O conflito entre defesa dos animais e ambientalismo no que diz respeito a intervenções que afetam os animais selvagens

O conflito entre defesa dos animais e ambientalismo no que diz respeito a intervenções que afetam os animais selvagens
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Por Luciano Carlos Cunha[1]

 1. A situação dos animais na natureza, em decorrência dos processos naturais

Muitas práticas humanas prejudicam direta ou indiretamente os animais que estão na natureza. Entretanto, nos últimos anos vários autores têm apontado que, se os animais merecem consideração, parar de prejudicá-los não é o bastante[2]. Isso porque, ao contrário do que comumente se pensa, os animais já são altamente prejudicados pelos processos naturais, com total independência das ações humanas. Fome, sede, doenças, desastres naturais e eventos meteorológicos hostis, por exemplo, são a norma na natureza[3]. Além disso, a maioria das espécies de animais possui ninhadas gigantescas (com milhares ou mesmo milhões de filhotes, dependendo da espécie) – algo comum em anfíbios, répteis, peixes e invertebrados em geral. Em períodos de aproximada constância populacional é possível medir a taxa de mortalidade prematura a partir do tamanho da ninhada: se a população permaneceu aproximadamente constante durante algumas gerações, isso é um indicador de que em média sobreviveu apenas um descendente por adulto (isto é, dois por ninhada, e menos do que isso se há adultos que se reproduzem mais de uma vez na vida)[4]. Isto é, em decorrência dos processos naturais, para cada animal que consegue sobreviver, milhares ou mesmo milhões nascem apenas para experimentar quase que somente (ou mesmo somente) sofrimento extremo e morrer muito prematuramente. A quantidade de animais que padece desse destino é tão gigantesca que faz até mesmo os números da exploração animal, que já são enormes, quase desaparecerem em comparação[5]. Isso é assim não por conta de efeitos diretos ou indiretos de práticas humanas: já era assim muito antes do aparecimento da espécie humana.

 2. Intervenções na natureza para ajudar os animais e intervenções para matá-los

Por conta das razões apontadas acima, nos últimos anos tem surgido uma proposta de pesquisar maneiras de minimizar o sofrimento e as mortes prematuras dos animais que estão na natureza[6]. Curiosamente, essa proposta por vezes recebe rejeição mesmo por parte de quem se preocupa com os animais. Mais curiosamente ainda, programas ambientalistas de intervenção na natureza que envolvem a matança de animais selvagens[7] (como o extermínio de animais que são membros de espécies classificadas como invasoras, por exemplo) recebem ampla aceitação, inclusive de várias pessoas que se preocupam com os animais.

Um dos motivos pelos quais isso acontece é simplesmente o fato de as pessoas terem uma ideia equivocada em relação a ambos os tipos de proposta. Na visão comum, a proposta de ajudar os animais selvagens, ou não percebe que ajudá-los pode ter consequências negativas em longo prazo, ou sabe disso mas defende ajudar mesmo que o resultado seja pior do que aquele decorrente de não ajudar. Isto é, na visão comum, a proposta de ajudar os animais selvagens, ou é ingênua, ou é inconsequente. De acordo com essa mesma visão, as intervenções ambientalistas matam uma boa quantidade de animais, mas apenas porque essa é a única maneira de garantir que, daqui para frente, não haja uma quantidade ainda maior de sofrimento e de mortes prematuras de animais. Segundo essa visão comum, isso fica evidente pelo fato de as intervenções ambientalistas almejarem preservar a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, além de serem bem informadas pela ciência da ecologia (o que faz com que saibam quais serão as consequências em longo  prazo, diferentemente do que acontece no caso dos proponentes de diminuir o sofrimento dos  animais selvagens).

Nos itens a seguir, defenderei que essa visão comum entende de modo completamente equivocado ambas as propostas, e que essa percepção equivocada quanto a esses casos específicos de intervenção na natureza são exemplos específicos da confusão mais geral em relação a quais são as metas do ambientalismo e da defesa dos animais.

3. Por que a visão comum está equivocada quanto à meta ambientalista

Uma parte do público aprova as intervenções ambientalistas porque acredita que elas almejam conseguir o melhor estado de coisas para os animais. Isso fica evidente em afirmações do tipo: “os defensores dos animais devem apoiar as medidas ambientalistas, pois os animais precisam do meio ambiente enquanto recurso”. A seguir, veremos onde está o equívoco com essa visão.

