Explorada e abandonada durante um furação: A triste saga da orca Lolita

Explorada e abandonada durante um furação: A triste saga da orca Lolita

Na década de 1970, uma orca, chamada Lolita, nadava com sua família nas águas tranquilas da costa do estado de Washington, nos Estados Unidos. Com apenas quatro anos de idade, sua vida livre e selvagem foi interrompida drasticamente, quando ela foi capturada por caçadores. 

A captura

Um som alto e triste, de trauma e agonia, ecoou pela área. O estrondo foi ouvido por Lyla Scover, que estava sentada em um mercado agrícola em Whidbey Island. Ao jornal The Independent ela relembrou o episódio: “Não era o som que você ouvia das gravações [das orcas] debaixo d’água, conversando entre si. Estavam chorando”, relatou. 

Tratava-se de uma numerosa e sofrida captura. Caçadores usaram redes e explosivos para roubar 80 orcas do Oceano Pacífico. Entre as encurraladas, sete delas foram vendidas a aquários — a única sobrevivente foi Lolita, negociada por cerca de 20 mil dólares para o parque temático Miami Seaquarium.

Por lá, o animal gigante vive até hoje, recluso no menor e mais antigo tanque de orca dos Estados Unidos. Acostumada ao sol escaldante e ao entretenimento humano, Lolita é alvo de grande polêmica e de petições de defensores dos animais, que exigem que ela seja libertada na natureza. 

Tanque pequeno da orca Lolita / Crédito: Divulgação/Orca Network

Residente enclausurada 

A família de Lolita e, possivelmente, sua mãe, com 80 anos, ainda estão vivos, segundo estimam especialistas. Mas o reencontro da orca com os demais animais de sua espécie não tem data para ocorrer. Por ora, ela permanece presa no Miami Seaquarium.

O tanque em que vive a orca não corresponde nem se quer a 2% do espaço que ela ocuparia mergulhando debaixo d’água do oceano. A orca possui apenas a área do próprio corpo para se movimentar.

Não por acaso, é comum que orcas que ficam nesses tanques sofram queimaduras solares e até bolhas. Visto isso, o dique de Lolita é tão pequeno que viola os padrões da Lei de Bem-Estar Animal, dos EUA.

Para agravar ainda mais a situação, no começo, ela teve que dividir o local com outra orca: Hugo. Com o companheiro, a criatura acasalou muitas vezes, mas nunca teve filhos. Ele morreu de aneurisma cerebral, em 4 de março de 1980. O motivo: teria batido repetidas vezes a cabeça no tanque minúsculo em que vivia. Desde então, Lolita é viúva e mora com um par de Golfinhos-de-Laterais-Brancas-do-Pacífico.

Lolita, a orca, no Miami Seaquarium /Crédito: Wikimedia Commons

Relação com outros animais 

No programa NBC Dateline de 1996, o biólogo Ken Balcomb, do Center for Whale Research, conseguiu registrar sons da família perdida de Lolita. As orcas parentes dela estavam nas Ilhas San Juan, em Washington. O especialista gravou os animais e tocou os ruídos para a orca reclusa, que pareceu reconhecê-los, segundo o expert. 

Enquanto provavelmente sente falta dos animais de sua própria espécie, Lolita vive uma relação conturbada com seus companheiros golfinhos. Um relatório de 2015 mostra que eles frequentemente ferem e assediam a parceira do grupo dos cetáceos. Somente nesse ano, os golfinhos roçaram a pele da orca mais de 50 vezes, deixando-a com feridas abertas e sangrando.

Entre um furacão e a liberdade

Em setembro de 2017, quando o furacão Irma devastou a costa de Miami, o aquário abandonou a orca para a própria sorte. Segundo informou a ex-treinadora Samantha Berg, o tanque dela não era profundo o suficiente para que Lolita pudesse submergir e encontrar refúgio de detritos voadores.

Ainda assim, a orca sobreviveu. Diante desse e outros acontecimentos de maus-tratos, em dezembro de 2018, a campanha para liberar o animal foi reforçada. Porém, a ação, que alegava que o Seaquarium violava a Lei de Espécies Ameaçadas de Extinção, foi negada pelo tribunal federal de apelações dos EUA. 

Até hoje, soltar ou não Lolita ainda é uma questão controversa. Conforme opinou o biólogo Douglas Wartzok, ao jornal local Miami Herald, nesse período da vida, o estresse da libertação pode ser catastrófico demais para uma orca. “Não é uma resposta fácil, mas minha opinião é que provavelmente é melhor deixar o animal onde ela vive nos últimos 47 anos”, avaliou. 

Enquanto isso, outros especialistas e ativistas discordam. Ou, pelo menos querem pressionar o Miami Seaquarium por melhores condições. Além disso, tentativas de conscientizar a opinião pública têm dado resultados.

O número de visitantes nas instalações de Miami diminuiu à medida que a problematização sobre a situação de Lolita aumentou. Ao que tudo indica, a orca não deseja visitas, mas sim, viver com grande espaço — e quem sabe, se possível, um dia livre. 

Por Vanessa Centamori 

Fonte: Aventuras na História

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