ONG no Entorno abriga onças em extinção e vítimas do tráfico animal

ONG no Entorno abriga onças em extinção e vítimas do tráfico animal
Breno Esaki/Metrópoles

“Eu digo que o NEX não é um lugar para passear, mas de conscientização ambiental”. A fala, assertiva, é de Danda Gianni, 39 anos, coordenadora de projetos e filha dos fundadores da ONG que fica a cerca de 86 km de Brasília, no município de Corumbá (GO). A organização atua na defesa de uma espécie emblemática das matas brasileiras: a onça-pintada.

O No Extinction (NEX) foi fundado por uma família moradora do Distrito Federal com o objetivo de abrigar onças feridas ou sob algum tipo de risco, direcionadas por centros de triagem do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Alguns dos grandes felinos acolhidos pela ONG foram resgatados em operações contra o tráfico de animais.

Atualmente, a fazenda abriga 24 felinos, sendo 19 onças-pintadas – cinco delas de pelagem preta – , quatro suçuaranas e uma jaguatirica.

Inicialmente idealizado para receber apenas uma onça do Zoológico de Brasília, no início dos anos 2000, o instituto já acolheu mais 70 animais da espécie ao longos de mais de duas décadas de existência.

A história por trás da criação da primeira ONG do país a abrigar animais silvestres teve início com uma ideia audaciosa da mãe de Danda, a presidente e fundadora do instituto, Cristina Gianni, 75 anos.

Em uma visita despretensiosa ao zoológico da capital federal, a mulher soube da história da onça-parda Pacato. O felino, à época com 4 anos, estava em tratamento no local em decorrência de uma lesão na coluna e não tinha onde morar.

“O Pacato ficou muito tempo sem contato com a natureza. Ele já não se entedia com bicho, só com humanos. Não podia ir pro recinto do zoo, porque não se entendia com as outras onças. Não tinha outra alternativa. Botaram ele em um caixote de ferro. Tentaram com Ibama, ninguém dava solução. Minha mulher achou que aquilo não era razoável. Ela disse que ia dar um jeito. Falou que tinha uma fazenda e que ia cuidar dele”, relembra Silvano Gianni, 77 anos, diretor-executivo da ONG e esposo de Cristina.

Naquela época, a reação natural da equipe do zoológico foi negar o pedido de Cristina e dizer que não poderiam dar a ela um animal silvestre para abrigar. “Minha primeira reação quando ela me contou que queria abrigar uma onça foi achar que ela estava louca. A segunda, foi questionar se ela não queria cuidar de borboleta: ‘Tem mesmo que ser uma onça?’ e, por fim, embarquei com ela de cabeça nessa ideia”, relembra Silvano.

Foi então que o casal, em conjunto com o Ibama e Casa Civil da República, criou uma legislação para que locais privados pudessem receber animais silvestres e ser responsáveis por eles.

“A responsabilidade virou toda nossa. Somos os pioneiros, abrimos espaço para outras pessoas, e não recebemos nenhum subsídio do Estado para cuidar dessas onças. O destino jogou a gente nesse mundo. Foi um ano de tramitações até que o Pacato viesse para a nossa fazenda”, diz o diretor.

No Brasil, o NEX é, até hoje, a única ONG que abriga exclusivamente animais dessa espécie. O projeto depende única e exclusivamente do apoio da sociedade para sobreviver.

Conscientização

Apesar da presença dos felinos em praticamente todos os biomas do país, eles são quase lendas para boa parte dos brasileiros. A maioria das pessoas, se não os viram por fotos, contemplaram o animal, no máximo, preso em um zoológico.

Visto que o ser humano é o único predador da onça-pintada, para sua própria segurança e instintos selvagens, o felino deveria se manter longe. No entanto, a falta de familiaridade com o animal também pode afastar as pessoas de conhecer a situação de risco em que a espécie se encontra. Queimadas, caçadores, desmatamento e tráfico de animais ameaçam a vida da onça no Brasil.

Danda conta que um dos intuitos do NEX era, além de fornecer abrigo ao Pacato, o local se tornasse um centro de pesquisa, para estudar e conhecer as particularidades da espécie, bem como entender a importância dela na natureza.

