Ética e prêmio nobel por “nocaute” de genes de camundongos: a ilusão do benefício humano com externalidade para o animal

Ao redor do planeta, em todos os centros de pesquisa que usam animais vivos como modelo de investigação para a invenção de drogas que visam proteger os seres humanos dos males dos quais padecem, a notícia da concessão do Prêmio Nobel da medicina para os cientistas que “nocautearam” genes de camundongos, tornando-os modelos específicos para investigações pontuais foi recebida com euforia.

Finalmente, a comunidade dos experimentadores em animais vivos respira aliviada, pois a pressão contra o uso de animais para busca de conhecimentos sobre as patologias humanas continua forte também ao redor do planeta.

Mas, o fato de os cientistas estarem a realizar experimentos em animais geneticamente modificados não é relevante, do ponto de vista ético, para o julgamento da eticidade de tais experimentos. 

O que deve ser levado em conta, em primeiro lugar, é o fato de que não temos direito algum de propriedade privada sobre quaisquer espécies vivas; e, em segundo lugar, de que não temos direito algum de infligir dor, sofrimento, privação ou tormento a qualquer ser vivo senciente, pois todos esses males já são condenados moralmente por nossa razão, ainda que tenhamos dado apenas o primeiro passo neste sentido, qual seja, o de admitir o erro destas práticas em relação aos seres humanos apenas. 

Tendo a capacidade de sentir dor, sofrer ou atormentar-se em perspectiva, a referência moral para o julgamento de uma ação como justificável ou não, não é mais o interesse humano em jogo, por exemplo, a busca de “benefícios terapêuticos que possam atenuar o sofrimento humano”, mas o sofrimento do animal que não tem nada a ver com as doenças que causam tal sofrimento humano. 

Na verdade, os alegados benefícios para os humanos custam muito a aparecer. Mas, é visível o malefício causado aos animais usados nos experimentos. 

A ciência insiste em buscar a cura para os males humanos em organismos de animais não-humanos, como se estes fossem modelos perfeitos para a investigação científica. Ela esgota os recursos financeiros concentrando-se em um único método, o da experimentação animal. 

As doenças, por outro lado, não se manifestam exatamente da mesma maneira em todos os pacientes humanos. Leva-se décadas para obter um modelo animal geneticamente modificado para servir a determinado experimento, faz-se este experimento causando imenso sofrimento aos animais, e, ao final, não se tem cura para mal humano algum. Não estou exagerando. Basta pesquisar a história da busca da cura do câncer e a dos efeitos do tabagismo e do alcoolismo, computar os números dos animais que foram mortos nos laboratórios ao longo dos últimos 50 anos, nos quais tais pesquisas foram levadas a efeito, para se ver que nada do que foi prometido foi cumprido. Não temos cura alguma para o câncer, não temos cura alguma para o tabagismo, não temos cura alguma para o alcoolismo. 

Estes são apenas três casos de pesquisas levadas a efeito em animais vivos, que de nada adiantaram. Por outro lado, a única cura real para o tabagismo e para o alcoolismo é a absoluta abstenção do uso de tabaco e do álcool. Então, por que continuar a torturar animais, se já sabemos disso? 

Há algo errado no paradigma científico da experimentação animal. O sofrimento animal não é computado, os fracassos não são revelados ao conhecimento público, os cidadãos continuam a crer que um dia a ciência, através da investigação em organismos de seres de outras espécies, encontrará remédio para curar os humanos de muitos males que resultam das escolhas pessoais e dos hábitos herdados da família, muito mais do que da determinação genética. 

O Nobel, bem o sabemos, visa premiar métodos bem sucedidos, do ponto de vista do paradigma epistemológico vigente. Ganhar este prêmio não quer dizer que a descoberta tenha sido alcançada dentro dos parâmetros éticos de defesa dos animais. Dado que ratos e camundongos sequer são considerados “animais” pela legislação norte-americana de bem-estar animal, que regulamenta os experimentos em animais vivos, os cientistas insistem em usá-los como itens ou equipamentos para realizarem experimentos. 

A maior dificuldade da ciência não é descobrir novos métodos de pesquisa, é fazer tais descobertas de modo ético. Isso é verdade em praticamente todos os resultados obtidos às custas do uso de animais vivos como equipamentos ou modelo de investigação. 

Não há ética na experimentação em seres sencientes, a não ser quando estes podem consentir com o experimento. Isto só acontece quando o “paciente” tem noção do que será feito em seu organismo. Quando não é possível esta clareza, qualquer experimento levado a efeito em um organismo vivo senciente não será ético, pelo fato de que tais intervenções causam dor e sofrimento a um ser que não será beneficiado por esta dor nem por este sofrimento. 

Não importa, neste caso, a aparência externa do ser que sofre a experiência, nem sua espécie biológica. O que importa é sua capacidade para sentir dor, medo, privação, e sofrimento. Por fim, é bom ter em mente que a ciência depende economicamente do modelo animal, que este modelo movimenta somas incalculáveis ao redor do planeta, que todos nos acostumamos a crer que deste modelo virá a solução para todos os males que nos fazem sofrer. 

Este sistema de crenças, no poder do dinheiro para fazer avançar o conhecimento, na cura artificial das doenças produzidas pelos hábitos humanos, e no direito humano de não sofrer, no entanto, não asseguram eticidade alguma ao que é feito em seu nome. 

Mesmo querendo que tudo isto seja verdade, a maior parte das pessoas não associa a este querer a determinação de não obter nada disso a não ser por meios éticos. 

Ao verem o destino deste Nobel, essas pessoas apenas reforçarão sua esperança no modelo animal para livrá-las dos males que sofrem. O fato é que isto jamais acontecerá, se a ciência insistir em investir todo dinheiro somente no modelo animal. 

A ética, em vez de ser a defesa dos benefícios para os seres mais poderosos, é a defesa do dever de levar em consideração a dor, o dano, o sofrimento e o malefício causado pelos seres humanos aos seres que podem ser vítimas das crenças humanas no modelo animal experimental, os próprios animais, sem que sejam beneficiários deste mesmo modelo. 

Toda dor causada a um indivíduo para favorecer a outro deixa de poder ser considerada eticamente justificável. Qualquer que seja o resultado obtido pela ciência, por métodos que infligem dor e sofrimento a animais racionais e ou sencientes, não é ético. 

Via de regra, a doença pesquisada ao longo de décadas com o modelo animal já sofreu tantas variações nessa longa espera, que o modelo que prometia ser bem sucedido há dez anos mostra-se incapaz de cumprir a promessa de cura, hoje. 

As pesquisas do câncer têm se arrastado ao longo do último século, e os cientistas ainda assim querem nos fazer crer que estão às portas da grande e final descoberta, só porque conseguiram “nocautear” os genes de camundongos para produzir neles a interrupção de processos metabólicos que supostamente induzem a formação de células cancerosas. Não é verdade que estejamos às portas da libertação humana desse mal. Nunca se conheceu tantas variações do câncer quanto se conhece hoje. Nunca morreram tantos em função deste mal, quantos morrem hoje. 

Enfim, acabamos de presenciar a concessão de um grande incentivo que perpetua o culto a um método de pesquisa que não cumpre a promessa de cura dos males humanos: o que se sustenta sobre o uso de seres vivos como se fossem itens dos laboratórios experimentais. Mas, estes seres são dotados de nervos, mente, consciência, percepção de si, capacidade de sentir dor, de sofrer estresse, de ter emoções, de interagir, de buscar o bem próprio, de cuidar de si e dos seus. São seres vivos, não objetos de propriedade. 

Texto parcialmente publicado no jornal Folha de São Paulo.


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