Zoológico de Luján, frequentado por turistas brasileiros e que dopava animais, é fechado na Argentina

Zoológico de Luján, frequentado por turistas brasileiros e que dopava animais, é fechado na Argentina
Fornecido por Clarín zoologico de lujan leon leones zoologico de lujan leon leones zoologico de lujan leon leones lujan zoologico de lujan leon leones zoologico de lujan leon leones - sergio goya

“O zoológico permite aos visitantes intergir (sic) com os animais. Você será capaz de (sic) acariciar a juba de um leão, segurar o jovem dos tigres ou alimentar os ursos com sua própria mão. Os cuidadores experientes supervisionarão cada uma das áreas da exposição e darão instruções sobre como interagir com os animais. Você poderá se aproximar livremente dos animais, acariciá-los e tirar fotos com eles”, diz o texto de uma operadora de turismo que vende pacotes a brasileiros para o zoológico, que fica a 58 km da capital argentina. O anúncio ainda está no ar, embora o Zoológico de Luján esteja fechado por conta da pandemia do novo coronavírus.

O que turistas consideravam uma experiência única, tocar em animais selvagens, alguns ativistas viam com preocupação. Há anos o zoológico já estava na mira do governo, de algumas ONGs e especialistas. Enquanto a administração do zoológico resistia e alegava que a proximidade com os animais era possível porque eles nasciam no local, ou eram resgatados de condições insalubres, e eram criados entre animais domésticos e humanos, defensores de direitos dos animais desconfiavam de maus-tratos e de sedação dos animais, além de tráfico de animais.

O estabelecimento permitia o contato direto entre visitantes e animais, como leões e onças. Clarin.com

O assunto sempre dividiu opiniões dentro e fora da Argentina. E na tarde desta segunda-feira (14), o governo argentino decidiu fechar o zoológico de Luján, conhecida atração turística entre os brasileiros, depois de anos de controvérsia. Autoridades deram o prazo de dez dias para que o zoológico se adeque às novas regras e se transforme em um zoológico “tradicional”, sem contato entre animais e visitantes.

A entrada para estrangeiros custava cerca de R$100, dinheiro que, segundo os administradores, era usado para o cuidado e a alimentação dos animais.

Controvérsia e conservação

O zoológico era uma ferramenta de “educação ambiental”, diz bióloga brasileira. © clarin.com

 No site de avaliação de turismo Tripadvisor, usado mundialmente como referência por viajantes, a atração recebe quatro dos cinco pontos máximos de avaliação do site. São mais de 5 mil comentários. A maioria das avaliações está em português e vem de brasileiros. Mais de 3 mil delas consideravam o zoológico excelente ou muito bom. São relatos como o deste turista de Goiânia: “Minha esposa e eu estivemos lá em junho de 2019. Cá entre nós, quem nunca quis alimentar e estar lado a lado dos maiores felinos da Terra? Sempre estive muito curioso também sobre os boatos sombrios que cercam o zoológico. Bom, por um momento pude pensar que talvez esses boatos fossem verdadeiros, dado a estrutura física do zoo. Mas isso logo passou. Os animais parecem muito bem tratados e não percebi também sonolência, como se estivessem dopados ou algo do tipo. A experiência é fantástica! Já a estrutura física do zoo deixa a desejar”, conta.

“Conhecer para entender”   ​  

A administração do zoológico, que tem dez dias para fazer a transição para um zoológico tradicional, se diz vítima de perseguição governamental. © clarin.com​​

Para a bióloga e educadora ambiental Mel Pavie, brasileira que visitou o zoológico em diversas ocasiões, ele é não só uma atração turística, mas também uma espécie de santuário para os animais, além de servir, segundo ela, como ferramenta de educação ambiental. “É uma chance das pessoas, crianças e adultos, conhecerem de perto os animais, do que se alimentam, como vivem, se são diurnos ou noturnos de acordo com seu habitat, sua pelagem, dentição, por exemplo. Os educadores vão mostrando e as pessoas têm a chance vivenciar, mesmo que por pouco tempo”, explica. “O cachorro não late, o gato não mia? As pessoas precisam conhecer o que estudaram apenas nos livros”, diz. “Querendo ou não, em um chamado ‘zoológico tradicional’ os animais ficam mais isolados”, lamenta a bióloga. “Quando conhecemos algo, criamos um vínculo e apreço. É justamente ai que entra o zoológico no papel educativo”, ressalta.

O Zoológico de Luján era uma das atrações turísticas mais procuradas por brasileiros em Buenos Aires.© clarin.com

 Ela lembra que teve a oportunidade de visitar o zoológico com o dono, Jorge Alberto, e que ele lhe mostrou uma pantera resgatada, segundo ele, de um zoológico falido. “Ela estava cega. Um dos olhos tinha catarata, o outro pode ter sido cegado de propósito para que ficasse mais dócil. Por isso, ela ficava no canto dela, com o Jorge, recebendo cuidados”, recorda.

Governo diz que zoológico “não se adequou”

O zoológico “explorava os animais” diz governo. © clarin.com

​A administração do zoológico, que tem dez dias para fazer a transição para um zoológico tradicional, se diz vítima de perseguição governamental. Segundo a direção do lugar, algumas autoridades teriam rixas com os administradores e teriam pedido uma propina de US$ 300 mil, mas não apresentaram provas, segundo reportou o jornal Clarín.

“Nós os encorajamos a enviar um plano de conversão e um inventário de todos os animais. Ninguém sabe especificamente o que está acontecendo aqui. O zoológico não respondeu a nenhuma das denúncias que enviamos”, explicou o secretário de Controle e Acompanhamento Ambiental da Nação, Sergio Federovisky, aos jornalistas que cobriam o fechamento do local.

Ele disse também que o zoológico “explorava os animais”, criando confusão, e trocou acusações em frente ao local, como mostraram imagens de canais de televisão argentinos. “O zoológico que não responde às normas vigentes, nem à ética que a própria sociedade exige, queremos que se transforme e não continue a explorar a pior faceta da exposição e do contato com os animais”, destacou.

Se o Zoo de Luján for fechado definitivamente, seria o segundo zoológico que encerra suas atividades na zona da capital argentina nos últimos anos. O zoológico que ficava no bairro de Palermo, na capital, foi fechado em 2016, pois a empresa que o administrava, concessão dada pelo governo da cidade, falhou em oferecer um ambiente propício aos animais. Muitos morreram e outro estavam desnutridos quando o zoológico foi transformado em Ecoparque em 2016. Um dos elefantes mais célebres, Mara, foi levado para um santuário no Brasil.

A entrada para estrangeiros custava cerca de R$100, dinheiro que, segundo os administradores, era usado para o cuidado e a alimentação dos animais. Clarin.com

A confusão no momento do fechamento do zoológico de Luján, um funcionário disse se preocupar com o destino dos animais e dos outros funcionários. “Quem vai cuidar dos 300 animais que temos? Este zoológico é particular, não pedimos nada a ninguém, só pedimos que nos deixem trabalhar”, lamentou.

Já o governo aponta diversas denúncias feitas por vizinhos e ex-funcionários do zoológico e o descumprimento da lei argentina que proíbe o contato entre pessoas e a fauna selvagem.

Fonte: MSN

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.