De acordo com a visão comum, ambas as propostas – defesa animal e ambientalismo –  possuem a mesma meta (conseguir o melhor mundo para os seres sencientes) mas discordam em relação aos meios para alcançar essa meta. Mas, isso é falso. A divergência fundamental entre essas duas propostas é quanto aos fins, não quanto aos meios. O que o ambientalismo almeja com a matança de animais não é um mundo melhor para os animais. Pelo contrário: o que o ambientalismo valoriza em si são certas entidades não sencientes, como espécies (e não seus membros) e ecossistemas (e não seus habitantes), ou propriedades dessas entidades, como o grau de biodiversidade e de equilíbrio ecológico[8]. O ambientalismo defende que essas entidades possuem valor em si (e não enquanto recurso para os seres sencientes). O ambientalismo não quer preservar o meio ambiente enquanto recurso para os animais. Pelo contrário, nessa visão normalmente os animais é que são vistos como meros exemplares de espécies e como peças para a manutenção dos ecossistemas. É por essa razão que os ambientalistas defendem que não há nada de errado com a exploração animal, apesar de todo o sofrimento e mortes que ela causa, desde que seja feita de maneira sustentável[9]. É por essa mesma razão que os programas ambientalistas de controle populacional normalmente envolvem matar os animais, descartando completamente a opção de esterilizá-los[10].

Uma das razões pelas quais há no senso comum essa confusão em relação à meta que o ambientalismo visa alcançar é que a retórica ambientalista tende a colocar as coisas em termos de “preservar x destruir” o meio ambiente. Como o ambientalismo lida com questões que afetam os animais selvagens, o público tende então a pensar que aquilo que almeja é preservar o meio ambiente enquanto recurso para os animais. Essa retórica causa confusão, pois o meio ambiente pode ser preservado nas mais distintas configurações. Se nosso objetivo é o bem dos animais, então defenderemos que o meio ambiente deve ser mantido na configuração que for melhor para os animais. Por exemplo, se modificar a configuração natural de certo ecossistema for diminuir o sofrimento e o número de mortes dos animais, é isso o que defenderemos fazer se nosso objetivo é o bem dos animais. Já as configurações valorizadas pelo ambientalismo variam de acordo com cada corrente ambientalista, mas nenhuma dessas configurações é baseada na preocupação com o bem dos animais. As configurações de ecossistemas são valorizadas pelo ambientalismo de acordo com seu grau de diversidade[11], complexidade[12], raridade[13], do tempo que levou para se formar[14], do grau de ausência de intervenção humana[15], do grau com que exibe certas propriedades estéticas[16], do grau com que representa certos ideais[17] etc. Ambientalistas defenderão manter os ecossistemas em configurações que exibem em maior grau essas propriedades, mesmo que isso aumente a quantidade de sofrimento e de mortes de animais ao longo do tempo. Isso tudo fica oculto quando a questão é colocada em termos de “preservar x destruir”, pois esconde que há várias configurações nas quais um ambiente é possível de ser preservado, e que as configurações valorizadas pelo ambientalismo não tem a ver com o bem dos animais.

Por exemplo, ao avaliar qual tipo de vegetação é melhor que esteja presente em determinado ecossistema, uma ética baseada na senciência seria guiada por um critério como “qual delas resulta em menor quantidade de sofrimento e mortes prematuras para os animais afetados?”. Já uma posição ambientalista seria guiada por critérios como “qual delas apresenta a vegetação nativa?” ou “qual aumenta a biodiversidade?”. Está claro então que tratam-se de metas muito distintas uma da outra.

