Patê de foie gras, que iguaria é essa?

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe 

Podemos imaginar o que seja a felicidade de um animal ganso, cuja natureza o dispôs ao segundo mais alto voo no mundo animal [podendo alcançar até mais de sete mil metros de altura], tanto quanto o dispôs a tratar de sua saúde, higiene e beleza nos lagos mais tranquilos desse planeta, usando simplesmente seu bico?

Esse animal realiza a interação sexual com ritos cerimoniosos de início e fim, com a inclinação do pescoço e abertura das asas, em sincronia espelhada com seu par, como que inundado por um sentimento de celebração e contentamento pelo que acabou de ser feito, o ato que enseja a renovação da vida de sua espécie. Essa ave trata cada uma de suas penas com o bico, alisando-as e retirando toda partícula de poeira, lama ou excrementos, mantendo-as lisas e brilhantes.

Logo junto à pele e sob as penas, ele tem uma camada fofa de plumas que retém o ar em seus filamentos, isolando termicamente seu corpo para suportar frios glaciais e temperaturas cálidas. Essa criatura, cujo ambiente natural tanto pode ser o de oito mil metros de altura, quanto o rés do chão na superfície das águas ao nível do mar, tem a capacidade de armazenar, em forma de gordura abdominal, a quantidade de calorias necessária para fazer a travessia sobre o oceano, num voo que a leva, guiada pela ave mais velha e experiente, durante dias ou semanas, exatamente ao local onde seus progenitores levaram a efeito a interação sexual da qual resultou a fecundação do ovo cujo embrião veio a ser o animal que é: um ganso. E justamente a aptidão metabólica que a natureza lhe deu para aguentar tal empreitada é o que o torna vítima da crueldade humana.

A linguagem dos gansos é uma das raras já decifradas pelos etologistas e por todos que protegem suas vidas em santuários ao redor do mundo. Os pequeninos aprendem rapidamente os códigos sonoros e respondem prontamente ao alarme dos adultos, buscando abrigar-se dos predadores numa formação em bando.

Os gansos são aves gregárias, quando deixadas à vontade. Eles mantêm-se vinculados sexualmente a uma única parceria.

Diversamente dos pinguins, os machos não chocam os ovos, tarefa reservada às fêmeas. Mas permanecem vigilantes ao lado do ninho protegendo-a e aos seus ovos enquanto ela os aquece.

A visão e a audição são funções altamente desenvolvidas nessas aves. Não é para menos que muitos as têm em seus sítios e fazendas, porque seus grasnados, emitidos para os companheiros de sua espécie, alertam os residentes humanos sobre a presença de estranhos, nos quais, absolutamente não confiam.

Sua vida pode passar de 30 anos, quando vivida em absoluta liberdade, sob a guarda de humanos. Na natureza, há relatos de etologistas dando conta de que gansos selvagens chegaram a viver um século, mantendo-se fieis no acasalamento por mais de 50 anos. Quando enviúvam, entram em luto, relata Konrad Lorenz, Prêmio Nobel de Medicina em 1973 [Cf. Jeffrey Moussaieff Masson, The Pig Who Sang to the Moon].

Imagine agora essas aves e suas semelhantes, os patos, tendo as membranas de suas patas costuradas ou pregadas ao solo, para que não se movam; uma comida que elas não comeriam naturalmente (uma mistura de milho, gordura de porco e de ganso, e sal), e muita água, ambas em quantidade assombrosa, lhes sendo enfiadas, literalmente, “goela abaixo”.

Essa é a tradição de produção do foie gras que veio do Egito, passou por Roma e se firmou na França e em outros países. Na antiguidade a ração era outra, baseada em figos.

O ganso e o pato são forçados a ingerir, em calorias, o equivalente a 15 kg de espaguete por dia, caso um humano fosse submetido a esse processo de degeneração do fígado que o faz inchar de tanta gordura causada pelo excesso de calorias, desnecessárias para manter o metabolismo do animal. Em humanos, a degeneração das células do fígado que pode levar à cirrose e causar a morte é conhecida como esteatose. Nos gansos e patos, o fígado aumenta em até dez vezes seu tamanho natural.