A realidade de sofrimento desses felinos fez com que a família Gianni aceitasse o desafio de abrigar mais de um felino. “Existem animais que não estão aptos a voltar pra natureza. Seja por alguma sequela ou dificuldade de caça, que podem os impedir de sobreviver em seu habitat, ou por preservação do banco genético. Mas o ápice do nosso projeto é conseguir devolver aqueles com condições para a natureza”, detalha Danda.

O segundo a chegar na ONG ainda filhote foi o Sansão, nascido no Zoológico de Brasília. Atualmente, a onça-pintada é a mais velha do mundo em cativeiro, aos 23 anos.

“A mãe dele teve uma infecção pós-parto e não poderia amamentar, foi aí que pediram nossa ajuda. E, desde então, ele mora aqui no abrigo. A onça vive bem em cativeiro, vive mais do que na natureza. Na natureza, vive em torno de 15 anos, porque tem disputa de território, entre outros fatores. E, em cativeiro, em torno dos 20 anos”, esclarece ela.

Ao longo dos anos, a pedido do órgãos de proteção ambiental, o instituto também começou a fazer reprodução em cativeiro. E estuda, em parceira com um instituto norte-americano, realizar futuramente reproduções assistidas.

“O primeiro parto de onça filmado foi o NEX que fez. Até então, nem se sabia quanto tempo durava a gestação de uma onça, por exemplo. Até 2010, a gente não reproduzia no abrigo por uma questão de cultura, até que descobrimos que é necessário introduzir na natureza um animal nascido em cativeiro. Muita gente é contra, mas já provamos com cinco onças, inclusive na Argentina, que era um lugar que as onças estavam extintas há 70 anos”, ressalta a coordenadora.

Manutenção

Para alimentar as onças diariamente, com 3 a 5kgs de carne, manter os 19 recintos e pagar o salários dos funcionários – uma equipe de quatro pessoas – o gasto mensal gira em torno dos R$ 70 mil. Até o início de 2020, o local era mantido financeiramente pelos próprios fundadores e por meio de doações.

No entanto, com a crise ocasionada pela pandemia de Covid-19, a família viu a necessidade de abrir o local para visitação, após 18 anos de fundação.

“A gente nunca pensou que teria que abrir para a população para manter tudo isso. Mas a gente vê a importância de mostrar nosso trabalho para outras pessoas, entendemos que a educação e a conscientização só vem daquilo que a gente conhece, que a gente vê. Criadouros hoje nem são permitidas visitação, nós somos o único que tem a permissão de receber visita legalmente”, explica Danda.

Segundo Silvano, a visitação também dá uma maior visibilidade ao projeto e ajuda a manter as onças sendo cuidadas nas melhores condições possíveis. “Se elas não têm como voltar pra natureza, então vamos manter presa, mas sendo bem tratadas. As pessoas precisam entender que não é um projeto meu, não é em meu benefício. Eu estou fazendo isso para que o mundo fique melhor no futuro”, afirma.

Por conta da falta de apoio financeiro, a ONG teve que interromper diversas frentes de atuação, desde a pandemia, tais como: monitoramento, resgates, reabilitações e novos animais abrigados.

“O meio ambiente não é prioridade. Tenho união com algumas ONGs, a gente se abraçou pra divulgar o trabalho uma da outra. Nenhum candidato que se elegeu com a pauta ambiental ou animal nos ajuda de alguma forma, sequer respondem nossas mensagens. A gente tem uma parte triste dessa história, não basta apenas a gente querer soltar, a gente precisa de ajuda financeira. A gente treinou mais quatro onças pra serem livres, mas não conseguimos verba e tivemos que recondicioná-las ao cativeiro”, lamenta a mulher.

O pai de Danda também destaca que não há incentivo fiscal para aquelas empresas que contribuem com alguma instituição voltada para a proteção ambiental e florestal.

“Se você tem uma empresa e faz uma doação, você não tem isenção fiscal, você não é motivado a ajudar organizações sem fins lucrativos do meio ambiente. Já aconteceu duas ou três vezes de recebermos doações ocasionadas por infração ambiental. No caso, uma determinada empresa firmou um acordo judicial para reparar algum mal que fez pra natureza. E, para não ser julgado, fez doação para o nosso instituto, mas é raro acontecer”, indica o diretor.

