As máscaras da tolerância e da autoevidência

O anti-intelectualismo tem sido uma linha contínua a serpentear
através de nossa vida política e cultural, alimentada pela falsa noção
de que democracia significa que ‘minha ignorância
é tão boa quanto o seu conhecimento’

Isaac Asimov

1 – Introdução: a acusação de imposição e tirania

É cada vez mais comum a acusação de que, quem argumenta e analisa criticamente uma determinada posição (seja em questões de ética, seja em outros tipos de questões) está impondo o seu ponto de vista pessoal. É comumente afirmado: “Essas pessoas deveriam ser mais democráticas, mais tolerantes, e não, tirânicas”. O objetivo do presente texto é mostrar que tal atitude só pode vir de uma tremenda confusão entre defender uma conclusão com argumentos e impor uma preferência pessoal (e também de um entendimento totalmente errado do que é uma atitude democrática). Nesse texto, oferecerei argumentos para defender a seguinte tese: a de que, pelo contrário, são os discursos do tipo “tudo é muito relativo e uma crença não é mais verdadeira do que outra”; “precisamos de união e não de críticas” e “respeitar as pessoas implica em não afirmar que suas crenças estão erradas” que, por trás de uma máscara de tolerância, escondem uma verdadeira atitude tirânica e contrária ao ideal democrático.

Os discursos mencionados acima aparecem com frequência em qualquer questão polêmica. Aparece quando se discute se o especismo é justificável ou não; quando se discute sobre se deus existe ou não; ou quando estamos a discutir a moralidade do aborto e da eutanásia, por exemplo. Se pegarmos apenas essas quatro questões como exemplo, veremos que é frequente a acusação de que, quem defende o seu ponto de vista com argumentos é acusado de estar impondo uma preferência pessoal. A atitude apropriada diante de uma crença sobre a qual se discorda, segundo as pessoas que assim pensam, é não discuti-la. Avaliar criticamente uma crença da qual se discorda demonstra, no entender dessas pessoas, desrespeito não apenas por tal crença, mas também pelas pessoas que acreditam nela. Avaliar criticamente uma crença (seja moral ou não) da qual se discorda é, segundo essas pessoas, contrário ao ideal democrático e da tolerância. Gostaria de expor, a seguir, as razões pelas quais penso que essa atitude só pode vir de uma confusão total do que seja argumentar e do que seja o ideal democrático. Minha ênfase nesse tema deve-se a esse tipo de atitude crescer cada vez mais dentro do movimento de defesa animal, o que penso ser extremamente prejudicial não apenas para entendermos com clareza as questões que discutimos, mas, principalmente, para os próprios animais.

2 – Os tipos de tirania

Existem duas maneiras mais comuns de se praticar tirania. Por tirania, refiro-me a forçar outros indivíduos a fazer (ou deixar de fazer) algo, sendo que não temos boas razões para justificar que todos façam (ou deixem de fazer) esse algo e, principalmente, impedir que se questione a posição daquele que tenta obrigar o outro. Essa última parte em itálico é bem importante para entendermos o restante do texto. Uma maneira bem conhecida de tiranizar é através da força bruta. As ditaduras políticas, onde quer que tenham acontecido, usaram desse meio. A ameaça de violência corporal é uma das táticas amplamente utilizadas para se impedir que alguém questione, avalie criticamente e argumente contra a posição de um adversário. Repare novamente na parte em itálico.

Contudo, a violência física não é a pior das maneiras comuns de se tiranizar. Existe outra, muito pior, porque é mais forte e mais difícil de ser descoberta. Enquanto tiranizar por violência física deixa muito claro que alguém está praticando uma tirania, o outro tipo de tirania do qual falo acontece através de um discurso que passa a imagem, para os menos atentos, de justamente o oposto: abertura para outras concepções e tolerância. Isso pode causar surpresa: “de que forma um discurso que aparece como defendendo a abertura e a tolerância pode ter, por trás, um propósito tirânico?”. Fica mais fácil entender como isso é possível quando reparamos no seguinte: se alguém pretende eliminar a possibilidade de que suas crenças, conclusões e atitudes sejam criticamente avaliadas (repare na parte em itálico), de que maneira conseguirá fazer isso sem parecer um tirano e, melhor ainda, aparecer, aos olhos do público, como defensor da tolerância? A resposta é a seguinte: plantando a ideia de que, “já que tudo é muito relativo mesmo, não faz o menor sentido questionar as crenças, conclusões e atitudes de alguém, pois, tudo o que podemos fazer se avaliamos criticamente uma posição (segundo quem pensa assim) é impor nossos gostos pessoais”. Assim, os que usam dessa estratégia não apenas afirmam que não faz sentido o senso crítico sobre as diversas posições nas questões importantes que mencionamos: afirmam também que quem avalia criticamente as posições demonstra desrespeito.

