Na chácara onde Jaciel Dias mora, 134 cães aguardam para serem adotados: mais de 40 resgatados só durante a pandemia (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Voluntários dão exemplo de amor aos animais ao resgatar ‘pets’ abandonados

Eles são carinhosos, fiéis e amigos para todas as horas. Apesar de a amizade entre pessoas e animais transcender séculos, ela está abalada pela crise do coronavírus. Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmar que não há provas de que os pets possam transmitir a Covid-19, muita gente está abandonando cães e gatos nas ruas do Distrito Federal. O resgate feito por voluntários torna-se, então, a chance de sobrevivência.

A consequência desse abandono é uma superlotação em abrigos e associações que acolhem esses animais. Com a proibição de feiras de adoção, devido aos protocolos de isolamento social, os pets não conseguem encontrar um novo lar, e, por isso, precisam ficar na casa dos voluntários, única maneira de não voltarem para a rua. No DF, uma das associações que faz esse trabalho é o Projeto Acalanto.

Desde 2012, Lucimar Aparecida Pereira, 46 anos, presidente do projeto, luta para salvar animais. A rotina dela é dividida entre o trabalho como assistente administrativa e a atenção dada aos 42 gatos e três cães que moram com ela. “Não é profissão, a gente faz por compaixão, por não aceitar a condição a que eles são submetidos, mas o protetor independente precisa de ajuda”, ressalta. “Com a Covid-19 (o abandono) piorou muito. Está insuportável.”

Lucimar perdeu as contas de quantos animais ajudou a salvar, mas estima que seja por volta de 200. Depois de tratados por veterinários, e quando estão tranquilos, podem ser adotados. “No ano passado, fechamos mais de 1,1 mil adoções apenas em eventos. Tínhamos feira todo fim de semana, e eram eventos em que ganhávamos ração. Essa também é uma forma de ajudar.” Agora, no entanto, além da dificuldade em encontrar lar para os pets, está mais difícil conseguir alimentar todos.

Cerca de 40 pessoas fazem parte da instituição e estão se virando como podem para conseguir cuidar de todos os bichos. “Já peguei cachorro queimado, esfaqueado, baleado, com a pata cortada. Salvei gato sem olho. Nós precisamos de ração, produtos médicos e veterinários”, pede. “Somos lares temporários, a gente quer que eles sejam adotados para terem uma família de verdade. É o nosso maior objetivo.”

Proteção e amor

Enquanto uns se desfazem dos companheiros de quatro patas, outros abrem as portas e dedicam a vida à proteção animal. Na chácara onde mora o ativista Jaciel Dias, 27, 134 cães aguardam para ser adotados. Desde o início da crise do coronavírus, ele resgatou mais de 40. “O pessoal não liga para adotar, mas para entregar. O protetor ama, não pode ver um animal em situação de rua e largar para trás. Por mais que nós estejamos apertados, recebemos.”

Todos os dias, ele atende a ligações de quem está preocupado e não quer mais o animal de estimação. “Certa vez, uma senhora já de idade me ligou em situação desesperadora dizendo que o filho dela ia soltar as duas cadelas na rua porque tinha medo de pegar a Covid-19, e que fontes seguras tinham dado essa informação a ele”, lamenta. “Com as fake news, aumentou muito o abandono.”

Por dia, são necessários 50kg de ração para alimentar a bicharada. O dinheiro para a comida sai do próprio bolso ou de doações que consegue. Para Jaciel, o mais triste é saber que muitos daqueles cães talvez nunca encontrem uma família. “A procura maior é pelos de pequeno porte. Nesta quarentena, doei cinco, mas a maioria dos que chegam é grande, e alguns estão idosos.” Apesar das dificuldades, ele não se arrepende do esforço. “Minha vida se resume aos animais, vivo em prol deles.”

Não replicantes

O centro de Zoonoses do DF, órgão da Secretaria de Saúde, reafirma o que diz a OMS. Em nota oficial, o órgão informou que atua em medidas preventivas e profiláticas para situações de vínculo epidemiológico, como vacinação contra a raiva. “A pasta esclarece, ainda, que a recomendação é que os tutores cuidem bem dos seus animais, e, até o momento, não há indicador de transmissão (do coronavírus) entre eles.”

O médico veterinário Paulo Tabanez, especialista em infectologia de pequenos animais, explica que o pet pode ser um vetor mecânico, isto é, caso uma pessoa contaminada tussa ou espirre sobre um cachorro e, em seguida, o animal seja abraçado por alguém, essa pessoa pode ser infectada pelo vírus que ficou na superfície do cão. “Em todos os casos já vistos de bichos onde o vírus foi detectado, não houve isolamento viral, ou seja, o animal não é replicante da doença.”

Ele lembra que existem tipos de coronavírus em cães e gatos, mas não são os mesmos vistos agora, responsáveis pela Covid-19. “Animais têm coronavirose de outra espécie, uma que não passa para o ser humano, e que não tem nada a ver com o que está acontecendo. Por isso, não faz sentido usar a vacina tratada em cães.” Paulo lembra que é importante manter a higienização dos pets, mas jamais usar álcool. “Pode causar dermatite, assim como o uso excessivo de água e sabão. A higienização deve ser feita com lenços umedecidos ou panos úmidos”, aconselha.

Fonte: Correio Braziliense

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