Menino com autismo escreve carta a prefeito de Vassouras pedindo que proíba fogos de artifício — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal

Menino com autismo escreve carta a prefeito de Vassouras (RJ) pedindo a proibição de ‘fogos barulhentos’ por prejudicar autistas e animais

Uma simples atitude de um menino de sete anos chamou a atenção de familiares e amigos e repercutiu nas redes sociais. Diagnosticado com autismo quando tinha três anos, Thailer escreveu uma carta ao prefeito de Vassouras, Severino Dias (PPS), pedindo que ele “proibisse os fogos de artifício barulhentos” na cidade do Sul do RJ. O motivo do apelo da criança é porque eles produzem muito barulho e fazem mal a pessoas que são autistas e aos animais.

“Senhor prefeito, meu nome é Thailer, tenho 7 anos, moro no [bairro] Grecco. Eu gostaria que proibisse os fogos de artifício barulhentos, porque isso me faz sentir mal e os bichinhos também”, diz o menino no começo da carta.

Seguindo em frente com o pedido, para reforçar seu ponto de vista, o menino ainda cita a cidade de São Paulo, que tem mais de 12 milhões de habitantes, como exemplo de municípios que já proibiram fogos de artifício barulhentos.

“A prefeitura de São Paulo fez isso, o que deixou autistas e pessoas que amam os animais felizes. Você também pode fazer as pessoas felizes em Vassouras. Espero respostas”, finaliza Thailer, deixando o recado ao prefeito.

Menino com autismo escreve carta a prefeito de Vassouras pedindo que proíba fogos — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal
Menino com autismo escreve carta a prefeito de Vassouras pedindo que proíba fogos — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal

A mãe dele, Aline Caroline Ferreira, ficou surpresa com a atitude do menino. Aline conta que a carta foi uma tarefa proposta pela escola onde ele estuda e que ela sugeriu ao filho que escrevesse para uma tia que mora no Rio ou para algum primo que vive em outra cidade. Mas o menino teve outra ideia, tão brilhante que chamou tanta atenção quanto os “fogos barulhentos” .

“Ele disse que iria escrever para o prefeito. Mas não imaginei que ele escreveria algo com tanta propriedade. Sei que ele é muito inteligente e nós o educamos para buscar maior resolutividade e independência, mas nos surpreendeu”, disse Aline Caroline.

De Thailer para prefeito Severino Dias: o começo da carta do menino pedindo a proibição de fogos barulhentos em Vassouras — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal
De Thailer para prefeito Severino Dias: o começo da carta do menino pedindo a proibição de fogos barulhentos em Vassouras — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal

Ela achou tão diferente a iniciativa que resolveu registrar e compartilhar no grupo da família. O sentimento dos familiares foi mesmo. Tanto que a madrinha de Thailer, Cíntia Pardal Almeida, foi além. “Orgulhosa” da luta do menino, ela compartilhou a foto da cartinha em uma rede social.

“Achei tão bacana que tirei foto e mandei para o grupo da família. Minha comadre achou tão bacana e resolveu postar nas redes sociais para que quem sabe o prefeito visse. Não esperávamos tamanha repercussão”, comentou Aline Caroline.

Encontro com o prefeito

A atitude inocente, mas consciente, do garoto, multiplicada pelo alcance da internet, criou uma reação em cadeia. Sensibilizou a mãe dele, que sensibilizou a tia que, por meio das redes sociais, sensibilizou outras pessoas e… enfim, chegou até o prefeito de Vassouras, Severino Dias.

“O prefeito respondeu no mesmo dia. Só a resposta do prefeito já o deixou feliz. Expliquei que fazer uma lei depende de muitas pessoas, mas primeiro precisa que as pessoas percebam a necessidade dela. E a carta fez isso, explicou a necessidade”, pontuou Aline Caroline.
Com a resposta, veio junto um convite para que o menino se encontrasse com Severino na sede da prefeitura de Vassouras.

“Oi, Thailer. Já estamos estudando o assunto com carinho. Já existe até um projeto. Desculpe por lhe incomodar. Estou te esperando na prefeitura para receber pessoalmente. Abraços e fique com Deus”, escreveu o prefeito nos comentários da publicação.

“Thailer explicou como se sente e ainda deu outras sugestões. Conversamos sobre algumas adequações que podem melhorar a qualidade de vida da pessoa com deficiência. É muito importante falarmos do Autismo, e da neurodiversidade. Perceber a riqueza da variedade humana e dar oportunidades para todos contribuírem para uma sociedade mais justa”, conclui Ana Caroline.

Thailer conversava com o prefeito e mostra o abafador de som que ele usa pra se proteger nos ambientes mais barulhentos — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal
Thailer conversava com o prefeito e mostra o abafador de som que ele usa pra se proteger nos ambientes mais barulhentos — Foto: Aline Caroline Ferreira/Arquivo Pessoal

“Questão de saúde”

No final de 2018, a três dias do réveillon, a prefeitura do Rio adotou uma medida parecida com a de São Paulo. Foi proibida, a fabricação, venda e uso de fogos de artifício cujo som ultrapassasse 85 decibéis, com exceção de “eventos com patrocínio do Poder Público, quando a explosão se der a partir do mar”. Quem descumprisse a proibição estaria sujeito a multas de até R$ 5 mil.

Entre as justificativas para a medida, a prefeitura alegou que levou em consideração a opinião de médicos especialistas, “que acreditam ser prejudicial à saúde de pessoas e animais”. É o que argumenta a mãe de Thailer.

“Muitas pessoas nos contactaram e acharam bacana, mas alguns pensam que os fogos e seus prejuízos têm a ver com gosto pessoal. Mas o som dos fogos podem provocar convulsões, confusão mental, desconforto sensorial em níveis mais elevados em pessoas neuroatipicas, idosos e animais. Não é algo simples, É questão de saúde!”, explica.

Aline Caroline conta como ela e o pai de Thailer, Djalma Pereira, fazem para evitar ou ao menos amenizar os efeitos que sons muito altos (entre eles, os de fogos de artifício) podem causar no garoto. O principal é evitar lugares muito barulhentos. Mas, em épocas festivas como o carnaval, réveillon e Natal, isso fica mais difícil. Aí, o jeito é usar um abafador de som, acessório muito comum em indústrias, que Thailer usa pra se proteger nos ambientes com som muito alto.

“Na nossa família, precisamos evitar lugares que sabemos que acontecerá o uso destes fogos. Há épocas do ano que tradicionalmente usa-se. E nesta época em que a maioria das pessoas estão em festas, nós e muitas outras famílias, estamos tentando contornar as consequências do excesso de barulho. Meu filho é cidadão de direitos também. Ele deveria poder estar onde quisesse, participar ativamente da sociedade sem medo”, protestou.

Sobre o autismo

O autismo foi descoberto em 1943 pelo psiquiatra Leo Kanner, nos Estados Unidos, quando ele analisou onze crianças que se isolavam de tudo. Esse foi o ponto de partida para uma longa pesquisa.

O autismo é dividido em três níveis: leve (exige apoio), moderado (precisa de apoio substancial) e grave (exige apoio muito substancial). A classificação acontece conforme a gravidade dos sintomas em relação à comunicação e aos comportamentos.

De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), existem 2 milhões de autistas no Brasil. Em relação à infância, a organização estima que o transtorno do espectro autista (TEA) afete uma em cada 160 crianças no mundo.

Por Renan Tolentino, G1 Sul do Rio e Costa Verde

Fonte: G1

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