“Vida” assassinada

Animais de outras espécies que não a humana nascem nas mesmas condições materiais humanas: para viver é preciso que tenham o cordão umbilical, que os liga à placenta da qual recebem os nutrientes durante a gestação, cortado. Sem o corte, essa ruptura que joga o bicho imediatamente na consciência da realidade, o mesmo que a consciência da falta de algo, não há possibilidade de se configurar um indivíduo, seja lá de que espécie animal for. Nesse sentido, ser trazido em gestação até o momento do nascimento é ser condenado à ruptura do canal pelo qual fluem os nutrientes do mundo exterior.

Humanos e animais nascem nessa condição ambígua: para se tornarem indivíduos autônomos precisam deixar de depender de um provimento mágico. A liberdade significa cortes. O primeiro afastamento da mãe, dado pela ruptura ou corte do cordão umbilical, dá ao neonato a primeira experiência real do mundo biológico e material no qual terá que aprender a viver. Embora seja uma experiência dolorosa, quem não passa por ela não chega à vida. Todos os animais nascem, portanto, iguais. E sua condição é igualmente trágica: se querem ser nutridos, não se tornarão indivíduos. Se querem ser indivíduos, precisam aprender a interagir para obter a nutrição sem precisar matar ou destruir quem está na mesma condição.

Morrer, no entanto, ocorre de modo bastante inverso, caso a morte não venha de forma intempestiva pela mão de outrem, num corte abrupto do ritmo do viver ainda pleno de força. Morrer, repito, é deixar de respirar quando já se respirou o bastante para manter a chama da vida plena em todas as células que compõem os tecidos que formam os órgãos dos diversos sistemas que dão a configuração do organismo. A manutenção da vida, para todos os animais, representa uma tarefa que precisa ser assumida individualmente. Todos os animais buscam os meios de manutenção de suas vidas de modo autônomo, exceto os que são forçados ao nascimento no sistema industrial de confinamento completo que supre os mercados da carne, ovos e laticínios (embora muitas vacas sejam mantidas em liberdade restrita, em cercados a céu aberto).

Quando tiramos a liberdade física do animal, à qual Steven Wise denomina autonomia prática, mantemos seu corpo em nosso poder, e eliminamos dele o espírito do qual ele é dotado para prover-se em liberdade. Manter  um animal confinado destrói seu espírito. Prover um animal com rações artificiais, oferecendo-lhe algo com o mesmo sabor, cheiro, consistência e ingredientes “balanceados”, todos os dias de sua vida, implica liquidar com o espírito, a consciência, o conhecimento, as percepções e os conceitos de sua mente que o mantinham vivo. Forçar animais a nascerem em cativeiro é bloquear a entrada do espírito de sua espécie, pois seus progenitores não lhe poderão acompanhar nas experiências primárias que permitem a constituição de sua mente específica e individual.

Os consumidores lidam com a vida animal como se fosse mais um item à venda, embalado de forma apreciável ao palato, no caso dos alimentos de origem animal, ou ao prazer estético, no caso dos animais comprados em pet shops. Os humanos ainda não se deram conta da barbaridade do seu gesto. Comprar um ser vivo, colocá-lo sob o domínio dos próprios caprichos, obrigá-lo a alimentar-se de modo artificial, forçá-lo a hábitos que não favorecem em nada sua higiene específica, tudo isso, embora mantenha intacto o corpo do animal adquirido, destrói seu espírito. Há humanos que só gostam dos animais se estes forem apenas um corpo sem espírito, sem expressão própria, aptos a assimilarem a expressão do tirano que diz cuidar deles.

Quando o animal não corresponde em algum aspecto de sua expressão aos desejos do tirano que dele se assenhoreou, a reação deste é violenta. Os maus-tratos, o desprezo, o desrespeito para com animais que não se submetem à tirania da forma de expressão de quem deles se apossa manifesta-se nas formas mais brutais de violência, incluindo-se atear fogo ao corpo do animal vivo, para puni-lo por não satisfazer aos desejos ególatras de quem o comprou.