Em média, o fígado humano tem 22 cm por 17 cm e pesa 2,5% do total do corpo. Imagine-se agora naquela dieta forçada de 15 kg de espaguete por dia. Seu fígado incharia até dez ou doze vezes o tamanho natural, chegando a um peso que equivaleria a 65% do total do seu peso corporal.

Caso você pese 60 kg, seu fígado, nesse regime alimentar violento poderia chegar a pesar 39 kg. Consegue imaginar a agonia, tanto para respirar, quanto para pulsar o coração, além do peso insustentável a ser suportado pelo corpo,pela bacia, pelas pernas e juntas? Humanos não conseguiriam andar, nem levantar-se da cadeira.

E voar, poderia um ganso ou pato voar com esse peso extra?

E o tormento digestório? Quando comemos em uma refeição alguma coisa que o fígado não dá conta de digerir, passamos horas até encontrar algo que o estimule e que o ajude a nos libertar do tormento.

Mas, no caso dos gansos e patos, presos em gaiolas nas quais não podem mover-se, não há alívio. Depois de 100 dias de vida, nos quais são alimentados com milho, começa o suplício da alimentação forçada.

Três vezes ao dia, nos primeiros doze dias, gansos e patos recebem o alimento através de um sistema pressurizado, por um cano enfiado em seu esôfago até o estômago, forma pela qual se consegue que recebam tanta comida, porque, naturalmente, nenhum animal come tanto a ponto de degenerar as células do seu fígado, mesmo no caso das aves migratórias cujo metabolismo consegue armazenar gordura como estoque para aguentar a travessia aérea de oceanos, sem ilhas para pouso, que leva dias de voo, até sua terra natal e maternidade.

A partir do décimo segundo dia de alimentação pressurizada, relata Masson [p. 194], as aves são alimentadas por esse sistema a cada três horas, podendo estender-se o tempo até 28 dias, sem descanso, pois não param de lhes enfiar a comida pela goela, nem à noite.

Aliás, há fazendas que os mantêm na penumbra, para que percam a noção de tudo o que está à sua volta. O sistema pressurizado de forçar a ingestão de comida injeta até ½ kg de comida no estômago da ave em três segundos. Imagine o impacto de tal massa alimentar forçada a cair no estômago por pressão. “Desnecessário lembrar”, escreve Masson, “que muitas aves morrem porque o estômago arrebenta ou a garganta é perfurada”.

Um relatório apresentado pelos Advocates for Animals (Defensores dos Animais) e a World Society for the Protection of Animals (Sociedade Mundial para Proteção dos Animais) dá conta de que 80% dos 25 milhões de patos e gansos torturados para extração de fígado doente são mantidos “em gaiolas individuais nas quais eles não podem virar-se, ficar de pé, nem esticar as asas”, relata Masson [p. 195].

Não há inocência no consumo do patê de foie gras, como não há inocência no consumo de carne de vitelo, um subproduto da indústria do leite.

Entretanto, mesmo com a internet à disposição para leitura e visão do processo de produção de praticamente qualquer alimento, a demanda por essa iguaria subiu de forma aterrorizante. Somente na Região do Loire, na França, conhecida por seus cinco belos castelos, a extração de fígado doente de gansos e patos subiu de 121 toneladas em 1990 para 2.032 toneladas em 1998, afirma Masson [p. 195]

O Comitê Científico de Saúde Animal da União Europeia condena a prática de forçar gansos e patos à ingestão de comida e a proibiu em muitos países.

Nesta última semana de abril de 2014, a Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná aprovou o projeto de lei que proíbe a produção e a comercialização do patê de foie gras naquele Estado.

Mas, para que os consumidores entendam a razão de tal proibição, é preciso que eles saibam o que estão comendo. A divulgação dos detalhes da produção dessa iguaria é fundamental para a libertação dos animais do inferno no qual suas vidas foram transformadas.

Para acessar a notícia, ver:
http://www.olharanimal.org/noticias/768-ccj-aprova-projeto-que-proibe-foie-gras-no-parana

Artigo crítico à chamada “produção ética de patê de foie gras, ver:
http://www.anda.jor.br/25/11/2011/bem-estarismo-da-nisso 


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Olhar Animal – www.olharanimal.org

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