87% dos brasileiros aprovam possível título de santuário de tubarões para Fernando de Noronha

87% dos brasileiros aprovam possível título de santuário de tubarões para Fernando de Noronha
Imagens Divulgação | Crédito: SEA SHEPHERD BRASIL (Fabio Borges).

Fernando de Noronha é um dos poucos locais do mundo, e o último no Brasil, em que tubarões podem ser encontrados em mergulhos de turistas ávidos por admirar a beleza do mar. A região serve como área de berçário, reprodução e alimentação para mais de cinco espécies ameaçadas de extinção e altamente exploradas pela pesca em outras regiões. O arquipélago possui total proteção, a partir de normas do Parque Nacional Marinho e da APA – Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha – Rocas – São Pedro e São Paulo.

Após acompanhar o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em várias frentes relacionadas à visitação na Baía do Sueste, em Fernando de Noronha, envolvendo a pesquisa sobre a presença de tubarões-tigre no local e a ocorrência de incidentes envolvendo banhistas, a Sea Shepherd Brasil divulga os resultados de sua pesquisa social de opinião aplicada em 2022, sobre o que o noronhense, os turistas e brasileiros pensam sobre os tubarões na ilha.

Imagens Divulgação | Crédito: SEA SHEPHERD BRASIL (Rafael Mesquita).
Imagens Divulgação | Crédito: SEA SHEPHERD BRASIL (Rafael Mesquita).

Contexto

Apesar das regras de proteção ambiental do arquipélago, diante da demanda crescente de visitantes e do registro de um incidente envolvendo tubarão-tigre e banhista em janeiro de 2022, o Conselho Distrital – entidade representante dos moradores da Ilha – solicitou um estudo que considerasse o manejo de tubarões, o que, na prática, significava o abate desses animais. Essa proposta foi defendida como uma maneira de passar mais segurança aos turistas, pois acreditava-se que, por medo, as visitas diminuiriam após o ocorrido.

Ciente de que este método não é eficaz e pode colocar em risco a preservação dos tubarões, a Sea Shepherd Brasil lançou em julho de 2022 a campanha Shark Defence, que tem como foco promover a coexistência entre humanos e tubarões em Fernando de Noronha. A campanha chegou ao país para informar as decisões dos órgãos públicos e empoderar a população em geral com informações sobre esses fascinantes animais.

A pesquisa social

Como uma etapa inicial da campanha, a Sea Shepherd Brasil realizou uma pesquisa em nível nacional, em parceria com a HSR Specialist Researchers, e uma pesquisa local com visitantes e residentes, em parceria com o ICMBio Noronha entre os meses de maio a setembro de 2022.

O objetivo foi identificar a percepção dos diferentes grupos sobre incidentes com tubarões, para entender o quanto isso pode influenciar o turismo na ilha. De maio a julho de 2022, foram realizadas 873 entrevistas com pessoas de todas as regiões do Brasil. Já entre agosto e setembro, o questionário foi respondido por 203 visitantes e 101 residentes da ilha.

Visto a importância da pesquisa social como uma ferramenta útil no processo de tomada de decisões, o ICMBio apoiou a iniciativa e colaborou com a ONG na coleta de dados locais. “O acesso a dados e informações, as ações de educação e ambiental e o monitoramento de drones, sempre aliados com uma escuta ativa e o envolvimento de todos os atores, estão sendo essenciais para tomada de decisões mais seguras para os ilhéus e para a preservação ambiental do arquipélago”, explica Carla Guaitanele, chefe do ICMBio Noronha, unidade responsável pela gestão do Parque Nacional Marinho e da Área de Proteção Ambiental de Fernando de Noronha.

A pesquisa apontou que um em cada cinco brasileiros (20%) reconhecem que Noronha é uma área importante para os tubarões. Entre os visitantes de Noronha, esse número sobe para 54%, e entre os residentes chega a 83%.

Com relação ao incidente com tubarões, não há uma significativa mudança de percepção do brasileiro comum e do visitante na ilha de deixar de ir para Fernando de Noronha devido ao episódio. Mesmo com a impressão de que o ocorrido pudesse estar afetando o turismo, segundo a pesquisa, apenas 9% dos residentes acreditam que os turistas estão deixando de ir à ilha ou postergando a viagem. O único efeito mais significativo apontado pela pesquisa é o de evitar o local do incidente, que é a praia do Sueste.

A realidade para quem são potenciais visitantes é ainda mais branda: dos somente 8% dos brasileiros que tinham Fernando de Noronha como um destino turístico mas mudaram de ideia no último ano, somente 2% disseram que é porque se tornou um local perigoso, o que representa 0,16% da população total.

