Bem-estar vs. bem próprio

Quando se fala da ética animal ou ambiental do cuidado, há que se destacar dois pontos: a distinção entre bem-estar e bem próprio dos animais e ecossistemas cuidados, e o desafio de cuidar dessa distinção quando queremos oferecer cuidado a animais humanos e não humanos, ou a seres vivos não animados.

Urge ganhar consciência de que a singularidade da mente humana ainda não alcançou um padrão que nos torne aptos a oferecer o devido cuidado a qualquer ser vivo. Essa consciência é necessária, para que evitemos dois erros: julgar que basta oferecer cuidado e já se cumpriu o dever moral; e julgar que o cuidado tem apenas uma matriz, com a qual podemos tratar de qualquer tipo de vida e de qualquer indivíduo.

Os animais nos dizem o que sentem. Não sabemos decifrar. Algumas pessoas julgam que podem decifrar o que os animais que vivem com elas lhes dizem. Mas, no caso do cuidado de animais com os quais não mantemos um vínculo amoroso cuidadoso, já não deveríamos estar tão convencidos de que sabemos o que é melhor para o bem próprio deles. Pode ser que fiquemos apenas no bem-estar físico. Esse é o básico.

Mas cuidar de um animal ou ecossistema exige que se vá além do básico. Exige que nosso cuidado não os impeça de buscarem seu próprio bem a seu próprio modo específico. Por isso, precisamos estudar o animal individualmente. Cada um tem suas preferências e sua inteligência peculiar, mesmo sendo de única espécie. O que oferecermos a um indivíduo pode lhe ser agradável, mas não devemos estar tão certos de que todos os outros daquela espécie também acharão agradável.

Obviamente, comida, água e abrigo para proteção contra chuva, frio, vento e ruídos aterrorizadores, para dar apenas alguns exemplos, são algo que pode trazer alívio para quase todos os animais, humanos e não humanos.

Mas, se vamos mais fundo, qual comida é saudável para qual indivíduo? Que tipo de água é boa para qual animal? Qual o tipo de abrigo? Qual o tipo de tecido pode causar doenças pulmonares nos bichos “de estimação”, qual o tipo de material de revestimento do solo e paredes pode ser apropriado para qual animal? As questões podem ser arroladas quase que ad infinitum. É disso que precisamos falar mais, conforme o afirma Rita Manning. Não basta falar apenas de direitos animais. Precisamos conhecer e respeitar suas preferências. Por isso, a briga de Francione contra Singer, em vez de nos fazer progredir no estudo da questão, nos faz retrogredir. Mantenho os dois, dando prioridade a um dos discursos, ou a outro, dependendo do tipo de questão que está em jogo.

Acabo de ler Alex e eu, da cientista Irene M. Pepperberg. A história do papagaio cinzento que espantou o mundo mostrando que sua inteligência estava vinculada à linguagem, e esta tinha a mesma estrutura humana. O fato é que esse estudo revelador revolucionou a ciência. Mas também custou o encurtamento da vida do Alex. Mantido em confinamento nos laboratórios por onde foi levado por três décadas, o animal foi privado da vida que certamente teria sido boa para ele. Em vez de viver 50 anos, morreu aos 31.

Não desvalorizo o conhecimento que a cientista arrebanhou a partir do estudo que heroicamente levou a termo por três décadas, sem receber apoio na maior parte do tempo, justamente porque desmentia que aves fossem vivos-vazios, conforme o afirmou Descartes há mais de 400 anos em relação a qualquer animal não humano.

Mas se cientistas ficassem estudando por 30 anos os animais em seus ambientes naturais, provavelmente já nos teriam legado uma ciência digna de ser apreciada, não um conhecimento obtido a fórceps com métodos experimentais que privilegiam o formato da linguagem do pesquisador, em vez de construir um modelo apropriado para decifrar a linguagem do animal. O Alex mostrou que era capaz de usar e operar com a linguagem humana, analogamente ao que o fizeram Washoe e Koko (chimpanzés que aprenderam a linguagem dos sinais).

Mas os humanos ainda não mostraram ser capazes de usar a linguagem deles para entrar em franca e genuína comunicação com eles. Pode ser que todos os animais tenham a mesma linguagem humana, uma lógica semelhante. Mas eles não usam palavras. Seus conceitos dispensam a palavra. Eles operam com outras formas conceituais. Por isso é preciso abolir o estudo da linguagem animal pelo método experimental tradicional. Precisamos observar mais os animais em seu ambiente natural propício, pois ali eles nos dizem tudo o que diz respeito ao bem próprio de sua vida. Em jaulas, gaiolas, apartamentos, laboratórios, baias, galpões, barracos e flats nenhum animal alcança o bem próprio de sua forma de expressão da vida, ainda que ofereçamos a eles os meios para que possam gozar do bem-estar físico e emocional. Precisamos distinguir estes dois conceitos, se queremos sinceramente defender os animais: uma coisa é zelar pelo bem-estar deles, outra é defender que eles tenham a liberdade para buscar o bem que é próprio de sua expressão de vida. Não basta manter o corpo confortável. É preciso defender o espírito do animal.

A ética animal e ambiental deve ter como foco o paciente, não o agente moral. O antropomorfismo e o antropocentrismo precisam ser abolidos da reflexão ética ecoanimalista.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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