Vídeo expõe ‘condições deploráveis’ de animais em fazenda da Nestlé na França

Vídeo expõe ‘condições deploráveis’ de animais em fazenda da Nestlé na França
Foto: L214

A petição que pede à Nestlé e Casa Tarradellas, co-proprietários da marca Herta, que se cesse o confinamento vitalício de porcos, a criação em betão, as mutilações dolorosas em leitões e as gaiolas individuais para porcas, recolheu mais de 45.000 assinaturas em 24 horas.

A Herta está a ser processada por ativistas, em França, devido a maus tratos a animais e publicidade enganosa, depois de uma investigação levada a cabo por uma associação sem fins lucrativos francesa defensora dos direitos dos animais. A L214 divulgou recentemente imagens das “condições deploráveis” de suínos numa “quinta modelo” da marca Herta, na comuna de Limoise, no Allier. 

Em comunicado de imprensa, a L214 escreve que “ao contrário dos compromissos assumidos pela marca” detida em 60% pela empresa alimentar espanhola Casa Tarradellas e em 40% pela Nestlé, “as imagens mostram condições deploráveis para os suínos que não cumprem os requisitos regulamentares. A organização apresentou mesmo uma queixa por maus tratos dos animais contra a Herta, a marca mais comprada em França, e por induzir em erro o consumidor”.

A marca de salsichas frankfurter pré-cozidas mais consumida pelos franceses a e a mais popular em toda a Europa, criou o próprio setor de carne de porco em 2013. Com este setor, a Herta comprometia-se a uma “criação moderna e mais responsável”, pode ler-se no wesbite. E assegurava mesmo um “processo que respeita mais o ambiente e o bem-estar animal”, lê-se. 

Os vídeos, alegadamente filmados em junho e setembro deste ano, indiciam situações de canibalismo de porcos, animais mortos deitados em jaulas, e porcos em jaulas sobrelotadas a trepar uns sobre os outros. Numa secção, uma porca que parece estar a lutar para ficar de pé numa caixa estreita de parição sem cama, escorrega e esborracha pelo menos um leitão. 

Há ainda a referência à utilização de “todo um arsenal de medicamentos, incluindo antibióticos que estão desatualizados há 10 anos”, denuncia a organização. Entre eles está a colistina, um antibiótico classificado como crítico de alta prioridade pela Organização Mundial de Saúde (OMS).  

Segundo a associação, os suínos têm as caudas atracadas, uma prática proibida na UE, e permitida apenas em circunstâncias excecionais. Há ainda referência à falta de palha ou outro tipo de cama para os animais e os currais não parecem ter qualquer luz natural. Nas “maternidades”, a associação denuncia que as porcas dão à luz a leitões em linha, fechados em jaulas pouco maiores do que os seus corpos. Os animais parecem estar cobertos de fezes e o espaço é tão apertado que os animais mal se conseguem levantar. Nestas condições, pode ver-se nos vídeos que as mães acabam por esmagar crias ao tentarem mexer-se. 

“Os leitões nascem num ambiente de metal, plástico e betão. Assim que dão os seus primeiros passos, ficam com os pés presos nas fendas do chão metálico. Sem os cuidados e atenção da mãe, que está totalmente bloqueada, muitos leitões morrem à nascença”, lê-se.  Algo que vai contra os regulamentos em vigor desde 2013, que exigem que todos os suínos tenham sempre materiais disponíveis para “investigação e manuseamento”, tais como palha, feno, serradura, etc.

“Vê-se nas imagens que o agricultor apanha dezenas de leitões mortos, e mata leitões considerados demasiado fracos ao esmagar os seus crânios. Os porcos de engorda são empilhados uns em cima dos outros. Sujos, arranhados, algumas têm hérnias do tamanho de uma bola de futebol”, lê-se em comunicado.  

“Nestas condições de extrema promiscuidade, a agressão entre animais é frequente”, descreve a organização. A L214 denuncia ainda que antes de partirem para abate, os porcos são “armazenados” numa doca durante mais de 19 horas sem comida e sem ter espaço para se deitarem todos ao mesmo tempo. “O carregamento é feito com varas elétricas”, lê-se.

Petição com mais de 45.000 assinaturas em 24 horas

Além do processo legal que já deu início, a L214 lançou uma petição dirigida à Herta para pedir à Nestlé e à Casa Tarradellas, proprietários da marca, que se comprometam a proibir as piores práticas, como a Hénaff se comprometeu a fazer em 2019. “Pede-se que cesse o confinamento vitalício de porcos, a criação em betão, as mutilações dolorosas em leitões e as gaiolas individuais para porcas”. O documento recolheu mais de 45.000 assinaturas em 24 horas.

Na sequência desta denúncia, a cadeia de supermercados britânica Waitrose, retiraram os produtos suínos da marca das suas prateleiras em 355 lojas distribuídas por todo Reino Unido. 

Segundo uma sondagem da YouGov de 2017 para a L214, 89% dos franceses são desfavoráveis à criação de porcos num chão de betão sem palha, e 87% desfavoráveis à criação de porcos em edifícios fechados sem acesso ao exterior. De acordo com o mesmo inquérito, 85% dos franceses são também contra as mutilações praticadas em suínos, como o corte da cauda e a castração para os machos, entre outras. 

A Casa Tarradellas é uma empresa familiar fundada em 1976 e é uma das principais empresas alimentares espanholas. A Nestlé é uma multinacional suíça, a principal empresa alimentar do mundo. 

Por Ana B. Carvalho 

Fonte: Contacto / mantida a grafia lusitana original 


Nota do Olhar Animal: A violência do criador de animais para a produção de porcos revelada nesta matéria é terrível e inaceitável, mas é apenas um AGRAVANTE em relação ao dano maior, naturalizado pela indústria “da morte” e aceito por muitas pessoas, que é o ABATE. O sofrimento imposto cotidianamente aos animais nas “linhas de produção” de carne ou fruto de negligência não é menos repulsivo e imoral do que a violação do principal interesse dos animais, que é o interesse em viver. A produção não tem que dar melhores condições aos animais à espera da morte. Ela deve, sim, ser banida. O paladar dos humanos não é mais importante que a vida dos animais.

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.