Entenda o que é a senciência animal e qual a discussão em torno da mesma

Entenda o que é a senciência animal e qual a discussão em torno da mesma

Na coluna da semana passada tratamos um pouco sobre a qualidade que os animais têm de sentir estímulos negativos (dor, medo, fome, frustração, tédio, etc) e estímulos positivos (prazer, atração, saciedade, alegria, carinho, etc).

A esta capacidade de sentir chamamos senciência.

Animais, assim como os seres humanos, são seres sencientes, e da mesma forma que temos obrigações morais para com seres humanos baseados na percepção dos sentimentos do próximo, assim também devemos agir em relação aos animais.

Mas qual deve ser o limite para o reconhecimento da senciência do outro?

Sabemos que cães e gatos são animais sensíveis porque nós os temos em casa e nos identificamos com eles. Podemos supor que vacas, porcos e carneiros, apesar de gozarem de menor consideração pela sociedade, também o sejam porque, afinal, são todos mamíferos e possuem o sistema nervoso organizado da mesma forma.

Mas o que dizer de aves, serpentes, sapos e peixes? O que dizer de polvos, lesmas, caranguejos e aranhas? E quanto às minhocas e vermes, eles não possuem cérebro, mas eles podem sentir alguma coisa?

Qualquer pessoa que já tenha visto um vendedor de lagostas vivas apresentar sua “mercadoria” sabe que o mesmo a faz parecer mais viva apertando seus olhos. Se a lagosta fosse um animal insensível ela não pularia de dor ao ter seus olhos apertados.

Igualmente, uma pessoa que tenha presenciado a forma como crustáceos são preparados, jogados vivos na água fervente, pode dar testemunho inequívoco de que estes sofrem bastante ao morrer.

Também, qualquer pessoa que já tenha batido uma picareta na terra e partido, sem querer, uma minhoca ao meio, deve tê-la visto pulando e se contorcendo. Isso é sinal externo de dor.

Sabemos que animais sentem dor porque estes possuem um sistema nervoso organizado, com nociceptores para perceber estímulos potencialmente danosos, que resultam em respostas a estes estímulos, geralmente a fuga.

Ao analisarmos o limite da senciência, mais do que a presença de um cérebro no animal, devemos analisar sua capacidade de semovência. Não há animal semovente que, tendo a oportunidade, não fuja a um estímulo desagradável, então ao menos no que diz respeito a estes animais, podemos classificar a todos como sencientes.

É este comportamento de fuga, em consequência da percepção de um estímulo desagradável, o melhor indício de senciência. Sem a percepção do ambiente os animais não buscariam seu próprio alimento, não evitariam os perigos nem se organizariam em sociedades.

A sensação da dor nos animais evoluiu como um mecanismo importante para sua sobrevivência; sem ela os animais se exporiam aos seus predadores, ao invés de fugir deles. Logo, sabemos que, à semelhança do ser humano, animais de fato experimentam sensações desagradáveis e tendem a evitá-las. Se tais sensações de fato existem, não parece justo proporcioná-las.

Por Sérgio Greif 

Fonte: Diário Popular

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