Zoológico na Argentina não terá mais animais exóticos

Zoológico na Argentina não terá mais animais exóticos

Por Laura Rocha / Tradução de Marli Vaz de Lima

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O Zoológico de Buenos Aires não será mais o mesmo. Em médio prazo, a famosa orangotango Sandra, a quem a justiça concedeu um habeas corpus, e a elefanta Mara, que por anos viveu no circo Rodas, serão transferidas para centros de preservação em maior conformidade com a região que haviam habitado originalmente.

Esta duas medidas são parte da proposta iniciada no zoológico para que este se converta em um centro de preservação, pesquisa e educação. Já não serão mais recebidos animais exóticos e serão avaliados em toda sua coleção, de cerca de 2000 espécies, que outros animais podem ser transferidos.

Essas mudanças serão anunciadas hoje (29.04.2015), quando se celebra o Dia dos Animais, pela Comissão Técnica Ambiental para a transformação do Jardim Zoológico Eduardo Ladislao Holmberg, a fim de que ele seja considerado um símbolo da cidade verde e um novo centro para a conservação da biodiversidade e educação ambiental.

“O grande desafio é fazer com que o espaço continue sendo atraente. Hoje, 3,5 milhões de pessoas visitam o local a cada ano. É um grande centro de atração e pretende-se que tenha uma conexão com os espaços verdes que o rodeiam”, disse Juan Carlos Villalonga, presidente da Agência de Proteção Ambiental de Buenos Aires (APRA) e integrante da comissão reformadora.

Dentro do plano de reforma também está incluso um fundo anual de 1,3 milhões de pesos (cerca de R$ 440.000) para projetos de conservação da fauna dentro ou fora do zoológico, inclusive em outras partes do país.

“A ideia é transformar verdadeiramente o jardim zoológico. Ele será um promotor ativo de preservação no país. E impor a ideia de que ele não é mais um lugar de confinamento”, disse Villalonga.

O Zoológico de Buenos Aires é administrado hoje por uma concessão liderada pela empresa Jardín Zoológica, muito questionada. Esta paga mensalmente uma taxa de 1,5 milhões de pesos (aproximadamente R$ 510.000). Segundo disse o governo portenho, o fundo para os projetos de preservação sairá desse recolhimento.

O contrato desta empresa termina em 2017, mas a futura administração ainda é uma incógnita. “As mudanças nos zoológicos do mundo foram graduais e estamos analisando se é melhor que seja administrado por uma fundação, como o jardim zoológico de Nova York”, disse o chefe da APRA.

Malala Fontan, uma ativista pelos direitos dos animais, conhece o projeto e, ainda que apoie a iniciativa, acredita ser necessário definir um plano concreto “aparentemente eles tem muito boas intenções, mas nunca as formalizaram. Não tem um projeto de conversão, não puderam definir se é público ou privado, nem se haverá exposição de animais em cativeiro”.

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Fontan, juntamente com outros vizinhos, apresentou na Assembleia Legislativa um projeto para transformar definitivamente o Zoológico. Propõe a realocação de animais e, aqueles que não podem ser removidos, não serão exibidos ao público. “Nós não queremos que as mais de 400 pessoas que trabalham no zoológico percam o emprego. Queremos que se converta em um centro de recuperação de animais selvagens resgatados”, disse ela.

Andrés Gil Dominguez é o representante legal da orangotango Sandra e avalia com um grupo de especialistas em primatas quais podem ser as melhores opções para a transferência da macaca. “Há uma situação que não se pode manter que é a do zoológico, porque é a pior situação para Sandra, já que o cativeiro implica a violação dos direitos de Sandra.”

Mas a transferência dos animais não é fácil. Por exemplo, Sandra poderia viver em um santuário na Flórida, EUA, mas deveria ser submetida a um tratamento de quimioterapia exigido pelas autoridades de saúde do país e isso poderia pôr em risco sua vida. A elefanta Mara seria recebida sem problemas no Cambodia Wildlife Sanctuary (Santuário da Vida Selvagem de Camboja). No Camboja, não há exigências sanitárias, mas para concretizar a transferência é necessário que o circo Rodas, que é seu proprietário, ceda Mara à cidade.

Claudio Bertonati é biólogo e especialista em preservação. Passou um tempo no Zoológico de Buenos Aires e renunciou depois de denunciar a má gestão. “Fico feliz que tenham a vontade de transformá-lo. Não existe escolha: ou o transformam ou o fecham.”

No entanto, ele foi cauteloso na avaliação do programa de conversão: “Para transformar o zoológico em um grande centro de educação ambiental deve-se alinhar muitos esforços e o panorama é muito complexo. As pessoas valiosas e comprometidas com esses objetivos não estão muito dispostas a se exporem na situação atual”, disse ele.

“Aquele que ficar com o zoológico estará herdando uma situação de profundo declínio em todos os pontos de vista: conceitual, falta de clareza sobre o que fazer; herdará uma grande quantidade de pessoal que não está em condições de acompanhar este processo; há pessoas valiosas, mas é uma minoria muito pequena”, acrescentou.

Na APRA indicaram que há uma real intenção de gerar a mudança. Eles inclusive supõem que poderiam unir fisicamente o Jardim Zoológico e o Jardim Botânico no futuro.

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Fonte: parabuenosaires.com

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