Veterinária cearense fala da rotina de cuidado a animais resgatados em abrigo improvisado no RS

Veterinária cearense fala da rotina de cuidado a animais resgatados em abrigo improvisado no RS
A veterinária cearense trabalhou voluntariamente em um abrigo para cães e gatos que chegam com hipotermia, desidratação e infecções no trato digestivo pela ingestão de água contaminada. Foto: Reprodução Redes Sociais

Os olhinhos apertados e as orelhas baixas comunicam o medo dos animais resgatados das enchentes no Rio Grande do Sul, onde há uma semana está a veterinária cearense Camilla Simões Nogueira, de 36 anos. Entre plantões para manter o abrigo funcionando em tempo integral, 300 cães e gatos receberam tratamentos emergenciais no período de atuação.

Camilla chegou em Canoas, cidade a 70 km da capital Porto Alegre, na última quarta-feira (15) acompanhada dos veterinários cearenses Ziliberto Gondim Júnior, de 34 anos, e Valfrisio Júnior, 29, para integrar um grupo de voluntários atuantes nos primeiros atendimentos nos animais encontrados. São feitos plantões com até 8 profissionais para manter a estrutura.

“O abrigo no qual fizemos o trabalho voluntário era o que estava mais precisando, era o menor e que começou a funcionar mais tarde. Nós pegamos os animais assim que chegam do resgate e depois encaminhamos para alojamentos”, resume.

Grupo de voluntários se divide para conseguir atender demanda. Foto: Acervo pessoal
Grupo de voluntários se divide para conseguir atender demanda. Foto: Acervo pessoal

O espaço funciona de forma improvisada, com tendas, lonas e diversas “casinhas” de madeira espalhadas num terreno. “Os abrigos maiores pararam de receber os animais por causa da superlotação – alguns estão com 3 mil –, e onde a gente estava teve que alojá-los, praticamente, a céu aberto”.

De modo geral, os animais chegam com hipotermia, desidratação e infecções no trato digestivo pela ingestão de água contaminada. Além dos tratamentos específicos, também é feito um protocolo contra a leptospirose.

Os registros compartilhados nas redes sociais mostram o trabalho para registrar os pacientes e os animais abrigados de forma individual. Em alguns momentos, mesmo em meio ao cenário de destruição, é preciso levar cães para caminhar para acalmá-los.

Animais chegam com casos de desidratação e infecção. Foto: Acervo pessoal
Animais chegam com casos de desidratação e infecção. Foto: Acervo pessoal

Alguns animais serão encaminhados para outros lugares de acolhimento. Nos últimos dias, Camilla presenciou vários reencontros, mas nem sempre com desfecho feliz.

“Nós presenciamos vários reencontros de tutores com os animais, uns levaram para casa imediatamente, mas outros disseram que não tinham para onde levá-los”, pondera.

O que aconteceu aqui vai perdurar por muitos anos, os animais que se perderam dos seus donos, os que foram deixados em abrigos porque os tutores não têm mais como cuidar, os que foram abandonados ou deixados em situação de maus-tratos. Camilla Simões Nogueira – Veterinária

A veterinária avalia que ainda há muito o que ser mensurado e feito para tentar reparar os danos às famílias e aos animais no Estado.

“Não é uma situação simples de resolver, ainda estão sendo retirados corpos de pessoas que não tinham sido encontradas ou que nem foram declaradas desaparecidas. É algo que ainda está acontecendo e os números ainda vão aumentar”, conclui.

CUIDADO COMO MOTIVAÇÃO

Camilla conversou com a reportagem enquanto se organizava para pegar um voo pelas Forças Armadas Brasileira (FAB) com destino a São Paulo, nesta terça-feira (21). De lá, volta para o Ceará.

A veterinária é movida aos cuidados dos bichinhos que estão sem acesso à saúde. Em Aracati, no Litoral Leste, ela realiza um trabalho voluntário nomeado de Voluntários do Campo.

 

 
 
 
 
 
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“Nós fazemos atendimentos em áreas, regiões e comunidades de difícil acesso e que não têm atendimento veterinário e nem como as pessoas levarem os animais a outras cidades para que eles possam ser atendidos”, contextualiza.

Essa experiência também levou Camilla a cruzar o País para dar assistência no evento extremo que afeta o lugar.

“Quando vimos o que estava acontecendo no Rio Grande do Sul, ficamos com vontade de vir e começamos a buscar alguma forma disso. Através da ajuda de amigos e de pessoas que conhecem o nosso trabalho, conseguimos dar a nossa ajuda”, completa.

IMPACTOS DA CHUVA

Já são 161 pessoas mortas, 806 feridas e 85 desaparecidas por causa das fortes chuvas que afetam o Rio Grande do Sul até esta terça-feira (21), conforme a Defesa Civil do Estado. A destruição atinge 464 municípios e 2,3 milhões de moradores são afetados.

Por Lucas Falconery

Fonte: Diário do Nordeste

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