 4. Por que a visão comum está equivocada quanto à proposta de ajudar os animais

A visão comum sobre a proposta de ajudar os animais selvagens também é equivocada. Em primeiro lugar, não há nenhum de seus defensores que afirme que devemos ajudá-los mesmo se as consequências de prestar ajuda forem piores do que as de não ajudar. Pelo contrário, o que defendem é pesquisar como aumentar o número de casos em que ajudar tem maior probabilidade de ter saldo positivo. Em segundo lugar, seus proponentes estão cientes da complexidade das interações nos ecossistemas e de que estimar os efeitos em longo prazo não é algo fácil. Entretanto, o que defendem é a criação de um campo de pesquisa, chamado biologia do bem-estar[18], cujo objetivo seria estudar como os animais são afetados em seus ecossistemas do ponto de vista do que é positivo ou negativo para o seu próprio bem-estar – isto é, enquanto indivíduos passíveis de serem prejudicados ou beneficiados, e não enquanto componentes de ecossistemas ou exemplares de espécies (como é feito na biologia da conservação). A biologia do bem-estar incorporaria conhecimentos de áreas como ecologia, zoologia, ciência do bem-estar animal e ciência veterinária. O conhecimento proveniente da biologia do bem-estar poderia informar os programas de ajuda, tornando-os cada vez mais seguros e eficientes. Em resumo, o que os proponentes de diminuir o sofrimento dos animais selvagens estão a defender é que estudar a situação de maneira aprofundada tem maior probabilidade de resultar em melhores consequências em longo prazo do que deixar essa questão de lado e “deixar a natureza seguir o seu curso”.

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Aquela meta que o senso comum atribui equivocadamente ao ambientalismo (diminuir o sofrimento e as mortes dos animais ao longo do tempo) é justamente a meta da proposta de ajudar os animais selvagens. Nessa proposta, diferentemente do que acontece no caso do ambientalismo, o bem dos animais é a meta: os animais são valorizados em si enquanto indivíduos capazes de sofrer e desfrutar, e não enquanto meras peças para a manutenção de ecossistemas ou meros exemplares de espécies, como ocorre no ambientalismo.

Essa proposta também pode ser bem informada cientificamente: o conhecimento científico não precisa estar restrito a informar medias antropocêntricas ou ambientalistas. Por exemplo, a ecologia lida com categorias como espécies e ecossistemas, mas isso não implica que, para se obter conhecimento em ecologia ou para se utilizar o conhecimento já existente, seja necessário incorporar uma perspectiva que valoriza em si entidades como espécies ou ecossistemas, e não os indivíduos sencientes. Isso é assim porque uma coisa é o conhecimento científico, descritivo, e outra coisa são as metas normativas que guiam o uso desse conhecimento e a busca por novos conhecimentos[19]. Isso mostra que não são apenas as intervenções ambientalistas que podem ser bem informadas cientificamente. Pensar que sim é confundir a ecologia (a ciência que descreve como se dão as interações nos ecossistemas) com o ambientalismo (apenas uma das várias perspectivas normativas que poderia se basear nos conhecimentos da ecologia para tentar alcançar suas metas). O conhecimento proveniente da ecologia é atualmente mais utilizado para alcançar metas ambientalistas mas, em décadas passadas era predominantemente utilizado para alcançar metas antropocêntricas. Entretanto, o conhecimento proveniente dessa área (e de outras) poderia ser utilizado igualmente para tentar alcançar a meta de diminuir o sofrimento e as mortes dos animais.

5. Uma maneira de entender bem a diferença: imaginar histórias completas de mundo

Dado o que vimos, é um erro pensar que as intervenções ambientalistas escolhem prejudicar os animais agora para alcançar o melhor para os animais em longo prazo. Da mesma maneira, é um erro pensar que as intervenções para ajudar os animais beneficiam alguns animais agora e negligenciam o impacto disso em longo prazo. Reparar em quais critérios seriam utilizados por ambos os tipos de perspectiva para avaliar o quão boa ou ruim seria a história completa do mundo ajudará a perceber as diferenças de metas entre essas perspectivas[20] – evitando-se assim qualquer confusão que possa surgir entre o que uma perspectiva almeja em curto e em longo prazo. Defensores dos animais avaliarão a história completa do mundo com base em como os seres sencientes serão afetados positiva ou negativamente[21]. Perspectivas ambientalistas, pelo contrário, avaliação essa história completa do mundo a partir do quão preservadas estão certas entidades não sencientes – estas sim, valorizadas em si pelo ambientalismo. Por exemplo, avaliarão se os ecossistemas se encontrarão em certas configurações valorizadas pelo ambientalismo. Como vimos, essas configurações não dizem respeito ao bem dos seres sencientes, mas por exemplo, ao grau com que o ecossistema exibe certas propriedades estéticas, seu grau de complexidade, diversidade ou de raridade, se exibe ou não somente membros de espécies nativas, no quão pouco foi transformado por humanos, etc. Isso significa que os ambientalistas poderiam dizer que uma história completa de mundo é melhor (caso apresente em maior grau os ecossistemas naquelas configurações), mesmo que seja muito pior para os seres sencientes (por exemplo, mesmo que contenha muito mais sofrimento e mortes prematuras, menos vidas positivas etc.).