Tal estratégia visa apresentar o seguinte cenário: aquele que oferece razões (argumentos) explicando o motivo pelo qual possui as crenças que possui (e, automaticamente, por que se deveria acreditar naquilo – como veremos, razões implicam generalidade) é visto como tirano. Já aquele que simplesmente acredita em algo, mas não consegue apresentar nenhuma boa razão para se acreditar naquela coisa (muitas vezes, não se quer discutir a questão justamente por medo de se descobrir que não existem boas razões para se acreditar naquilo que se acredita), é visto como respeitoso e de acordo com o ideal democrático. Gostaria de tentar explicar, agora, por que é que esse tipo de visão é uma grande confusão: não é verdade que alguém que oferece argumentos para sustentar suas crenças está praticando uma tirania; e não é verdade que o relativismo conduz à tolerância ou é a favor do espírito democrático. Como veremos, na ideia de democracia está implicado o ideal de cada um ter o direito de expor as razões pelas quais acredita em algo. A proposta é que cada um seja incentivado a fazer isso justamente para que seja possível avaliar criticamente cada uma dessas posições expostas e cheguemos a posições que possuam as melhores razões a seu favor (razões que se mantêm de pé após serem testadas inúmeras vezes perante a críticas, contra-exemplos, etc.). Perceba que isso é muito diferente de dizer que toda e qualquer posição é igualmente válida e que é impossível avaliá-las em termos objetivos. Cada um ter o direito de expor suas posições não é o mesmo que dizer que toda posição é igualmente correta. Se fosse assim, que sentido haveria em debater então? O debate seria meramente uns tentando manipular os outros então? Penso que essa confusão explica, em parte, como é que as pessoas que acreditam que toda posição é igualmente válida, veem a argumentação: como ferramentas para convencimento dos outros, independentemente de terem razão ou não. Gostaria de esclarecer, a seguir, por que essa é uma maneira totalmente errada de entender o que são argumentos.

3 – Entendendo o papel da razão e da argumentação

Quais as características essenciais de um argumento? Basicamente, quando alguém oferece um argumento, está apelando a razões. Por razões, não quero dizer que a pessoa está descartando os sentimentos, nessa hora (falarei disso mais adiante). Por razões, quero dizer que a pessoa que oferece um argumento para sustentar sua conclusão apela a um padrão cujo objetivo é ser válido para qualquer um; e espera-se que seja reconhecido por qualquer um que possa pensar com clareza sobre o que está em questão, independentemente de inclinações pessoais ou da cultura na qual alguém esteja inserido. Se eu digo “sou contra o especismo!”, estou apenas a expor uma conclusão. Mas, suponha que eu diga: “sou contra o especismo porque o que torna alguém digno de ter seus interesses considerados é a possibilidade desse alguém ser prejudicado (por inflicção de sensação ruim ou privação de sensação boa) caso não tenha seus interesses realizados, e, uma vez existindo tal possibilidade, a espécie à qual o indivíduo pertence não é relevante para a existência da mesma”. Nesse caso eu dei um argumento. Não significa que meu argumento esteja necessariamente correto. O importante a ser notado é que, quando alguém dá um argumento, pretende (ainda que sem mencionar ou perceber) que tal razão mencionada seja válida para qualquer um; e que seja aceita por qualquer um que possa pensar com clareza sobre a questão, e não apenas, válida para aquele que formula o argumento. O argumento que dei visa mostrar que o especismo é injustificável, ou seja, que não apenas eu deveria deixar de ser especista, mas qualquer um. Como veremos mais adiante, essa pretensão de validade para todos (universalidade ou objetividade) está implicada em qualquer argumento (mesmo naqueles argumentos que tentam negar como um todo a universalidade!). Agora, compare com essa outra afirmação: “Seja contra o especismo; expanda sua consciência; abra os olhos; seja sensível e inteligente!”. Nesse caso, eu não dei nenhum argumento. Eu apenas fiz algumas apelações retóricas com vistas a conseguir que o interlocutor concordasse comigo sem pensar muito.

