santuário para as galinhas na Irlanda

Um santuário para as galinhas na Irlanda

Ivan Little descobre o que motivou uma apaixonada por animais a dedicar sua vida a uma instituição que resgata pássaros.

Tradução de Nísia Dolores

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Até mesmo a imaginação fértil de CS Lewis, escritor natural da Irlanda do Norte, teria dificuldade em criar a notável história de Mama Hen (Mamãe Galinha), o nome dessa protetora de galinhas da vida real com um coração enorme. Mama Hen cresceu no mesmo local que foi lar de Lewis, ao leste de Belfast, e onde ele escreveu sobre um mundo de fantasia que chamou de Terra dos Animais.

Barbara Mladek passou os primeiros 15 anos de sua vida em Little Lea, muito tempo depois da família de Lewis já ter deixado o local, e transformou a casa que foi seu lar por 25 anos – conhecida como ‘Nut House’ (Hospício) – em um santuário para quase 6.000 galinhas que estavam destinadas ao abatedouro após terem se tornado inúteis para o mercado de produção de ovos.

Barbara, que acrescentou em cartório “Mama Hen” ao seu nome de batismo, possui uma fazenda de animais ao redor de sua casa, que recebeu o estranho nome de Nut House (Hospício) devido a estar localizada em uma estrada chamada Nut Hill Road, próxima à cidade de Moira.

Atualmente ela cuida de seus ‘hóspedes permanentes’ – 180 aves, incluindo galinhas, patos, gansos, perus, e galinhas d’angola, além de outros 75 pássaros resgatados que estão à espera de um novo lar.

Isso sem mencionar os seus animais de estimação – 12 cachorros, nove gatos, seis coelhos, três porcos – uma das fêmeas pode inclusive estar grávida – três leitões e 25 ratos. Sim, ratos.

Os visitantes frequentemente escutam a Nut House antes mesmo de chegar ao local, graças aos galos que ficam passeando e cantando no amplo espaço com tantos estábulos e tendas que fariam a Arca de Noé parecer um barquinho de brinquedo. O local é totalmente cercado, de forma a prevenir a entrada de visitantes indesejados.

Em todos os lugares é possível ver felizes criaturas de duas e quatro patas aproveitando o dia, apesar de uma das galinhas ter apenas uma perna – resultado das terríveis condições em que vivia antes de ser resgatada por Mama Hen.

Outra galinha chamada Becky se tornou quase uma celebridade dois anos atrás, após a sua história ter chegado à mídia. É uma prática comum em granjas cortar a ponta do bico das galinhas, ainda filhotes, como forma de impedir que elas se biquem. Ao contrário das outras, no entanto, o bico de Becky não tornou a crescer.

Uma prótese foi então feita especialmente para ela, mas infelizmente ela morreu de câncer. “Nós recebemos mensagens de apoio da África do Sul, Nova Zelândia e Austrália, porque as pessoas estavam acompanhando a história dela. Ela tinha uma personalidade muito especial. Às vezes ela pulava no meu joelho e colocava a cabeça no copo de vinho que eu estava bebendo.”

A publicidade em torno da história de Becky foi providencial para Barbara, que sempre foi apaixonada por animais e costumava deixar sua família louca ao levar todo tipo de criaturas para casa, incluindo cães, gatos, camundongos e até mesmo ratos.

Um dia, após a escola, ela chegou em casa com cinco cavalos que encontrou vagando pela estrada próxima a sua casa.

Durante toda a sua vida adulta Barbara teve os animais de estimação tradicionais, como cães e gatos. Seu amor pelas galinhas levou anos para desabrochar, mas ela diz que sempre sonhou em ter quatro galinhas. Nem três, nem cinco. Quatro. E quando ela finalmente realizou esse sonho, foi o que faltava para se apaixonar.

“Em um mês eu tinha 24 galinhas,” diz ela “E um dia, após um resgate, eu adotei as minhas cinco primeiras galinhas de granja. Elas se tornaram animais de estimação maravilhosos! São a espécie mais adorável, carinhosa, curiosa e amigável que existe! Mas eu não sabia muito sobre galinhas até que uma delas, chamada Mary Jo, morreu nos meus braços. Eu sofri muito e decidi que precisava aprender mais. Descobri também que não existia nenhum outro centro de resgates na região norte.”

A palavra ‘resgate’ pode remeter a imagens de fanáticos invadindo fazendas para arrancar pilhas de galinhas de suas vidas e locais cruéis. Na verdade, Barbara simplesmente telefonou para os fazendeiros e empresários da indústria de ovos e perguntou se ela poderia ficar com as galinhas após elas terem atingido o fim de sua utilidade comercial.

