Operação foi deflagrada na manhã desta sexta-feira. Divulgação/PCMG

Clínica em Nova Lima (MG) tirava sangue de animais sem autorização e vendia por R$ 400, diz MP

R$ 400 era quanto custava uma bolsa de sangue para animais que precisavam de transfusão na clínica Animed, cujo veterinário responsável foi preso em uma operação do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e da Polícia Civil nesta sexta-feira (22), em Nova Lima, na Grande BH. O sangue, no entanto, era tirado de animais sem a autorização dos tutores. “Acontecia quando os animais iam para um tratamento ou até mesmo tomar banho na clínica”, contou a promotora de Meio Ambiente de Nova Lima, Cláudia de Oliveira Ignez.

A promotora, que chefiou as investigações, se disse assustada com as descobertas feitas durante a apuração do caso. “Foi uma surpresa porque, na comunidade, a Animed era vista como uma clínica da mais alta excelência, todos imaginam que fosse uma pessoa dada ao instinto de salvação”, declarou. As irregularidades no local foram reveladas durante uma investigação que apurava uma denúncia de descarte irregular de materiais veterinários em um córrego, vindo do rio das Velhas, que passava atrás do imóvel.

Agora, outras duas clínicas veterinárias, uma em Belo Horizonte e outra e Nova Lima, estão sendo investigadas pelo Ministério Público, mas, segundo a promotora, as apurações ainda não chegaram a nada com o “requinte de crueldade” encontrado na Animed.

As denúncias de maus-tratos começaram a aparecer logo nos primeiros meses da investigação, quando um senhor que perdeu um cachorro contou ter desconfiado dos procedimentos utilizados no tratamento do animal. Depois dele, o número de vítimas aumentou muito, conforme comentou Cláudia.

Entre as evidências coletadas na investigação, há indícios de que os veterinários reaproveitavam próteses de animais mortos sem a devida esterilização, estendiam sem necessidade os dias de internação dos pets, realizavam exames desnecessários e ministravam medicamentos vencidos. O uso de Anfotericina B, medicamento vedado para animais, também era comumente usado na clínica para tratar pets com leishmaniose.

Intimidação

Segundo Cláudia Ignez, muitas testemunhas relataram ter sofrido represálias dos donos da clínica por prestarem depoimento. A promotora contou que uma delas teve o escritório incendiado no mesmo dia em que foi à delegacia contar sua versão. “Levaram somente o laptop da médica e ficou bem claro que foi um incêndio provocado”, detalhou.

A investigação apontou também que funcionários eram intimidados e obrigados a cumprir algumas tarefas para manter o esquema funcionando. De acordo com a promotora, ele negociava com os colaboradores para que não comunicassem a morte de animais aos tutores para cobrar mais diárias de internação. No local, foi encontrado um freezer com vários pets mortos e congelados.

Agora que o dono da clínica foi preso preventivamente, a promotora espera que outras testemunhas apareçam, já que o medo de represálias foi bastante relatado nos depoimentos.

Outros crimes

Além de maus-tratos, a investigação apurou crimes de estelionato que seriam praticados na clínica. Segundo a promotora, a movimentação nas contas dos investigados chegava a R$ 2 milhões por mês, o que é impróprio para esse tipo de negócio.

Os veterinários poderão responder por delitos diversos, entre os quais estelionato, maus-tratos, associação criminosa e crimes ambientais.

Além dos dois mandados de prisão, foram cumpridos cinco mandados de busca e apreensão nas casas dos proprietários da clínica, de dois funcionários e de um advogado. A Justiça determinou ainda a suspensão das atividades da empresa e do exercício da profissão dos dois proprietários, bem como a quebra do sigilo bancário e fiscal das contas dos dois.

A clínica Animed informou que “está surpresa com a operação e que se pronunciará, publicamente, após análise de todas as denúncias sofridas. Além disso, se coloca à disposição da Justiça para esclarecimento dos fatos e afirma que irá cooperar, no que for preciso, com a investigação da Polícia Civil para que todos os fatos sejam esclarecidos o mais breve possível”.

O Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) afirmou que está apurando três denúncias feitas contra a clínica e esclareceu que os médicos veterinários, que respondem pelo trabalho no local, não se encontram, neste momento, com os registros suspensos.

Veja a nota, na íntegra, enviada pelo conselho:

“Na última fiscalização realizada na clínica, ainda em 2019, não foram encontradas irregularidades;

No segundo semestre de 2019 foram recebidas três denúncias contra os proprietários da clínica, tendo sido instaurados três processos éticos para apuração das informações;

Os três processos encontram-se em fase de instrução no CRMV-MG, respeitado o amplo direito de defesa e do contraditório, conforme previsto no Código de Processo Ético;

Após o trâmite mencionado, os processos serão levados à julgamento pelo Tribunal de Honra do CRMV-MG;

Esclarece ainda que os médicos veterinários denunciados não se encontram, nesse momento, com o registros suspensos no CRMV-MG.

Sobre o uso de medicamento humano em tratamento animal

O CRMV-MG esclarece que é permitido o uso de medicamento humano para tratamento animal, desde que devidamente prescrito por médico veterinário e respeitadas as restrições previstas em normas do Ministério da Saúde e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Sobre o congelamento/descongelamento de animais

Embora tenha sido divulgado na mídia que, por meio da administração de uma substância (injeção), possa-se restabelecer a condição, após descongelamento do corpo de um animal, como se houvesse acabado de morrer, cabe esclarecer que tal substância não existe. Não há como se injetar qualquer substância em um cadáver e esperar que essa atue a nível sistêmico, pois o animal morto já não possui circulação sanguínea. Sendo assim, é a equivocada a afirmação de que a injeção de um medicamento restabeleceria em um cadáver animal, após descongelamento, à condição de como se tivesse acabado de ir a óbito”.

Por Daniele Franco

Fonte: Hoje em Dia

Clínica congelava animais mortos para continuar cobrando por internação, diz Polícia Civil

Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.