Uma característica crucial dos argumentos é que são apresentadas razões para sustentar uma conclusão, e então essas razões são expostas com o objetivo de serem avaliadas criticamente. Ou seja, o que se quer descobrir quando se faz uma argumentação honesta, é se a razão oferecida realmente sustenta a conclusão ou não. É por esse motivo que é importante debater. Como somos humanos, somos demasiadamente imperfeitos, falíveis. Podemos ter cometido um erro no processo de raciocínio ao formularmos nosso argumento; é possível que tenhamos chegado à conclusão errada, ou, na conclusão correta pelos motivos errados. Apresentar o argumento a outras pessoas aumenta a probabilidade de que o erro seja detectado. Obviamente que, se pensamos que o argumento está correto, também queremos convencer os outros a chegarem à mesma conclusão que chegamos, pelas razões que oferecemos. Mas, acima de tudo, o objetivo do processo de argumentação é descobrir a verdade sobre determinada questão. O desejo de convencer os outros de que o argumento está correto deveria vir da crença de que o argumento está correto, e não, o contrário (pensar que o argumento está correto se tiver poder de convencer os outros). É por descobrirmos a solidez das razões a favor de uma determinada posição que deveríamos adotá-las. O que geralmente acontece, infelizmente, é o contrário: primeiro se conclui por determinada posição (através de uma intuição misteriosa que geralmente é um preconceito), e depois se vai atrás dos argumentos para sustentá-la a todo custo. Essa atitude não é de a quem deseja adotar o pensamento crítico. Uma vez que a pessoa adota a postura crítica, descobre que é possível que a razão mostre que sua conclusão inicial estava errada, e que deveria mudar.

4 – Consequências danosas de descartar o papel da razão: Não distinguir entre persuasão racional e manipulação; e entre demonstrar e convencer.

Enquanto a pessoa não adota a postura crítica, não consegue diferenciar persuasão racional de manipulação. Na persuasão racional, oferecemos um argumento e esperamos que as pessoas aceitem-no por dedicarem o tempo necessário para avaliá-lo e por não conseguirem encontrar nenhum problema com ele. Na persuasão racional, se aposta na inteligência dos interlocutores; as razões são expostas para que sejam avaliadas. Quando acreditamos que o argumento é realmente sólido, não temos o que esconder quando o expomos. Se nosso objetivo é descobrir a verdade, então não temos medo de as pessoas descobrirem falhas em nossa argumentação; seremos gratos a elas por isso, pois isso nos ajudará a descobrir a verdade. Já na manipulação, se dá o processo inverso: oferecemos um argumento e esperamos que as pessoas aceitem-no justamente por não terem tempo e clareza necessários para avaliá-lo. Na manipulação se aposta na ignorância das pessoas. Nesse caso, alguém tem muito a temer: se alguém sabe que o argumento que ofereceu não é sólido precisa temer que as pessoas sejam inteligentes o bastante para descobrirem o que há de errado com ele. Por isso é tão comum que determinadas posições sejam apresentadas de maneira que os argumentos que as sustentam estejam escondidos. Na manipulação, o objetivo não é descobrir a verdade; é persuadir alguém de algo, quer esse algo seja verdadeiro ou não; verdadeiro por aquelas razões apresentadas ou não. Na persuasão racional, também se quer persuadir alguém de algo, mas somente porque se acredita que os argumentos oferecidos provam que esse algo está correto.