“Uma empresa me disse que eles tinham um barracão cheio de galinhas que seriam removidas – uma palavra bonita que na realidade queria dizer que elas seriam abatidas – no sábado seguinte e que eu poderia ficar com quantas quisesse.”

Barbara, que curiosamente tem no toque do seu celular o som de um pato, fez um apelo a voluntários para que dessem um novo lar a esses animais e no final conseguiu resgatar 34 aves.

Mas Barbara recebeu muitas outras ofertas de ajuda e, juntamente com o colega Sam Moffett, decidiu fundar uma instituição dedicada a salvar mais galinhas.

No seu primeiro mês de existência, em dezembro de 2011, o Centro de Resgate e Realocação de Galinhas Nut House (NHHRARC) salvou 361 galinhas de uma só vez.

“Nós pegamos uma van e trouxemos a maior quantidade possível,” disse ela. “Algumas delas estavam em péssimo estado, mas nós tínhamos feito pequenos agasalhos especialmente para elas”.

“Foi um dia muito emocionante para os 20 a 30 voluntários que estavam conosco e durante o primeiro ano nós fizemos um resgate por mês. No entanto, nós somos um país pequeno. A quantidade de pessoas dispostas a oferecer um novo lar para as galinhas diminuiu e nós tivemos que realizar os resgates apenas de dois em dois meses.”

Os esforços de Barbara não passaram despercebidos. Em 2013 ela ganhou um prêmio do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal, que foi entregue a ela na Câmara dos Lordes pelo antigo fanático observador de pássaros Bill Oddie, que se tornou um forte aliado da Nut House.

A amizade começou de uma forma nada convencional, quando uma amiga apostou que Barbara não conseguiria dar um beliscão nas nádegas de Bill. Mas ela conseguiu, durante uma sessão de fotos, e ganhou a aposta.

Oddie é um defensor apaixonado do trabalho de proporcionar uma vida digna a galinhas de granja. Ele tem incentivado a instituição e tem ajudado a levantar fundos para a causa.

Atualmente, galinhas são abatidas após terem completado apenas 18 meses de vida, quando os produtores afirmam que ultrapassaram o auge de sua produção de ovos – mais de 300 ovos por ano.

Barbara diz que, após serem resgatadas, algumas das galinhas não sobrevivem ao choque de seu novo ambiente e outras têm ferimentos graves como prolapsos e machucados provenientes de bicadas, ou mesmo asas e pernas feridas que precisam ser amputadas por um veterinário.

“Muitos desses problemas são causados pelo stress de viver em ambientes de densidade populacional tão alta nos galpões e isso leva a consequências,” diz Barbara, que se orgulha do fato de algumas dessas galinhas com ‘necessidades especiais’ ainda estarem vivas quase quatro anos após terem sido resgatadas.

Barbara dá nomes a quase todas as galinhas que moram permanentemente em Nut House – como Cruella, Twisty, Stumpy, Hannah e Doreen.

“Cruella era cega de um olho e não sabia lidar com o fato de estar ao ar livre. Ela costumava correr em círculos em pânico o tempo todo, então ela ficou em um ambiente interno por um longo tempo.

“O fato é que galinhas resgatadas sobrevivem em média apenas 15 meses após terem sido resgatadas,” afirma Barbara, que aprimorou suas habilidades com os galináceos quando leu o livro Galinhas como Animais de Estimação, do autor inglês Andrew Hinkinson, que começou a doar 3 libras a cada exemplar vendido para a Nut House depois que Mama Hen escreveu o prefácio de uma nova edição.

Pode parecer estranho, mas Barbara tem um bom relacionamento com os fazendeiros e empresários da indústria de ovos, apesar de abominar as condições em que as galinhas geralmente são mantidas. “Eu respeito o anonimato dos produtores porque eu não quero que as pessoas cheguem até eles e os acusem dessa prática ou de qualquer outra, diz ela”.

“Mas as condições são provavelmente piores do que qualquer um possa imaginar. Quando você entra nesses lugares a primeira coisa que você sente é o cheiro de amônia, que queima seus olhos e suas narinas. Eu já entrei em galpões onde havia galinhas mortas e agonizantes que simplesmente eram deixadas lá para apodrecer”.

“Certamente muitas granjas estão em melhores condições do que no passado mas todas são ambientes superlotados, sejam elas gaiolas, galpões ou ambientes livres, que nem sempre são tão bons quanto o nome sugere. Dois dos nossos piores resgates foram, na verdade, em granjas que deixavam as galinhas ao ar livre”.

