Vulneráveis e resilientes: nós, animais-mulheres

Por Sônia T. Felipe

Se não fizermos o que determinamos a nós mesmas fazer, ninguém o fará por nós. E se não tomarmos decisões sobre o que devemos ou não fazer, do que ler, comer ao que vestir (vejam os dois artigos anteriores, sobre a ditadura e sobre a pesquisa do IPEA e o estupro…), alguém terá então o poder para decidir tudo por nós.

E quando alguém depende do que fizermos para ter a libertação final da dominação que representamos sobre suas vidas (animais humanos e não-humanos em condições vulneráveis), nossa responsabilidade dobra ou triplica, porque na vulnerabilidade somos mesmo todas as criaturas animais, iguais.

Se tirar a baioneta de cintura de um homem e o deitar na mesa da tortura ele sentirá a dor insuportável, tanto quanto a sentiram as mulheres e os outros homens que ele antes pegou, aprisionou, estuprou, torturou… e matou. Nossa natureza animal não nos deixa ilusões.

Tudo o que fazemos é lutar todo o tempo para não sentir dor, física ou emocional, não cair nas malhas da dominação que nos tira a liberdade de expressão, não nos atrelarmos a relações de dominação machista que nos atormenta, não colocarmos nossa vida ou nossa integridade física em risco. Essa é a natureza animal. Desde sempre, sempre fomos iguais.

As diferenças, de poder usar armas, por exemplo, sejam elas danosas ou sutis, para obtermos o que precisamos, não devem contar para mais quando nos comparamos aos outros animais. No cercado, seja física ou emocionalmente, todos sentimos a friagem das limitações que nos impõem e que nos deixam sem movimento. Isso é a ditadura. Tudo o que nos paralisa é de uma dureza tal que nos derrota.

E os animais, hoje, estão submetidos ao imperialismo e ao escravismo que sustenta há milênios o poder fálico que impõe suas regras e constrói seus cercados para impedir que outras formas de interação entre seres sencientes sejam referência da estatura humana. As mulheres estão nessa malha. Não devem se considerar inatingíveis. Somos vulneráveis. Mas, resilientes. Uma combinação que atormenta os machistas de plantão em nossas vidas pessoais e institucionais. Quando tentam nos derrotar, abalando nossa estrutura afetiva, zombando de nossa estrutura afetiva ou sexual, fazemos um volteio e retornamos como a fênix, das cinzas cinzentas, de volta para a luz.

Agora, um pouco de história dessa resiliência (essa parte do texto a dedico à Maria Alice, estudante de filosofia que acompanha o que escrevo pelo FB), um relato de experiência de como a gente se torna resiliente à maldade sem se deixar contaminar ou corromper por ela … rs.

Quando voltei do doutoramento na Alemanha, ofereci o primeiro curso de extensão no Brasil, dentro de uma universidade, para tratar do preconceito dos humanos contra os animais não-humanos, do especismo. Era um curso de extensão, porque eu não tinha como tratar da filosofia e da ética animalista dentro do quadro de matérias então abordadas na graduação em Filosofia da UFSC. Isso consegui mais tarde, propondo novas disciplinas que foram acatadas pelo colegiado, nas quais então pude tratar da ética prática de Peter Singer e depois de Tom Regan, Gary Francione, Richard Ryder e Humphry Primatt. Bem, volto ao relato.

Para aquele curso sobre o especismo tive apenas dois inscritos, isso em maio de 1992. Um deles era o bolsista que escrevia seu trabalho de TCC sob minha orientação e o segundo inscrito não era um bolsista sob minha orientação. Cancelei o curso por falta de ressonância ética …rs. Mas isso não me abalou, porque o segundo curso que ofereci junto com esse, sobre a Teoria da Justiça de Rawls, introduzindo também no Brasil esse autor, teve 44 inscritos, a maioria não da Filosofia mas do Direito.

O cartaz do curso sobre o Especismo estava lá na parede interna no patamar da escada que levava para o Departamento de Filosofia da UFSC, junto com o cartaz do segundo curso, sobre a Teoria da Justiça de Rawls. E eu lá, conversando com um estudante, quando passa uma colega por mim e diz: então, doutorou-se em alemão para fazer filosofia para “minhocas”?

De 1992, quando minha forma de fazer filosofia crítica era “para minhocas”, até 2014, portanto, passados 22 anos de trabalho incansável, milhares de pessoas reconhecem hoje, no Brasil, que tratar da questão dos animais sob a perspectiva ética crítica não é fazer filosofia apenas para minhocas.

Mas, se eu sucumbisse à mágoa e me deixasse derrotar pela frase aniquiladora dessa colega e pelo ínfimo número de inscritos para o curso sobre o Especismo, os animais estariam ainda no porão escuro e trancado da ditadura à qual os condenamos há milênios. Eles ainda não estão livres, é verdade. Vinte e dois anos são pouco para tirar da escravidão animais que sucumbem a ela há milênios.

A libertação dos animais implica em libertar os humanos do atavismo de uma dieta animalizada, da diversão animalizada, da experimentação animalizada e da moda e cosmética animalizada. Cada uma dessas libertações pode ser considerada um dos Doze Trabalhos de Hércules, para não dizer, de Sísifo.

É certo, assim o reconhecemos, que os animais ainda estão no porão da ditadura humana que os tornou objetos de propriedade. Mas o porão agora está escancarado e iluminado. Ninguém mais pode alegar, como o fizeram os alemães ao final da guerra, em relação aos campos de concentração e extermínio de 12 milhões de humanos (judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e opositores ao regime nacional socialista conhecido como nazismo) que “não sabem” o que fazemos aos animais. Trabalho de filósofas que fazem bem a filosofia para minhocas. É isso. Começar do mais rasteiro, elevar-se ao mais alto dos céus. Todos os animais são iguais e merecem o trabalho ético de reflexão sobre o não direito humano de aprisiona-los, explorá-los e matá-los. Não importa o interesse humano em jogo.


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