Quando não se quer que uma premissa seja questionada, uma das táticas mais utilizadas é ocultá-la, ou então apresentá-la de modo auto-evidente, como se não precisasse de justificação. Como exemplo disso, basta ver a maioria dos textos que trata sobre consumo de animais (seja contra ou a favor) tocando em diversos assuntos (sob o prisma da saúde humana, do impacto ambiental, da economia mundial), mas quase nunca sob o ponto de vista moral. Dá-se por tão óbvio que humanos teriam direito moral de excluírem da consideração moral indivíduos que não pertencem à sua espécie, que não se sente a necessidade de justificar essa atitude. Mas, é óbvio que se pensa que tal direito existe somente porque não se tentou justificar essa crença. [http://www.anda.jor.br/06/10/2010/especismo-e-a-questao-do-valor-da-vida]

Como muita gente que costuma debater não tem em mente a diferenciação básica entre persuasão racional e manipulação, outras duas coisas muito diferentes são geralmente confundidas: demonstrar e convencer. Essas pessoas tendem a enxergar como bom um argumento que convence, e mau um argumento que não convence. Essa caracterização é totalmente errada. O fato de um argumento convencer todo mundo nada diz sobre se é sólido ou não; e o fato de um argumento não convencer ninguém nada diz também sobre se é sólido ou não. Infelizmente, o poder de convencimento de um argumento não depende de sua solidez, justamente porque poder de convencimento é algo que depende de agradar o público (alimentar suas vaidades e preconceitos, por exemplo). A solidez de um argumento não depende de nada disso. Então, é importante notarmos que existem quatro possibilidades (1) Um argumento não ser sólido e convencer muita gente (os grandes manipuladores são mestres nesse truque); (2) Um argumento ser sólido e não convencer muita gente; (3) Um argumento não ser sólido e não convencer muita gente e (4) Um argumento ser sólido e convencer muita gente. Se o poder de convencimento de um argumento depende do estado cognitivo do público, do que depende sua solidez? Sua forma precisa ser válida e suas premissas precisam ser verdadeiras. [http://dmurcho.com/docs/introlog.pdf]

5 – Consequências danosas de descartar o papel da razão: não perceber que determinadas posições são autorrefutantes.

O relativista cognitivo enxerga toda argumentação como manipulação justamente por pensar que não existem padrões objetivos de raciocínio que impliquem validade sobre todos. Tudo o que podemos fazer ao argumentar, segundo o relativista, é impor nossas preferências pessoais. Se o problema com essa posição não está óbvio, é o seguinte: é autorrefutante. Repare que ela se trata de uma tese que pretende dizer que todas as teses são imposições de preferências pessoais, e pretende ser, ao mesmo tempo, uma tese que não é uma imposição de preferência pessoal. É uma tese que afirma que não existem verdades objetivamente válidas (válidas independentemente de cultura, época, etc.), mas pretende ser, ao mesmo tempo, uma verdade objetivamente válida.

Quando alguém dá um argumento a favor do relativismo, pretende que esse argumento tenha validade universal. Por exemplo, supondo que alguém afirme “o relativismo cognitivo é verdadeiro porque as razões, apesar de parecerem reivindicações com poder de revelar a verdade, não passam de preconceitos biológicos ou culturais; seja lá qual for o argumento alegado, estamos impondo nossas preferências pessoais”. Essa afirmação é auto-refutante. Se todos os argumentos possíveis de serem utilizados para defender uma conclusão não passam de preconceitos que possuem uma aparência de verdades objetivas, mas são meras ilusões, o que dizer do argumento de que “todas as razões não passam de preconceitos que possuem aparência de verdades objetivas mas são meras ilusões culturais ou biológicas”? É também uma mera ilusão, ou pretende validade objetiva? Ora, quem argumenta a favor do relativismo cognitivo quer que tal tese seja válida não apenas para ele, mas para qualquer um. O relativista cognitivo acha que quem pensa que a razão é capaz de revelar a verdade está enganado, objetivamente enganado. Se o relativista admite que seu argumento pretende validade universal, então se contradiz. É uma tese que só pode ser verdadeira se for falsa. Ou seja, a tese de que “todas as reivindicações de validade universal são meras ilusões” pretende expressar o que nega, já que pretende ser uma tese verdadeira (que tenha validade universal). Mas, se não temos de considerar o argumento utilizado para defender essa tese como uma mera ilusão nesse caso, por que teríamos de considerar no caso dos argumentos que visam defender outras teses? Assim, essa afirmação é autorrefutante. Se o relativista que a propõe, por outro lado, defender que ela não possui pretensão de validade universal (ou seja, não pretende ser uma tese verdadeira para qualquer um que possa pensar sobre ela, e sim, apenas para ele), então não precisamos dar bola para tal tese. Os relativistas cognitivos querem o impossível: afirmar que toda posição que pretende validade objetiva é uma mera ilusão, e, ao mesmo tempo, que sua própria posição tenha validade objetiva e não seja uma mera ilusão.

