Diferença entre ética animalista biocêntrica e ética senciocêntrica

Por Sônia T. Felipe 

Paul Taylor escreveu um livro, Respect for Nature, tratando do valor da vida de todos os seres a partir do bem próprio de cada vida. Quando ele se refere à vida como devendo ser o centro da perspectiva ética, ele não faz diferença entre as diferentes formas de vida [não incorre em especismo elitista nem eletivo], porque seu fundamento é o conceito de “bem próprio” da vida de cada indivíduo. Esse bem próprio não tem como medir nem comparar com o bem próprio da vida de outro indivíduo.

O bem próprio a cada espécie e singularidade do viver não se resume ao conceito de bem-estar nem pode ser reduzido a ele, tem a ver com estar bem de acordo com a materialidade e o espírito do tipo de vida no qual nascemos, que é mais do que ter boa comida, cama confortável e água limpa, isso é apenas bem-estar físico, sem as agonias que a privação disso produz.

O bem próprio é mais do que o bem-estar para todas as espécies, pois tem a ver com a liberdade de expressar-se individualmente, singularmente, não em conformidade com um padrão da espécie, mas em conformidade com o espírito que cada indivíduo tem, com seus recortes existenciais insubstituíveis, sua singularidade.

O bem próprio da vida humana só parece superior se visto da perspectiva dos interesses humanos como prioritários. É tão real que a vida não tem hierarquia, que num terremoto todos os corpos podem ser esmagados e mortos, todos os seres vivos perdendo o único bem próprio que possuem, sem distinção da vida da árvore, dos pássaros, dos peixes ou dos humanos. A distinção e a hierarquia é uma história inventada por uma forma de ver a vida dos outros como de menor valor do que a nossa própria. Uma história antropocêntrica e especista.

Quanto a Peter Singer, a perspectiva dele, senciocêntrica, é diferente da de Taylor, biocêntrica. Para Singer, que segue o utilitarismo preferencial, as preferências de seres autoconscientes podem ser colocadas na prioridade, caso seja necessário. O critério, para Singer, seria o da capacidade de sentir dor e sofrer e de se saber na condição de ser dorente e sofrente, mais do que o de estar vivo ou morto, propriamente.

Mortos, de fato, nos igualamos todos, independentemente das crenças sobre restar algo após a morte para seres dotados de alma. Animais são dotados de alma. Então, restaria algo além da matéria corpórea morta, após a morte, também para eles. Mas essa não é uma questão da qual eu me ocupe. Essa é uma questão que deixo aos cuidados dos teólogos. Não sei tratar de questões que estão para além do meu poder de pensar de forma sustentável, usando a razão para dar clareza e fundamento à convicção.

Da perspectiva da vida senciente e autoconsciente, não distinguir entre alimentar-se de vegetais e alimentar-se de animais (São Francisco amava a todos e a tudo igualmente e não deixou prescrito abster-se da carnes ou derivados de animais, a não ser nos dias de jejum) ou extrair do corpo dos animais secreções para uso humano, é um erro, se considerarmos o quanto importa estar vivo para um ser senciente e para os conscientes de si. A questão da consciência de si, para Taylor não parece ser relevante, porque seu conceito de valor inerente como bem próprio não exige uma consciência desse bem. Um recém-nascido humano tem tanta consciência de si e do bem próprio dele naquele estágio de sua vida, quanto o tem um recém-nascido bovino, suíno, felino etc.

Entretanto, maltratar ou privar um recém-nascido das condições dignas de seu desenvolvimento dentro dos padrões da livre expressão do animal que ele é, não importa agora a espécie à qual ele pertença, é uma injustiça do ponto de vista ético, porque estamos tratando seres iguais com medidas desiguais. O bem próprio de uma vida, ou da vida de um indivíduo dentro dos limites e grandezas de sua espécie, não pode jamais ser pesado para mais ou para menos em relação ao bem próprio da vida de um indivíduo de outra espécie que não a daquele.

Taylor teve uma questão que deixou de tratar, porque ela foge completamente ao conceito que ele tem do valor inerente à vida como o bem próprio à cada vida. A questão da criação de animais para abate e consumo humano. A vida desses animais já não tem nada a ver com o bem que seria próprio deles, porque, obviamente, o manejo que sofrem os destitui do valor que a vida teria para eles. Numa fábrica de animais, toda a vida é submetida aos padrões que os humanos impõem a eles, criados com a única finalidade de virem a ser mortos para consumo humano. Essas vidas, Taylor não escreveu isso, apenas eu o interpreto assim, estão destituídas de todo bem próprio, ainda que se busque hipocritamente lhes dar algum bem-estar. O valor próprio de uma vida só pode existir na correspondência espiritual da mente do animal com a especificidade da vida que aquela configuração material biológica permite. E os animais criados pelos humanos têm seu espírito completamente atrofiado, quando não degenerado.

Mas Taylor não tratou disso em Respect for Nature, porque precisaria analisar tudo o que fazemos aos animais antes de mostrar que sua ética não se presta para sustentar a criação industrial de animais para consumo humano. Uma pena que ele não tenha tratado disso.

Entretanto, com base em seu livro, devemos nós continuar o trabalho dele e levar às últimas consequências suas propostas éticas. Nesse caso, o dever de restituição, que faz parte do modelo de ética e justiça que ele propõe, seria o primeiro passo para devolvermos aos animais hoje manejados a vida que roubamos de seu espírito. E para restituir a qualquer animal a alma que lhes foi roubada no manejo humano, é preciso abolir completamente o sistema de produção de alimentos animalizados, diversões animalizadas, moda animalizada, beleza animalizada e tratamentos médicos animalizados. Isso implica no desmonte das fábricas de animais.

As espécies hoje usadas para produção de carnes ou artefatos deixariam de ser reproduzidas à força. Existiriam apenas em santuários, para viverem finalmente a vida em sua plenitude biopsicológica, algo que não podem ter na condição de objetos de propriedade humana com destino marcado para finalizar a vida numa câmara de sangria. Tarefa de Sísifo. Uma dúzia de trabalhos de Hércules. Nada que os deuses não consigam!


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