Para a vasta maioria dos três grupos, o abate de tubarões não é desejado como uma forma de mitigação: mesmo para os brasileiros em geral, que é o grupo que tem uma percepção menos positiva sobre o animal. Para um quinto, ou 82% dos brasileiros e 93% dos turistas na ilha de Fernando de Noronha, o abate de tubarão não é visto como uma maneira de aumentar a segurança. Quanto aos residentes, mais de 80% disseram não ser favoráveis a essa opção.

Este índice aumenta ainda mais quando sabem da informação que esta prática não dá resultados. Quando informados da ineficácia do abate para mitigar os ataques, metade dos residentes que apoiavam esta técnica mudaram de opinião, aumentando o número de quem rejeita a prática de 80% para 90%. Portanto, a transmissão do conhecimento pode reforçar a não escolha deste método.

A pesquisa revelou ainda que os residentes na ilha possuem uma percepção significativamente maior sobre tubarões e podem ser agentes transformadores na conservação desses animais para os visitantes à ilha: somente 43% entre os brasileiros concordaram que mergulhar com tubarões é fascinante, em contraste com os 90% dos residentes.

Quando perguntados sobre a melhor forma de mitigação, por parte dos três grupos há um grande desejo de educar o turista sobre evitar possíveis incidentes (51%), seguido pelo uso de câmeras e drones (45%). Cerca de 78% dos turistas na ilha querem ser informados ou educados para garantir uma visita segura à ilha.

Foi observado o desejo para uma maior proteção dos tubarões em Fernando de Noronha pela maioria dos entrevistados. Ao considerar a opção de Fernando de Noronha fazer parte de um possível santuário para os tubarões, 87% dos brasileiros se mostraram a favor. O número sobe para 95% dos brasileiros classe AB, potenciais visitantes à ilha. Além disso, quatro em cinco residentes concordaram que essa determinação vai atrair mais turistas para Fernando de Noronha.

A posição da Sea Shepherd é de que, por causa do importante papel que os tubarões exercem na manutenção da saúde do oceano e na proteção de todo o ecossistema, a criação de um santuário de tubarões garante uma proteção mais formalizada dessas espécies. Essa classificação também provê uma série de benefícios culturais e comportamentais, que são essenciais para mudar a narrativa sobre esses seres fascinantes, além de estimular um turismo mais consciente e sustentável.

Os resultados completos da pesquisa estão à disposição no link https://seashepherd.org.br/87-dos-brasileiros-aprovam-possivel-titulo-de-santuario-de-tubaroes-para-fernando-de-noronha/.

Informação que gera ação

Como resposta a esses aprendizados, a Sea Shepherd trabalha com parceiros na ilha para colocar em prática os dois métodos eficazes para garantir uma melhor coexistência entre humanos e tubarões: educação e observação com drones.

São oferecidas capacitações para guias credenciados ao ICMBio, pessoas voltadas ao turismo, mergulhadores e para o público em geral. Toda sexta-feira, a partir das 19h30, acontecem palestras para turistas e residentes, na sede do Projeto Tamar. Além disso, os voluntários da Sea Shepherd seguem prestando informações aos turistas e guias na praia do Sueste.

Nos últimos dois meses, vem sendo realizado um monitoramento diário com drones na baía do Sueste, de forma voluntária, por Fábio Borges, da Hydrosphera Produções e Sea Shepherd Brasil, e Rihel Venuto, da Mysticeta Research e ICMBio. Os dados levantados têm ajudado tanto na compreensão do uso dessa área pelos tubarões-tigre, espécie envolvida em incidentes, como também na tomada de decisões por parte do ICMBio quanto ao uso público da praia.

De acordo com Fábio, documentarista e coordenador da Sea Shepherd em Fernando de Noronha, a maioria dos ilhéus, incluindo guias, condutores e outros envolvidos diretamente no turismo, já têm uma boa noção da necessidade de proteger os tubarões e o ambiente como um todo. “Esse é um tema que ainda provoca muito interesse, dúvidas e percepções equivocadas. Nesse sentido, percebemos que desde o início da campanha, houve uma evolução na compreensão do status de conservação dos tubarões e do importante papel ecológico que desempenham, assim como uma melhora na qualidade das informações repassadas aos turistas”, explica.

A Sea Shepherd Brasil propõe ainda um estudo científico para monitorar a distribuição e abundância de tubarões no arquipélago e sugere aumentar a extensão da área protegida. A pesquisa está sendo planejada junto a especialistas e ao ICMBio Noronha.

Por Marcelo Barros

Fonte: DefesaTV