Usei esse exemplo para mostrar que é impossível se oferecer um argumento sem pretender que ele possua validade universal. Por exemplo, quando os que são contrários à argumentação afirmam que “aqueles que defendem sua posição com argumentos estão impondo seus gostos pessoais” pretendem que essa afirmação seja verdadeira (independentemente do que as pessoas pensam sobre ela). Ora, se pensam assim, deve ser por alguma razão. Se lhes perguntarmos as razões do porquê pensam assim, nos oferecerão um argumento. Aceitariam eles que, de acordo com sua própria tese, ao explicarem por que acham que as pessoas deveriam pensar assim, estariam apenas “impondo suas preferências pessoais”? Os que afirmam “não devemos criticar as crenças dos outros”, também fazem uma reivindicação de validade universal. Não querem dizer que eles não devem criticar as crenças dos outros, mas sim, que ninguém deve criticar as crenças dos outros. Outro exemplo: os que afirmam que “temos de ser tolerantes com toda e qualquer posição”, também fazem uma reivindicação objetiva, que pretende validade universal. O que se reivindica, nessa afirmação, é que todos sejam tolerantes com toda e qualquer posição, e não apenas, quem falou a frase. Se alguém perguntasse “por quê?”, então deveriam ser expostas as razões pelas quais a pessoa pensa que devemos ser tolerantes. E essas razões seriam, por sua vez, com pretensão de validade objetiva, e assim por diante. Assim, não faz sentido acusar de tirano alguém que reivindica que o especismo é objetivamente errado, ou que todos têm o dever de parar de explorar animais, pelo motivo de que tal reivindicação visa validade objetiva, universal, já que toda reivindicação (inclusive a acusação de tirania mencionada) visa o mesmo. Todo tipo de reivindicação envolve uma pretensão de validade objetiva, inclusive a própria crítica a reivindicações desse tipo, o que é auto-refutante.

6 – Consequências danosas de descartar o papel da razão: não perceber a diferença entre objetivamente válido e absolutamente válido.

É importante salientar que não é verdade que todas as reivindicações de validade universal (objetiva) sejam reivindicações de regras sem exceção (absolutas). Se alguém afirma: “Não há como dizer que é objetivamente errado matar, pois é correto matar em legítima defesa”, comete a confusão entre reivindicação objetiva e reivindicação absoluta. Quando alguém reivindica que é objetivamente errado matar, está com isso querendo dizer que a razão que irá oferecer para sustentar onde está o erro em matar (nos casos em que for errado matar) deve valer para qualquer um que possa pensar sobre ela (independentemente de cultura e gostos pessoais). A pessoa que oferece o argumento não está querendo dizer que todos irão, de fato, aceitar tais razões; e sim, que deveriam aceitar. A pessoa também não está dizendo que não existem exceções a essa regra (um princípio objetivo não necessariamente é um princípio absoluto).

Por exemplo, suponha que eu afirme que o que torna um erro matar é principalmente duas coisas: (1) o impedimento do desfrute de sensações boas no futuro e; (2) ser um ato contrário à preferência do indivíduo morto. Pelas razões que ofereci, eu tenho que admitir que o erro em matar não é absoluto. Eu teria que admitir, por exemplo, que é correto atender um pedido de eutanásia para os pacientes que a solicitem nos casos em que não há mais possibilidade de desfrute no futuro (ou, que o desfrute seja tão mínimo, comparado ao sofrimento). Tenho que admitir, nessa situação, não é errado matar, porque as duas razões que aleguei como compondo o erro em matar não estão presentes nesse caso. Mas, perceba que a alegação que sustenta a exceção à regra também é objetiva. Ela diz: nos casos em que as razões 1 e 2 não se aplicarem, tem-se o dever de permitir a morte, etc. É uma reivindicação objetiva porque não diz que “eu tenho que permitir a morte”; diz “tem-se que permitir a morte”, já que o fato de as razões 1 e 2 não estarem presentes nesse caso não depende do que pensam os agentes que estão a decidir.

7- Consequências danosas de descartar o papel da razão: não perceber que o relativismo não é compatível com a tolerância.

