Onde estão os veterinários?

Por Leonardo Maciel

Cada vez mais a mídia noticia maltratos contra animais e pessoas sendo punidas, muitas vezes mais pela sociedade do que pela justiça constituída. Acho que estamos lentamente evoluindo. Nunca se viu tanta denúncia e tanto espaço dedicado aos animais, apesar de pequeno em vista da necessidade.

Como médico veterinário e vegano, me pergunto onde está a classe veterinária neste contexto. Talvez seja o mesmo que me perguntar se todos os médicos humanos estão engajados com os direitos humanos.

Milhares de veterinários são formados a cada semestre no país. A maior parte deles estará envolvida com produção de alimentos de origem animal. Além de promover a criação de bovinos, ovinos, suínos, aves, peixes e animais selvagens, o veterinário também estará na inspeção do abate, na avaliação da carcaça e de possíveis doenças transmissíveis a humanos.

Também é função do médico veterinário participar na cadeia de produção industrial dos alimentos, tais como embutidos, apresuntados, salsichas, e todos os produtos que contenham carne.

Empresas que industrializam leite para produção de queijo, doces e yogurtes também empregam veterinários para inspecionarem sua cadeia de produção.

Uma parte dos veterinários estará atuando nos laboratórios de produção de medicamentos, alimentos para animais em fazendas de produção, vacinas e rações.

Alguns veterinários se tornam representantes de laboratórios e passam a visitar produtores rurais e hospitais veterinários apresentando as novidades do mercado.

Uma parcela dos profissionais atuará em órgãos de saúde pública, em planejamento de campanhas de controle e erradicação de doenças como a raiva e a brucelose bovina por exemplo.

Também é função dos veterinários participar de monitoramento do trânsito internacional de animais para evitar a circulação de doenças, como nos aeroportos na fiscalização das autorizações para viagem.

Muitos veterinários trabalham em empresas de genética e reprodução de animais para consumo humano, industrialização de sêmem, inseminação artificial para obtenção de animais com maior rendimento de carne, ovos e leite.

Por fim, uma parte dos veterinários estará envolvida com clínica de animais de companhia, controle populacional de cães e gatos, zoos e centros de triagem de animais selvagens.

O campo de atuação é extenso e muitas atividades não foram citadas, mas a medicina veterinária, como instituição, é totalmente voltada à produção de alimentos e os profissionais formados para atuarem em prol do ser humano. Benefício, bem estar e alimentação humana, pois mesmo quando se trata o cão de um “proprietário” que se encontra aflito, a saúde do cão trará benefício para o ser humano que o possui.

As mudanças de posicionamento em direção ao reconhecimento dos direitos dos animais é tímida. Paradoxalmente, apesar da classe reconhecer a senciência dos animais (através de “estudos científicos”) ainda permanece uma tradição especista de que os animais podem ser usados para nosso benefício. A medicina veterinária hoje sustenta um mercado, atende a uma demanda. A incoerência e o questionamento de valores parecem disseminados, pois muitas pessoas me questionam sobre a ausência do médico veterinário na luta pelos direitos animais enquanto comem carne, leite e ovos. Um bem- estarista com este questionamento deveria se abster de opinar, se informar e no mínimo rever seus conceitos.

Particularmente, acho a medicina veterinária um privilégio. Recuperar a saúde de um animal e cessar seus desconfortos e dores beneficia muito mais a quem faz. Há algum tempo escrevi algo sobre o que nos diferencia dos animais, o que nos torna humanos e acho que este é um ponto: poder usar tecnologia e conhecimento para restituir a saúde de alguém tão suscetível, tão vulnerável no mundo atual.

Recebemos muitos animais, sobretudo aves vítimas de queimaduras em incêndios devido ‘a estiagem. Chegam com dor. Dor de queimadura. Após recuperadas, vê-las voando pela primeira vez para bem longe em uma segunda chance na vida nos faz humanos, mesmo que tenhamos participação na seca.

Os animais precisam de médicos. Estão doentes por câncer e intoxicação por pesticidas, desequilíbrios populacionais, sequelas de cativeiro e de abusos, acidentes no meio ambiente antropizado irremediavelmente. A classe veterinária não se sentirá pressionada a mudar enquanto a maioria das pessoas preferir comer os outros seres do planeta ao invés de respeitá-los e reconhecer-lhes os direitos.


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