Vida, a cadela queimada viva em Palhoça, SC, sofreu a pena de morte mais cruel que um humano pode impor a outro animal, seja de sua espécie, seja de qualquer outra: ser queimada viva. A morte não ocorreu de imediato. Sua agonia estendeu-se por dias, até que a vitalidade dos tecidos que mantiveram seus órgãos e organismo funcionando ao longo de sua vida esvaiu-se, em decorrência das chamas que consumiram sua carne viva, transformando-a num churrasco de chagas abertas.

Vivemos numa época em que fazer churrasco e deliciar-se com ele é tido como tão natural quanto sorver um gole de água. Há uma diferença: o apreciado churrasco é feito com restos cortados do corpo de um animal previamente assassinado, via de regra por outra pessoa e de forma institucionalizada, para tal fim.

De tanto banalizar a vida animal, forjando gestações e forçando a nascer seres que não são desejados em nossa companhia aqui no planeta, muitos humanos estão perdendo o senso do valor da vida. A cada feriadão são empilhados cadáveres nas nossas rodovias, enquanto em quase todos os lares cadáveres de animais de outras espécies são assados para se comemorar alguma coisa, por mais trivial ou corriqueira que seja. Animais são assassinados aos milhões para que humanos supernutridos se encham ainda mais de proteína inútil e prejudicial. O descaso pela vida dos animais de outras espécies, a liberdade de usá-los como se fossem objetos descartáveis, e a indiferença pelo sofrimento deles está tirando dos humanos o senso do respeito pela vida alheia.

Quando alguém ateia fogo ao corpo de um animal morto, esse gesto nem sempre dá ao agente a real noção do que ele está fazendo, porque a parte mais cruel do evento foi realizada por outra pessoa na área de sangria dos matadouros industriais. Mas, quando alguém ateia fogo ao corpo de um animal vivo não tem desculpa para o seu ato, porque está ali presente em toda a sequência dele. No entanto, por mais absurdo que pareça, o gesto desse indivíduo apenas traduz o estado espiritual que viceja em nossa moral: descaso absoluto pela dor e pela morte de um ser indefeso. O gesto do cidadão palhocense reflete a cultura contemporânea de banalização da carne alheia, e essa cultura não vige apenas na cidade de Palhoça, mas ao redor do planeta. O fogo ateado, para o churrasco e para o prazer vil de contemplar um animal em agonia e desespero, nada mais representa do que a expressão de uma moralidade que se alimenta da matança dos corpos indefesos dos animais que foram forçados ao nascimento em confinamento, e vendidos para serem destruídos e cortados em pedaços buscados pelos consumidores nas gôndolas dos açougues onde quer que estejam instalados.

Se não damos a menor importância à dor e à morte de animais de outras espécies é porque nenhuma importância damos à dor e à morte dos da nossa própria espécie. Cada um só chora e lastima a morte de alguém querido. Mas somos algo em torno de 7 bilhões de humanos e de quatro vezes mais animais criados para o abate. Não podemos ter por toda essa gente o mesmo afeto que nutrimos pelos que nos são íntimos. No entanto, para que vivamos e o façamos bem, esses 7 bilhões de humanos que não chamamos de “queridos” estão respeitando o dever de não nos violentar, não nos matar, não nos expropriar, e de deixar que busquemos nosso bem a nosso próprio modo, por isso ainda estamos vivos. Isso basta.

Não precisamos achar que só merece viver quem julgamos ser “querido” por nós. Não somos “queridos” de muita gente, e, no entanto, queremos muito viver, de preferência bem longe de quem não gosta nada que vivamos. O mesmo se aplica aos animais. Eles não são nossos queridos. Apenas alguns deles são eleitos por nós para terem o privilégio de receberem nosso amor. O que acontece é que, caso nosso amor não seja bem compreendido pelo animal que escolhemos amar, passamos a maltratá-lo, a desqualificá-lo, a culpá-lo por nossas mazelas e mágoas. Daí para a crueldade que o dilacera vivo é somente um passo. Não há diferença alguma entre o que os humanos fazem a outros humanos, e o que alguns humanos fazem a alguns animais. Cada gesto retrata a moralidade do seu tempo. E os gestos mais brutos apenas nos alertam para a necessidade urgente de revermos nosso modo “humano” de amar aqueles que nascem na condição animal.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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