6. Equilíbrio ecológico e biodiversidade coincidem com o que é melhor para os animais?

Poderia ser objetado que, apesar de ambas as perspectivas possuírem metas muito distintas, buscar a biodiversidade e o equilíbrio ecológico coincide com o que é melhor para os animais. Entretanto, ao contrário do que por vezes se imagina, essas noções (biodiversidade e equilíbrio ecológico) não são baseadas no bem dos seres sencientes, e não dependem deste. É possível que uma situação tenha um alto grau de biodiversidade e/ou de equilíbrio ecológico, mas também nela sejam maximizados o sofrimento e as mortes prematuras dos seres sencientes. É possível até mesmo que, dadas duas situações, a que apresentar maior grau de biodiversidade e/ou de equilíbrio ecológico seja muito pior para os seres sencientes.

Da maneira como é normalmente utilizada, a noção de equilíbrio ecológico diz respeito a uma certa estabilidade em relação a um estado tomado como referência (geralmente, em relação à variação no tamanho das populações mas, como vimos no item 3, os critérios mudam em cada variante do ambientalismo[22]). Já a noção de biodiversidade diz respeito à variedade de espécies. Há situações que são equilibradas e nas quais há alto grau de biodiversidade que podem ser terrivelmente ruins para os seres sencientes. Um exemplo é a própria situação citada no item 1, na qual há estabilidade populacional e biodiversidade mas as taxas de mortalidade prematuras e de vidas onde predominam largamente o sofrimento são na casa dos milhares ou mesmo milhões para cada animal que sobrevive até à idade adulta.

Poderia ser objetado que, se houvesse maior desequilíbrio ou menos biodiversidade, então o sofrimento e as mortes prematuras seriam ainda maiores. Entretanto, não é assim. Tudo dependerá de se o maior ou menor grau de equilíbrio ou de biodiversidade resultam em uma maior quantidade de nascimentos em espécies de animais cuja maioria geralmente nasce apenas para sofrer e morrer bastante prematuramente ou em espécies de animais que seus membros tem mais chances de terem vidas positivas. Não há nenhuma correlação direta entre maiores níveis de equilíbrio ecológico ou de biodiversidade com a prevalência de vidas positivas sobre as negativas, e de vidas longas sobre as curtas.

Em resumo: equilíbrio ecológico e biodiversidade apenas coincidentemente poderiam resultar em algo melhor para os animais, e muitas vezes resultam em situações altamente negativas para eles. Portanto, se o objetivo é conseguir o melhor estado de coisas para os animais, e se é possível investigar diretamente como os animais são afetados positiva ou negativamente, se basear no grau de biodiversidade ou de equilíbrio não é uma boa ideia.

7. Por que existe essa confusão?

Se ambientalismo e consideração pelos animais possuem objetivos tão opostos, por que são tão frequentemente confundidos? Por vários motivos. Vimos no item 3 que um motivo possível é a retórica que tende a colocar a questão em termos de “preservar x destruir o meio ambiente”, ocultando que é possível preservá-lo em várias configurações distintas, e que a configuração almejada pelo ambientalismo não é a melhor (ou sequer minimamente boa) para os animais. Outro motivo é simplesmente o desconhecimento do que os ambientalistas realmente defendem. Por exemplo, muitos dos representantes centrais da ética ambiental (de correntes diversas como ecocentrismo[23], biocentrismo[24], ecologia profunda[25], ecologia social[26] e ecofeminismo[27]) se posicionam explicitamente contra a consideração moral plena dos animais não humanos[28]. Outros possíveis motivos, como vimos, são as crenças equivocada de que biodiversidade e equilíbrio ecológico coincidem com a melhor situação para os animais e de que, para se obter e utilizar conhecimento na área de ecologia, é necessário adotar uma postura normativa ambientalista.

Outra possível raiz a da confusão é o fato de que o discurso ambientalista costuma enfatizar o benefício que suas intervenções por vezes causam aos animais, e isso pode dar a entender que valorizam em si o bem dos animais. Entretanto, por vezes os os animais são ajudados por ambientalistas somente porque em certos casos ajudá-los é um meio para alcançar outras metas – como a preservação de certas espécies ou manter o ecossistema em certa configuração preferida pelos ambientalistas – estas sim, valorizadas em si pelo ambientalismo. A prova de que a meta do ambientalismo não é o bem dos animais é que, quando os animais são de espécies abundantes (ou são de espécies não valorizadas pelo ambientalismo) os ambientalistas defendem, em vez disso, programas de matança e/ou o uso desses animais enquanto recursos.

