Nova coordenadora quer pôr fim ao mito do CCZ de Campo Grande (MS) e criar política de ‘bem-estar’ animal

Nova coordenadora quer pôr fim ao mito do CCZ de Campo Grande (MS) e criar política de ‘bem-estar’ animal
Anny Malagolini (Foto: Reprodução)

Após anos envolto em polêmicas sobre a morte e a captura de animais, o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) de Campo Grande deve passar pela primeira vez por mudanças em sua política. Sob o comando do local há poucos dias, a veterinária Iara Domingos comentou os desafios da gestão, e adiantou os planos de acabar com o mito de ‘matadouro’ que o local ganhou nos últimos anos.

Um dos mitos de que a veterinária se refere é sobre o sacrifício de animais, que em anos passados chegou a 1,3 mil mensalmente, como em 2013: 16 mil execuções. Em março deste ano, o CCZ da Capital eutanasiou 630 cães e gatos dos 725 recolhidos; média diária de 21 sacrifícios. O número corresponde a 86% dos animais que passaram pelo centro no mês passado. Desse total, 85 (11%) foram adotados. Os outros 10 (4%) estão à espera de um novo lar.

A veterinária explicou que as regras fixadas pelo CCZ indicam que os animais são sacrificados em críticos, que apresentam leishmaniose, cinomose em estado avançado, e que estavam em estado de abandono. Iara salientou que com o animal leishmaniose, só pode passar pela eutanásia com a autorização do responsável, ainda que o estado seja grave, em cumprimento a liminar da Justiça de Mato Grosso do Sul, que autoriza o tratamento da doença em cães do Estado.

“Nenhum veterinário gosta de matar animal, muito menos se esse animal não precisa ser morto”, defendeu. Outro problema apontado por ela é o descarte de animais. “É nossa luta diária para diminuir esse abandono que as pessoas fazem, de que o CCZ tem a obrigação de ficar com o animal quando não se quer mais”, criticou.

Bem-estar animal

Para pôr fim as polêmicas, Iara destacou que que o órgão está “entrando em uma nova era”, e demonstrou interesse em praticar ações que envolvam a população, para que as adoções sejam responsáveis e o descarte de animais não continue banalizado, políticas que já funcionam em cidades como São Paulo e Curitiba. “O centro estará aberto a todos, temos que mudar a mentalidade de que é só mais um bicho. Não! É um animal. É começar a olhar como indivíduo. É a humanização”.

A prática deste modelo de gestão, segundo a servidora, o município estaria disposto a criar o ‘Conselho Municipal de Bem-Estar’, onde todas as ações serão legalizadas e respaldadas por lei. “Eu, como funcionária pública, só posso fazer aquilo que estiver escrito em algum lugar mandando que eu faça, nada mais posso fazer. Tudo desde que não esteja proibido em lei. Não posso criar coisas da minha cabeça. Porque depois serei punida por isso”, explicou.

Campo Grande instituiu em 2014 programa Bem-Estar Animal, conforme a Lei n. 5.392, tem foco no controle reprodutivo de cães e gatos, combate e prevenção da leishmaniose e outras zoonoses, além do registro, vacinação, vermifugação e coleiras de proteção, com o apoio de uma unidade móvel. Mas na prática, nenhuma dessas ações existem.

Mas para a veterinária, a burocracia é o maior enfrentamento que o CCZ tem em frente para colocar em ação práticas que visam o melhor tratamento do animal, por causa da “resistência do Ministério da Saúde, que destina recursos somente para o tratamento de zoonoses”, relatou. “Hoje não se pode usar dinheiro do SUS no bem-estar animal, a não sei que o tratamento tenha algo sobre a saúde humana. Hoje, por exemplo, o dinheiro que se tem para a castração animal sai de outra fonte, não sai do montante que vem do governo federal. Existe portaria severa do Ministério da Saúde em relação a isso”.

Aumento das castrações

Apesar das limitações do centro, ela confirma querer mudar esse cenário, mas para isso vai precisar do apoio. “Castrar é a solução mais eficaz para conter o aumento desenfreado dos bichos de rua e custa menos de 20 reais por operação”, comentou. Um dos pontos abordados por ela é a expansão das castrações, que hoje são limitadas. Iara lembra que até 2012, eram realizados 1,3 mil procedimentos gratuitos por mês, quantidade que caiu pela metade a partir de 2013. Hoje em dia são 20 cirurgias diariamente, em torno de 600 por mês.

Fonte: Ponta Porã Informa


Nota do Olhar Animal: Certamente que o massacre de animais em CCZs não é um “mito”, como a própria matéria atesta. A palavra mais correta neste caso é “fama”, à qual os CCZ fazem jus. Outros termos mal usados são “eutanásia” e “sacrifício”. O que ocorria (e ainda ocorre) em muitos CCZs chama-se “extermínio”. Não há qualquer caráter misericordioso na matança indiscriminada que ocorre em muitos deste locais.

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