“Não deveria ser permitido deixar qualquer animal em condições tão horrendas. Se alguém vir porcos, vacas ou ovelhas definhando e agonizando à beira da estrada, eles certamente serão identificados e seus donos serão processados. Mas isso não acontece com as aves, porque você pode ter um galpão com 35.000 galinhas. De acordo com as leis de bem-estar animal, as galinhas não têm a proteção que deveriam.”

Barbara e seus ajudantes voluntários detestam perder galinhas que já resgataram, mas infelizmente isso acontece. “Nós sempre prometemos fazer todo o possível para reabilitá-las, mas quando pegamos alguns animais muito doentes, o mais justo a fazer é sacrificá-las. Elas são levadas para um ambiente aquecido, nós as abraçamos e as submetemos à eutanásia e elas reconhecem isso.”

Barbara precisa de toda a ajuda possível para administrar – e financiar – sua instituição. Ela trabalhava em um banco, mas pediu demissão em 2013 para concentrar seus esforços nos animais, apesar de afirmar que irá procurar emprego novamente em breve porque a instituição precisa desesperadamente de dinheiro.

São necessárias 2.000 libras (mais de R$ 8.000,00) por mês para manter a Nut House funcionando. A instituição depende de doações e levantamento de fundos. Barbara vende alguns ovos em sua casa e para lojas de varejo, mas ela também doa uma grande quantidade para abrigos de pessoas e animais.

O perfil de galinhas como animais de estimação tem tido uma maior divulgação através de histórias mostradas na novela britânica Coronation Street e no curta-metragem Boogaloo and Graham, que ganhou o prêmio BAFTA e foi nominado ao Oscar.

Barbara não viu nenhum dos dois, apesar do local onde ela promove os seus cursos de criação de galinhas ter DVDs de filmes como ‘A Fuga das Galinhas’, quadros e roupas de galinhas e até mesmo um relógio no formato de um galo.

O local também possibilita que as pessoas dispostas a adotar as galinhas preencham formulários se comprometendo a cuidar delas e a não abatê-las, a não ser que estejam muito doentes ou machucadas.

Além do galpão, praticamente cada centímetro das dependências é dedicado aos animais, que algumas vezes formam alianças inusitadas, como a galinha que põe um ovo todos os dias em uma cama usada por um cachorro que imediatamente come o ovo. Em um lugar próximo fica o memorial onde são lembradas as galinhas que já morreram.

Para Barbara, sua busca altruísta para resgatar mais e mais galinhas continua juntamente com a tentativa de encontrar novas casas para elas.

A inscrição no programa é uma tarefa simples e Mama Hen tem um instinto sobre quem irá ou não dar às galinhas um bom lar.

O único momento em que ela faz visitas domiciliares é quando as pessoas se inscrevem para pegar 20 ou mais galinhas e ela precisa inspecionar o local.

“Eu não quero que as galinhas tenham acabado de sair de um inferno e acabem indo para outro,” argumenta.

* Para mais detalhes sobre a Nut House, visite o site www.nuthousehenrescue.co.uk ou www.facebook.com/NutHouseHenRescue

Ficando por dentro

* É um equívoco comum pensar que galinhas que costumavam ser de granja não são saudáveis, mas todas elas são vacinadas ainda filhotes e põe ovos normalmente.

* Alguns pássaros terão poucas penas, mas elas geralmente irão crescer após algumas semanas.

* Para abrigar as galinhas, um galpão tradicional ou outra dependência deve ser adaptado, ou você pode optar por um galinheiro construído especialmente para esse fim. É fundamental, no entanto, que o abrigo seja à prova de predadores, pois raposas, texugos e ratos serão atraídos pelas aves durante o dia ou à noite.

* As galinhas devem ficar separadas de outras aves por algumas semanas, visto que não estão adaptadas e têm pouca autoconfiança e poderiam ser intimidadas por outros pássaros.

* Galinhas podem se acostumar facilmente com a maioria dos animais de estimação, mas não as deixe sozinhas com cães até ter certeza que eles estão adaptados às suas novas amigas.

* Você deve vermifugar suas galinhas 3 ou 4 vezes ao ano e tratá-las contra ácaros e piolhos.

* Para maiores informações sobre como cuidar de galinhas, visite o site do Centro Britânico de Bem-Estar das Galinhas: www.bhwt.org.uk.

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Fonte: Belfast Telegraph

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