Voltemos então à constatação de que é impossível de oferecer um argumento sem pretender que ele tenha validade objetiva. Vimos que isso acontece mesmo nos argumentos que visam negar a possibilidade de validade objetiva (tais argumentos são autorrefutantes). Tais posições querem descartar por completo a razão, e ao mesmo tempo, oferecer uma razão para acreditar em algo – o que é autorrefutante. Vimos também que aqueles que reivindicam que devemos ser tolerantes estão a fazer uma reivindicação objetiva: não afirmam que é errado apenas eles serem intolerantes; afirmam que é errado qualquer um ser intolerante. Gostaria de apontar agora que tal posição (de que devemos ser tolerantes) é incompatível com a posição de que não existem valores objetivos, em ética – ou seja, a ideia de que todos os valores são igualmente válidos (por questão de abreviação, chamarei qualquer posição desse tipo pelo nome de relativismo). Ora, a incompatibilidade é óbvia: se todos os valores são igualmente bons, não temos razões para preferir a tolerância à intolerância. Se todos os valores são igualmente bons, o que há de errado em jogar uma bomba nos adversários então? Ironicamente, os que sustentam que todos os valores são igualmente bons frequentemente reivindicam que suas posições sejam respeitadas. Ora, se todos os valores são igualmente bons, o que há de errado com o desrespeito então? Enfim, penso que isso é suficiente para mostrar que a crença de que todos os valores são igualmente bons é incompatível com a crença de que devemos respeitar os outros e sermos tolerantes, por exemplo. [http://criticanarede.com/valoresrelativos.html]

8 – Como a reivindicação de que todos os valores são igualmente bons é usada para encobrir a tirania

Quando se reivindica que todos os valores são igualmente bons, isso proporciona uma margem para a tirania velada: ao se plantar a ideia de que não há como avaliar de maneira objetiva os valores, então se torna fácil que as pessoas aceitem valores que jamais aceitariam se os avaliassem criticamente. Se alguém é esperto instrumentalmente, e sabe que defende algo que não possui boas razões em seu favor, a primeira estratégia que lhe vêm à mente é inventar que não existem formas de avaliar as decisões; dessa maneira, poderá praticar sua tirania sem ser importunado. Penso que muito da tirania disfarçada que se exerce atualmente, principalmente sobre os animais não humanos, se deve à crença de que não há maneira objetiva de avaliar posições morais, seja por parte de quem pratica a tirania, seja por parte de quem não a pratica ativamente, mas a defende, ou que é conivente com ela (pratica passivamente).

Um exemplo do caso de quem não pratica a tirania mas a defende é o das pessoas que falam “não consumo animais, mas não há nada de errado se outras pessoas o quiserem fazer”. É possível que a pessoa pense que não está a fazer (mas está!) uma reivindicação objetiva, que tenha validade para todos, pois geralmente quem pensa assim afirma “eu estou deixando todos livres para cada um fazer o que quiser”. Isso é falso por dois motivos:

O primeiro, é que a pessoa está a defender duas teses objetivas que ficam ocultas: a de que o especismo está correto, e a de que os animais não humanos não devem receber igual consideração. De maneira oculta, essa pessoa está a defender que é errado criticar quem é especista (pois, segundo o que tal pessoa afirma, os humanos teriam o direito moral de explorarem os animais). E é isso que geralmente acontece nos debates: quem não consome animais, mas pensa que os outros que desejarem têm o direito moral de o fazer, ficam chateados com os que argumentam que tal direito moral não existe. Ou seja, quem pensa assim acha que há o dever de não se criticar o suposto “direito” humano de explorar os animais. Então, também faz uma reivindicação objetiva. É alguém que defende o especismo, apesar de não consumir animais em sua dieta.

Segundo, é falso que tal pessoa está “deixando todos livres para fazerem o que bem entender” porque, obviamente, a pessoa sabe que, se for correto que os humanos explorem os animais, então os animais não ficarão livres para fazer o que bem entender (já que estarão mortos depois de uma vida de intenso sofrimento). Ou seja: essa é a típica posição especista, contra a qual argumentei em outros lugares, http://olharanimal.org/porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever/ ] conivente com a tirania praticada através da violência física, dos humanos contra os animais não-humanos, mas que é apresentada como posição tolerante e neutra.

