Radicalidade vs. autoritarismo

Do grego díaita deriva o termo dieta, que, em vez de designar escolhas alimentares em parâmetros não costumeiros, quer dizer ‘modo de vida’. Modo de viver, por sua vez, não é o mesmo que estilo de viver. Um estilo é uma marca pessoal que alguém imprime para destacar-se da massa. Um modo de viver é uma escolha que inclui outros, em vez de querer apenas destacar-se do corriqueiro.

Os que escolhem uma díaita ou modo de viver vegano abandonam o padrão tradicional acostumado de comer, usar, divertir-se e acumular ganhos tendo por base o uso de animais vivos ou de suas carcaças, incluindo tudo o que é produzido a partir deles. É uma escolha radical, como bem o apontam os detratores dos veganos, que via de regra os acusam nesses termos.

A escolha vegana, no entanto, embora seja uma tomada de posição na vida restabelecendo o próprio controle pessoal sobre a aquisição, consumo e formação de hábitos nos mais diversos setores da existência, em sua radicalidade não visa ofender nem impor a ninguém o mesmo padrão. Ainda assim, por ser a escolha de um modo de vida ético, ela impõe aos sujeitos morais que a fazem o dever de expor aos demais as razões pelas quais o fazem. Para uma sociedade na qual ninguém jamais é convidado a expor as razões de suas escolhas pessoais, causa estranheza deparar-se com uma pessoa cuja existência é pautada sobre o princípio da não violência contra os animais, seja lá em que termos essa violência se expresse.

Confundir a radicalidade da opção vegana com autoritarismo é um erro cometido por muitos onívoros. Por dois motivos: primeiro, porque os onívoros são absolutamente radicais em seu modo de comer. A prova disso é que não se deixam abalar nem um pouco com os argumentos contrários ao uso de produtos derivados de animais nas refeições. Não se abalam com o sofrimento imposto aos animais. Não se abalam com a devastação ambiental que a produção de animais em larga escala para suprir o mercado internacional causa nas regiões do Brasil onde esta é a atividade econômica central. Não se abalam com a vasta literatura médica e científica confirmando os malefícios da ingestão da carne, leite e derivados deles para a saúde dos diferentes sistemas que constituem a fisiologia do corpo humano.

Onívoros são radicais, mas ainda assim acusam os veganos de o serem. Os onívoros, em segundo lugar, impõem a todos os que os cercam seu próprio modo de viver sustentado sobre o sofrimento animal e a devastação ambiental e da própria saúde. Mulheres onívoras impõem a seus filhos, filhas, maridos e companheiras o padrão da dieta alimentar tradicional baseada na carne e derivados do leite. Mães e pais onívoros impõem a suas crianças a ida a circos, rodeios, farras do boi, zoológicos, aquários e tantos outros espetáculos bizarros, como meios de diversão. Mães e pais onívoros impõem a suas crianças o uso de roupas e acessórios fabricados à base de tecidos animais, com todo sofrimento que tal indústria representa para estes. Mães, pais, professores e empresários onívoros usam o discurso, em particular e em público, todo tempo, para defender que é “natural” comer animais, explorá-los, matá-los, criá-los em confinamento completo, para servir aos “nobres e elevados propósitos humanos”.

Se compararmos o modo de vida vegano com o modo de vida onívoro, veremos que há neste último um poder que avassala qualquer indivíduo em sua liberdade de expressão existencial. Vivemos numa ditadura. Mas ela não é imposta pelos veganos. Os veganos são os primeiros a tomarem posição em defesa do direito à liberdade de expressão, pois sem ela não há evolução moral. A dieta onívora nos impõe padrões mentais rígidos de interpretação do lugar e do valor da espécie humana no planeta. A dieta vegana abre as portas dessa clausura mental, desvelando os segredos sórdidos que foram mantidos escondidos das “crianças” por milênios, acumulados de forma acelerada nas três décadas mais recentes da produção industrial de animais. Não somos crianças. Somos dotados da capacidade de raciocinar, e de tirar nossas próprias conclusões sobre o modo de vida que nos foi imposto pela educação e pela moral tradicional.

Quando abrimos o jogo em público e expomos nossos argumentos não estamos impondo a ninguém nossa díaita. Não precisamos fazer isto, impor aos outros nosso modo de vida, porque quem é capaz de raciocínio próprio é capaz de abrir sua mente para compreender quão cruel é a moralidade antropocêntrica para os seres vivos que não nascem no formato da espécie humana. Isso incomoda as mentes conservadas no padrão moral tradicional. A ira delas se volta contra os veganos, acusando-os de quererem impor a toda gente sua concepção. Errado. Veganos não querem impor nada. Veganos não precisam impor nada. Veganos sabem que humanos são dotados de razão e quando a usam de fato, são capazes de abrir seus horizontes morais. Mas, quando sucumbem ao padrão moral imposto pela tradição, jogam-na fora e tornam-se irracionais, ilógicos e incoerentes, pois deixam de fazer esforço próprio para argumentar em defesa da dieta onívora e repetem as mesmas falácias já desfeitas pela literatura ética das últimas quatro décadas.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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