Além disso, o discurso ambientalista tende a destacar que os animais que são o alvo da matança (normalmente nomeados pelos ambientalistas como pragas) causam danos aos outros animais de espécies que os ambientalistas visam preservar[29]. Novamente, isso pode dar a entender equivocadamente que a meta ambientalista é diminuir a taxa de sofrimento e mortes totais para os animais, mas é importante observar que os danos causados pelos animais que são membros das espécies  que os ambientalistas valorizam e os danos que sofrem os animais que são membros das espécies que são alvo da matança não são mencionados. Se a preocupação fosse com os seres sencientes em geral, danos de igual magnitude receberiam igual peso, independentemente de se são sofridos ou causados por membros de uma espécie rara ou abundante, nativa ou invasora etc. Definitivamente, não é o que acontece nas intervenções ambientalistas.

8. Há intervenções que defensores dos animais e ambientalistas poderiam concordar?

Vimos que a defesa dos animais e o ambientalismo partem de ideais opostos que, na prática, frequentemente resultam em prescrições conflitantes. Entretanto, em relação a ajudar os animais selvagens, há vários tipos de propostas que tanto defensores dos animais quanto ambientalistas poderiam apoiar, ainda que por razões distintas.

Em primeiro lugar, é interessante observar que as três grandes correntes ambientalistas não tem nenhuma razão para se opor à vasta maioria dos programas para ajudar os animais selvagens[30]. Comecemos pelo ecocentrismo[31], que valoriza determinados ecossistemas (por serem muito complexos, muito raros, terem se formado há muito tempo etc.). A maioria das intervenções para ajudar os animais não extinguiria esses ecossistemas nem alteraria as propriedades dos ecossistemas que os ecocentristas valorizam – apenas faria com que houvesse menos sofrimento e mortes prematuras para seus habitantes. Já o naturocentrismo[32] teria de aceitar um número ainda maior de intervenções para ajudar os animais do que o ecocentrismo teria que aceitar, pois o naturocentrismo valoriza apenas aqueles ecossistemas que ainda não foram, ou foram pouco, alterados por atividades humanas. Dadas as mudanças climáticas decorrentes de práticas humanas, com exceção de talvez alguns ecossistemas nas profundezas do oceano, todos os ecossistemas foram já bastante alterados por práticas humanas. Portanto, o naturocentrismo teria que aceitar ajudar os animais em todos esses ecossistemas. Por fim, o biocentrismo[33] valoriza o que chama de “bem próprio” de cada organismo vivo, senciente ou não. O biocentrismo tem de então aceitar ainda mais intervenções do que os defensores dos animais têm que aceitar, pois precisa buscar garantir o bem dos seres sencientes e, adicionalmente, proteger também os organismos não sencientes[34].

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Em segundo lugar, existem programas de ajuda a animais selvagens que poderiam ajudar a realizar tanto a meta de diminuição do sofrimento e mortes dos animais quanto as metas ambientalistas. Um exemplo é a vacinação de abelhas[35]. Ambientalistas têm razões para aprovar esses programas por preocupação com o risco de extinção de espécies de abelhas. Já defensores dos animais têm razões para aprovar esses programas porque a vacinação é positiva para as próprias abelhas, impedindo que fiquem doentes e morram. Outro exemplo nesse sentido é a proteção de grandes herbívoros, como elefantes. Os ambientalistas têm razões para protegê-los porque há várias espécies de elefantes em risco de extinção. Já os defensores dos animais têm duas fortes razões para apoiar esse tipo de programa. A primeira, é que diminui o sofrimento e as mortes dos próprios elefantes, que são então vacinados, medicados, recebem água, comida, abrigo etc.[36] A segunda – e mais importante – é que elefantes consomem uma grande quantidade de vegetação que, se estivesse disponível, contribuiria para haver uma maior quantidade de reproduções naquelas espécies de animais que maximizam a quantidade de filhotes e cuja vasta maioria nasce apenas para sofrer e morrer prematuramente[37]. Em resumo, proteger grandes herbívoros contribui para que seja diminuída drasticamente a quantidade de animais que nasceria apenas para sofrer e morrer.

