Veterinários do DF fazem ‘força-tarefa’ para salvar tucano acidentado

Veterinários do DF fazem ‘força-tarefa’ para salvar tucano acidentado
Tucano ferido após se chocar com prédio espelhado no DIstrito Federal (Foto: Larissa Vieira/Arquivo pessoal)

Veterinários do Distrito Federal montaram uma “força-tarefa” para ajudar na recuperação de um tucano adolescente, que ficou gravemente ferido após se chocar contra o vidro espelhado de um prédio. A ave perdeu a força nas patas e, com isso, não consegue alçar voo ou pousar (veja vídeo).

Até esta quarta (28), a ave já tinha recebido ajuda de um veterinário especializado em espécies silvestres, um centro de diagnóstico por imagem e uma fisioterapeuta animal. Uma tomografia estava agendada para as 15h30, para avaliar possíveis danos à medula do pássaro e definir os próximos passos do tratamento.

O acidente aconteceu na noite da última quinta-feira (22) em um prédio do Noroeste, onde mora a irmã do veterinário Elber Costa. “Eu já tinha planos de ir até lá no dia, aí ela me ligou pra avisar. Quando cheguei, vi que ele estava caído no local, e sem movimentos nas pernas. É comum que as aves tenham esses sintomas, porque batem de cabeça”, diz o veterinário, que é especialista em animais selvagens.

O animal foi levado para a clínica de Costa e ficou sob observação nos últimos dias. “Normalmente, as aves se recuperam rápido, em alguns dias, até em horas. O intuito era soltar o tucano de imediato, depois desse prazo, mas ele acabou não recuperando os movimentos”, conta o veterinário.

Em meio aos esforços para reabilitar a ave, a sobrinha de Costa escolheu até um nome para batizar a ave. “Ela resolveu chamar ele de Lucky, que é ‘sortudo’ em inglês. Segundo ela, ele deu sorte de bater justamente no prédio da família de um veterinário especializado”, diz.

Diagnóstico

Ao perceber que Lucky não estava se reabilitando por conta própria, Costa entrou em contato com uma colega fisioterapeuta, em busca de ajuda. Segundo ele, a profissional se dispôs a colaborar com o tratamento, mas informou que precisaria de uma tomografia para avaliar a lesão.

Para o exame, o veterinário recorreu à clínica de diagnóstico de Larissa Vieira, na Octogonal. “Ele [Lucky] chegou aqui em estado bem grave, sem conseguir mexer as patas. Ele até consegue mexer as asas normalmente, se alimenta, mas não consegue se firmar. Como é um animal de vida livre, estamos fazendo de tudo para buscar esse tratamento”, disse Larissa ao G1.

Como Lucky não tem tutor, todos esses procedimentos estão sendo feitos de modo voluntário, sem pagamento. Apenas a tomografia, por exemplo, sairia por R$ 750 em uma solicitação particular.

Costa se disse otimista com relação ao tratamento do tucano. “Todos os sinais vitais estão normais, ele chega a mexer um pouquinho as patas, então não é certeza de que vá ficar paraplégico. Não tem nenhum indicativo de dor, embora esteja com sensibilidade. Está arisco, assustado, tentando atacar quem chega muito perto, mas isso é bom. A gente manuseia o mínimo possível para não domesticar, para ele poder voltar à natureza”, explica.

Apesar das altas expectativas, o destino do tucano adolescente depende dos resultados da tomografia. Se o exame apontar que a ave não vai retomar a força nas patas, é possível que ela não tenha condições de ser reintroduzida na natureza.

“Acho que, neste caso, ela poderia até ser encaminhada para eutanásia. Esse decisão é tomada a partir do momento em que o animal perde a qualidade de vida, de modo irreversível. Uma ave que voa, como o tucano, talvez até conseguisse ‘decolar’ normalmente, mas não conseguiria pousar sem as patas”, diz o veterinário.

Ibama
 
Em termos burocráticos, seria necessária uma autorização do órgão até mesmo para que a força-tarefa dos veterinários fosse colocada em prática – mesmo que a intenção seja nobre, de agilizar o tratamento antes de repassar a ave ao Ibama.

“No momento, também estamos tentando resolver isso. Falei com a Polícia Militar Ambiental, e eles disseram que a gente teria que entregar o animal ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama. Que, aos olhos da lei, não poderíamos manter ele aqui”, diz Costa.

A coordenadora de Fauna do Ibama, Maria Isabel Gomes, confirmou as informações ao G1 e disse que, de fato, o grupo de veterinários está agindo em desconformidade com a lei. Apesar disso, se a entrega do tucano ao órgão for voluntária, não há previsão de punição aos profissionais.

“A lei prevê que encaminhe diretamente ao centro especializado mais próximo. Aqui no DF, é o Cetas, mesmo. O animal teria de ter sido entregue ao Batalhão Ambiental, por exemplo, e no Cetas ele seria reabilitado, tratado, porque a gente tem contratos com clínicas. Se houvesse necessidade de tratamento especializado, de toda forma, o Ibama é quem teria de definir”, afirma ela.

Maria Isabel também discorda sobre a possibilidade de aplicar a eutanásia no animal. Segundo a gestora, o sacrifício não é visto como opção pelo Ibama, e é aplicado apenas em último caso, quando o animal está passando por sofrimento profundo. O caso precisa ser avaliado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, antes que qualquer decisão do tipo seja tomada.

“Se a situação do animal, por mais crítica que seja, não causa sofrimento, a gente opta pelo cativeiro. Em vez de ele ser solto, vai para um cativeiro legal, um zoológico, um criadouro. Muitas vezes, embora ele não possa ser solto, ele pode participar de um programa de reprodução, ou educacional, algum outro”, explica.

A comunicação aos órgãos ambientais é ainda mais importante, segundo ela, nos casos em que a pessoa que encontra o animal não é especialista. O manejo inadequado pode colocar o bicho em risco, agravando o quadro de saúde.

“[O resgate por conta própria] Não é um conduta que o Ibama recomenda, prejudica inclusive a reprodução da espécie. Às vezes um passarinho cai do ninho na casa de alguém e a pessoa leva para dentro de casa, domestica, alimenta com ração. O papagaio, por exemplo, as pessoas costumam alimentar com semente de girassol, que é altamente gordurosa, pode gerar um risco sério à ave”, afirma.

Para quem encontrar algum animal silvestre em estado de sensibilidade, a recomendação do Ibama é clara. O ideal é não tocar no bicho – que pode inclusive se sentir acuado e reagir agressivamente – e acionar o Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar, que são responsáveis pelo resgate e pelo encaminhamento aos órgãos de proteção ambiental.

Por Mateus Rodrigues

Fonte: G1

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.