Zoofilia ou zoorastia?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe 

Segundo noticiou a ANDA, em 19/04/2014, a Suécia acaba de aprovar a lei tornando o assalto sexual a animais (estupro) crime naquele país. Finalmente, essa prática agora é vista com a mesma noção com a qual já vemos o assalto sexual a mulheres, crianças, adolescentes, adultos e idosos da espécie humana: crime! É absolutamente lastimável ainda termos homens entendendo que o corpo dos outros que não o amam nem o desejam está disponível para penetração, pelo simples fato de estarem ali na sua presença em condições vulneráveis a tal assalto, sem poderem se defender dele.

Também é lamentável que o termo usado na mídia e no meio político para designar essa predileção de alguns homens seja equivocado: zoofilia. Do grego zôion derivou em português zoo, que se refere a “animal”. Filía, em grego, designa afeição, apego, amor. Zoófilo deveria ser um termo usado para indicar alguém com afeição pelos animais, nunca para designar os estupradores de animais, por mais que eles afirmem que fazem isso por amar aquele animal. Os homens que têm sua libido fixada em crianças também afirmam amá-las. Mas o seu amor é violento, não apenas no sentido físico, pela desproporção que há entre o corpo do homem e o da criança, mas porque a sexualidade, na criança erotizada, não está genitalizada, não se afina ainda com o padrão da sexualidade do adulto que a usa para se locupletar. Por isso mesmo, o assalto sexual é um ato não concebido pela mente da criança quando se aproxima do estuprador, pois esse ato não faz parte de suas necessidades físicas, fisiológicas e emocionais.

Em vez de usar o termo zoofilia para designar a prática do assalto sexual contra animais, na linguagem jurídica o mais apropriado para designar o crime  teria sido usar a palavra zooparafilía, quer dizer, um tipo de amor descontextualizado em todo sentido, obtido com subterfúgios semelhantes aos usados para se chegar à intimidade do corpo de uma criança: algo é oferecido como isca. A criança e o animal, seduzidos pela “isca”, acabam ficando à mercê da proximidade que permite a abordagem genital invasiva e violenta. Não há igualdade nem reciprocidade nessa forma de “amar”. Há apenas uma forma distorcida do amor, uma forma parafílica do amor. Mas, erroneamente, a chamaram de pedofilia, que do grego significa amor por crianças.

Desde a Idade Média, quando a Igreja Católica criminalizava o assalto sexual a animais, condenando o homem e o animal à mesma pena de morte, por exemplo, ao enforcamento, o termo para uso de animais com finalidade sexual é bestialismo e não zoofilia.

No século XIX, influenciados por um dos verbetes da Enciclopédia da Igreja Católica que condenava o amor dos humanos por animais não-humanos, os jornalistas e formadores de opinião começaram a usar a palavra zoófilo para designar os amantes e protetores dos animais. Depois, quando se começou a noticiar a prática do estupro de animais, o termo zoofilia foi usado, indevida e levianamente, pela imprensa, pelos políticos e por toda gente, um modo de ridicularizar quem tem amor pelos animais, deixando sempre a ambígua noção de que zoofilia é zooparafilia. E não é. Isso tem consequências bem nefastas para quem defende os direitos dos animais.

Quando se usa o termo zoofilia para denominar a prática de usar os animais para satisfação sexual própria, que deveria ser designada zooparafilia, queima-se um termo positivo, que significa afeição e amor pelos animais. Agora, com essa palavra na cabeça de quase todo mundo, fica a suspeita de que há algo de errado no amor que as pessoas têm pelos animais, porque filia é amor e zoo é animal. Portanto, amar os animais fica parecendo uma anomalia como a própria Igreja Católica entendeu isso e chegou a condenar em sua Enciclopédia editada em 1948 [ver FELIPE. Sônia T. Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas, p. 236], condenando o amor dos humanos por animais de outras espécies. Tudo ficou confuso, como se tudo fosse depravado. E isso não procede.

Também seria correto usar a palavra zoorastia (que acho mais apropriada) para designar sexo de humanos feito nos animais, e zoorasta para designar o humano que faz isso, assim como se usa o termo pederastia, que também vem do grego, paidarastía para designar o contato sexual de um homem mais velho com um jovem, e não pedofilia, usado ao redor do mundo para denominar a prática do assalto sexual a crianças, quando o sentido original do termo pedofilia é amor por crianças. Nenhuma prática sexual que violenta deveria ser confundida com amor, portanto, o termo filía, do qual deriva nosso filo em português não está aplicado corretamente. A objetificação sexual de humanos e de outros animais não é amor por eles, é hostilidade por sua sexualidade, é ódio à sexualidade que não presta serviços aos violentadores. Elas são formas distorcidas, portanto, parafílicas de apego ao outro.

Mesmo o poder legislativo usa as palavras zoofilia e zoófilo distorcendo seu sentido. Com isso, a lei que deveria coibir esse tipo de perversão cria uma perversão linguística e, com isso, cria a ambiguidade na cabeça de todo mundo, que acaba entendendo que “amar os animais” no sentido de fazer sexo no corpo deles, ou “amar as crianças” e também usar seu corpo para efetivar uma penetração forçada sejam formas do “amor”. Não são. São formas assaltantes e distorcidas de apego ao corpo do outro e mais especificamente apego ao uso de sua genitália. O amor está para o ser inteiro, não se limita a funcionar no cercadinho genital. Mas os zoorastas e pederastas pensam que sua limitação é o limite da sexualidade alheia.

Para a notícia sobre a aprovação da lei que criminaliza a zoofilia na Suécia, ver:

http://www.anda.jor.br/19/04/2014/zoofilia-torna-oficialmente-ilegal-suecia 


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