Esses são apenas alguns exemplos de intervenções para diminuir o sofrimento e as mortes prematuras de animais selvagens que tanto defensores dos animais quanto ambientalistas poderiam apoiar, apesar das grandes diferenças entre essas perspectivas.

 9. Conclusão

A defesa dos animais e o ambientalismo possuem metas completamente distintas. É por essa razão que essas perspectivas conduzem programas muito distintos em relação aos animais que vivem na natureza. Assim, se nosso objetivo é beneficiar os animais, temos fortes razões para rejeitar os programas ambientalistas que envolvem prejudicá-los. Em vez disso, temos razões para apoiar programas que realmente visem ajudar os animais, como a biologia do bem-estar. Além disso, vimos também que, apesar de todas as suas divergências em termos de metas e fundamentos, há vários tipos de programas de ajuda a animais selvagens que tanto defensores dos animais quanto ambientalistas poderiam apoiar, ainda que por razões distintas.

Vimos também que duas crenças comuns são equivocadas: (1) a de que a meta ambientalista é uma história completa de mundo com menos sofrimento e mortes dos animais e; (2) a de que a proposta de ajudar os animais selvagens não é cientificamente bem informada. Essas crenças equivocadas conduzem várias pessoas a aceitarem os programas ambientalistas que envolvem matanças de animais e a rejeitarem a proposta de ajudar os animais na natureza. Entretanto, vimos que aquilo que as pessoas que mantêm essas crenças esperam equivocadamente dos programas ambientalistas está a ser proposto de maneira cientificamente bem informada justamente pela proposta de ajudar os animais selvagens. Em resumo, essas pessoas já aceitam a meta de ajudar os animais selvagens; só estão confusas em relação a qual proposta realizará essa meta.

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Notas

[1] Doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, coordenador geral das atividades da Ética Animal no Brasil (www.animal-ethics.org/pt). Contato: luciano.cunha@animal-ethics.org

[2] Ver por exemplo Bonnardel (1996); Cowen (2003); Cunha (2022); Faria (2016); Faria e Paez (2015); Fink (2005); Horta (2010a; 2011); Johannsen (2020); Mannino (2015); McMahan (2015); Pearce (2015); Sapontzis (1984); Tomasik (2015) e Torres Aldave (2015).

[3] Ver Animal Ethics (2020, p.16-60) e Cunha (2022, p. 19-34).

[4] Sobre isso, ver Horta (2010a, 2011), Animal Ethics (2020, p. 55-59) e Cunha (2022, p. 28-34).

[5] Sobre isso, ver Tomasik (2019).

[6] Ver autores citados na nota 2. Ver também Faria e Horta (2020).

[7] Para exemplos desses programas, ver Conabio (2009) e Council of Europe (2016). Para exemplos de autores que defendem esses programas, ver Callicott (1998); Eckersley (1992, p. 46-47); Hettinger (1994, p. 13-14); Rolston (1999, p. 260-61) e Warren (2000, p. 228). Para uma crítica às intervenções ambientalistas que envolvem matança de animais, ver Shelton (2004), Horta (2010b), Faria (2012), Cunha (2021, p. 131-143) e Etica Animal (2021).

[8] Exemplos de proponentes das várias correntes de ambientalismo serão referidos nos itens 7 e 8.

[9] Para exemplos, ver o posicionamento das seguintes organizações ambientalistas:  Convervation International ‌:https://www.conservation.org/brasil/iniciativas-atuais/pesca-sustentavel; EcoCanadá: https://eco.ca/blog/what-is-sustainable-fishing/; Fundo Amazônia: http://www.fundoamazonia.gov.br/pt/projeto/Pesca-Sustentavel/;

GreenPeace:https://www.greenpeace.org.uk/challenges/sustainable-fishing/;

Iberdrola:https://www.iberdrola.com/compromisso-social/pesca-sustentavel; National Geographic Society: https://www.nationalgeographic.org/encyclopedia/sustainable-fishing/ Marine Stewardship Council: https://www.msc.org/pt/o-nosso-trabalho/o-nosso-proposito/o-que-e-a-pesca-sustentavel; SeaFood Watch: https://www.seafoodwatch.org/; Sustainable Fisheries Partnership : https://sustainablefish.org/;WWF; https://www.wwf.org.br/natureza_brasileira/areas_prioritarias/amazonia1/nossas_solucoes_na_amazonia/pesca_sustentavel/. Acessados em 16 nov. 2021.