Bastidores dos resgates

Entre as onças que vivem nos recintos no Instituto NEX, algumas chamam a atenção pelos bastidores trágicos dos resgates. “Temos aqui o Merlin, que levou um tiro na cabeça e ficou cego. Por conta da gravidade, ele perdeu um dos olhos também. É o retrato do quão cruel o homem é capaz de ser”, indica Danda.

“Precisamos reservar um local só para ele, porque é mais vulnerável e não consegue se defender. Outras mudanças que fizemos foram instalar corrimões para que ele se sinta mais seguro e criar um lago raso, porque onças amam nadar, mas como é cego, poderia se afogar”, explica.

Amanaci, uma onça que teve as patas queimadas em um dos incêndios no Pantanal, em 2020, é outra moradora que precisou de cuidados especiais. “Ela chegou aqui com os ossos das patas expostos. A recomendação era eutanásia, mas conseguimos salvar a vida dela com um tratamento pioneiro, com células-tronco, ozônio terapia e laser terapia “, lembra.

E quem acompanha de perto esses animais todos os dias é Rogério Silva de Jesus, 42 anos, o funcionário mais antigo da ONG. Ele começou a trabalhar no local aos 18 anos.

“Eu brinco que a gente tem nossos veterinários, mas quem sabe tudo das onças é ele. Ele vive isso aqui é a paixão a vida dele. O Rogério era um tratorista, prestava uns serviços pra comunidade, quando minha mãe trouxe a primeira onça, ele disse que queria trabalhar com a gente. Ele sabe absolutamente tudo sobre elas”, comenta Danda.

Onça “atriz”

A onça-pintada Matí, de 4 anos, uma das moradoras da ONG, foi escolhida pela Rede Globo para interpretar a Maria Marruá no remake da novela Pantanal, em 2022.

Ainda filhote, a onça precisou ser cuidada por humanos em outro local. A escolha para participar da produção não foi por acaso. Por precisar de cuidados constantes desde filhote, ela acabou se tornando o que os técnicos do Instituto chamam de “onça humanizada”, pelo temperamento mais “calmo”.

“Geralmente, depois que o animal não precisa dessa assistência, nós o ‘isolamos’ de nós e ele recupera seus instintos e agressividade. É um animal individualista e territorialista, que não aceita ser controlado. Mas com Matí não foi assim. Ela ficou mais dependente, e hoje não tem características comuns como soltar os esturros [o rugido da onça] e também não mostra as garras”, explica Gianni.

Para que as filmagens da novela fossem feitas em segurança, o animal foi acompanhado pela coordenadora de projetos, dois técnicos, três veterinários, além de bombeiros e seguranças no Pantanal, que tinham como objetivo impedir que outros animais se aproximassem.

Visitação

A ONG permite que visitantes conheçam a história de cada animal, bem como o trabalho desenvolvido pelos voluntários da instituição.

O tour começa às 9h30, com um café da manhã. Em seguida, os visitantes podem conhecer a história individual de cada onça, assim como o trabalho desenvolvido pelo NEX. Depois, o roteiro inclui uma pequena caminhada para um banho de cachoeira e um almoço. Após a refeição, há demonstração de como a onça é alimentada. E o passeio finaliza com um café da tarde.

A visita acontece somente em alguns fins de semanas, com grupos de até 30 pessoas. A entrada custa R$ 250 por pessoa, com todas as refeições inclusas. Crianças menores de 10 anos pagam R$ 150. Quem tiver interesse em agendar uma visita, pode entrar em contato pelo WhatsApp 61 99653-5687.

Doações e parcerias

Por meio do Instagram @nex_noextinction, que reúne mais de 136 mil seguidores, o público também pode obter mais informações sobre o projeto e conhecer um pouco da rotina dos animais.

Quem tiver interesse em ser um doador, as contribuições podem ser feitas diretamente para a seguinte conta bancária:

Instituto de Preservação
CNPJ: 04.567.090/0001-58 (Pix)
Banco do Brasil
Agência: 3413-4
Conta Corrente: 11689-0

Se alguma empresa se identificar e se sensibilizar com a causa do NEX, as parcerias podem ser firmadas por meio de contato pelo e-mail: noextinction.nex@gmail.com. Além de contribuições em dinheiro, a ONG também aceita doação de pneus, tela e madeiras em boas condições de uso para reparos nos recintos dos animais.

Por Thalita Vasconcelos

Fonte: Metrópoles