[10] Para um relato e uma crítica, ver Ética Animal (2021).

[11] Rolston (1992, p. 254).

[12] Attfield (1987a, cap. 5) e Rolston (1988, p. 72-3, 184-6).

[13] Eckersley (1992, p. 46, 47).

[14] Kirkwood e Sainsbury (1996, p. 239).

[15] Elliot (1982, p. 81-93).

[16] Leopold (1949, p. 224-225) e Hargrove (1989, p. 167, 178).

[17] Sagoff (1974, p. 228).

[18] Sobre biologia do bem-estar, ver Faria e Horta (2020) e Animal Ethics (2021, p. 136-182).

[19] Sobre essa distinção, ver Cunha (2022, p. 186-190).

[20] Para uma análise detalhada do conflito entre ética animal e ambiental, ver Dorado (2015).

[21] Para um exemplo dessa abordagem, ver Ética Animal (2019).

[22] Uma situação será considerada equilibrada ou não dependendo do quão parecido está o ecossistema com o estado em que se encontrava no momento tomado como ponto de referência. Entretanto, como qualquer instante no tempo (e, portanto, qualquer configuração em que o ecossistema se encontre) pode ser tomado como ponto de referência, essa noção acaba sendo arbitrária. Por exemplo, os proponentes do ambientalismo classificam o grau com que uma situação é equilibrada de acordo com o quão bem ela promove o que os ambientalistas valorizam em si. Por exemplo, se “equilíbrio ecológico” for definido como “aquela situação onde em cada local só há membros de espécies nativas”, então obviamente que a mera presença de membros de espécies não nativas causa um desequilíbrio ecológico. Entretanto, isso não indica se o sofrimento ou a quantidade de mortes aumentou o diminuiu. Para uma crítica às noções de equilíbrio ecológico e de estabilidade, e uma explicação do porquê esses conceitos não são mais utilizados em ecologia, ver Grimm e Wissel (1997) e Lévêque (2003, p. 204-228).

[23] Para exemplos, ver Callicott (1980, 1990, p. 103; 1992, p. 146-147; 1998; 2000, p. 211) e Leopold (2000, p. 135).

[24] Para exemplos, ver Schweitzer (1962 [1923] p. 354) e Varner (2002, p. 79).

[25] Para exemplos, ver Devall e Sessions (1985), Fox (1995) e Næss (1989, p. 167, 170; 1999, p. 148).

[26] Ver, por exemplo, a visão defendida por Bookchin (1994),

[27] Ver, por exemplo, a visão defendida por Warren (2000, p. 228).

[28] Pra exemplos adicionais, ver Hettinger (1994, p. 13-14), Linkola (2009), Rolston (1999, p. 260-61), Varner (1991, p. 177) e Wenz (1998, p. 308).

[29] Para um relato e uma crítica, ver Ética Animal (2021). Para exemplos dessa retórica por parte de ambientalistas, ver Davis (2018) e também a posição de Brent Beaven, coordenador de um programa de extermínio de animais exóticos, entrevistado em Roy (2020).

[30] Uma análise detalhada sobre esse ponto pode ser encontrada em Cunha (2015) e em Horta (2018).

[31] Exemplos de ecocentristas são Leopold (2000 [1949]) e Callicott (2000).

[32] Exemplos de naturocentristas são Elliot (1982) e Katz (1992).

[33] Exemplos de biocentristas são Attfield (1987b), Goodpaster (1978) e Taylor (1986). Há controvérsias sobre se o biocentrismo é realmente uma posição ambientalista, pois seus proponentes defendem que cada ser vivo é um indivíduo, e não uma parte do ambiente.

[34] Poder-se-ia pensar que o biocentrismo rejeitaria as intervenções que implicassem em menor quantidade de organismos vivos nascendo, mas isso é equivocado, pois a meta do biocentrismo não é maximizar a quantidade de seres vivos, mas garantir o bem próprio de cada organismo vivo.

[35] Sobre vacinação de abelhas, ver Raukko (2018).

[36] Sobre programas de proteção a elefantes, ver Pearce (2015)

[37] Sobre a relação entre a presença de elefantes e uma redução significativa da biomassa disponível, ver Cumming et al. (1997) e Guldemond e VanAarde (2008).

Fonte: Olhar Animal