9 – Consequências danosas de descartar o papel da razão:: não saber distinguir entre obrigatório e opcional, e tomar uma coisa pela outra.

A ideia de que todos os valores são igualmente bons conduz a outra confusão: perde-se de vista a distinção entre reivindicar que algo é correto (moralmente opcional), e reivindicar que algo é um dever negativo (errado fazer, obrigatório moralmente não fazer) ou um dever positivo (obrigatório moralmente fazer) e toma-se uma coisa pela outra.

Quando existem razões que demonstrem que praticar determinada coisa é um mal (ou seja, que os argumentos a favor dessa coisa não são sólidos), então podemos afirmar que é um dever não fazer tal coisa (dever negativo); em outras palavras, que tal coisa é errada. Quando existem razões que demonstrem que deixar de praticar determinada coisa é um mal (ou seja, que os argumentos para se deixar de fazer essa coisa não são sólidos), então podemos afirmar que é um dever fazer tal coisa (dever positivo). E, por fim, quando não existem boas razões para se pensar que deixar de fazer algo é um mal, mas que também não existem boas razões para se pensar que fazer esse algo é um mal, então esse algo é correto (opcional), mas não um dever. Note um detalhe importante: se alguém opta por fazer algo que é correto (opcional, não um dever), isso implica da parte dos outros agentes o dever negativo de permitir que se faça tal coisa. Tal dever negativo existe justamente porque não existem boas razões para se pensar que fazer esse algo é um mal (embora também não existam para se pensar que deixar de fazê-lo é um mal, daí a caracterização de opcional). Toda decisão que é correta (opcional) implica em uma obrigatoriedade (dever negativo) da parte dos outros.

O relativista, por pensar que a razão não possui um papel a desempenhar nas questões de ética, pensa que todas as decisões possíveis são igualmente válidas. Assim, é comum que relativistas pensem que todas as reivindicações possíveis só podem ser de que algo é correto (opcional). É comum que digam “tudo está igualmente correto, não obrigo nada a ninguém!”. Mas, quando percebemos que toda ação que é correta (opcional) implica, da parte dos outros, numa obrigação (dever negativo) de permitir realizá-la, vemos que é impossível “não obrigar nada a ninguém”. Por exemplo, se alguém afirma: “sou vegano, mas defendo que outras pessoas têm o direito moral de consumirem animais, porque não quero obrigar nada a ninguém”, mascara esse ponto. Ora, se houvesse o direito moral de se consumir os animais, então seria moralmente obrigatório permitir esse consumo. E é exatamente isso que tal pessoa reivindica (já que entra no debate exatamente para criticar a posição que vê como um dever abolir a exploração sobre os animais). Então, é simplesmente falso que não defendem obrigar nada a ninguém. A estratégia para mascarar a obrigação que está embutida em sua reivindicação é focá-la na atitude de quem usufruirá o benefício de praticar aquilo que consideram opcional (no caso, na atitude do especista consumidor de animais), enquanto se esconde a obrigação que querem impor tanto aos animais (de terem que sofrer a vida inteira e serem assassinados) e também aos que são contra tal prática especista (de terem que permití-la). Então, reivindicações de que “cada um tem o direito moral de consumir o que quiser, e não é certo obrigar nada a ninguém” são, na verdade, defesas de que aceitar o especismo deveria ser obrigatório para todos, só que de maneira disfarçada. São defesas da tirania mascaradas de defesa da tolerância. Obviamente, tal reivindicação só estaria correta se houvessem bons argumentos a favor do especismo. E é exatamente isso que penso não existir, como já expliquei em outros artigos [ http://olharanimal.org/porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever/ ].

O exemplo acima mostra a defesa de que o especismo é objetivamente válido mascarada de posição relativista. Veremos agora por que a posição do exemplo acima não poderia ser uma reivindicação genuinamente relativista, e por que, se fosse, seria ainda pior:

Um detalhe importante que é perdido de vista em várias das posições que se apresentam como relativistas é que a tese de que “se tudo é opcional, então tem-se que respeitar a decisão dos outros” é autorrefutante. Isso porque, se tem-se que respeitar a decisão dos outros, então isso é um dever; mas isso é incompatível com a tese de que tudo é opcional. Respeitar a decisão dos outros requer reconhecer que nem tudo é opcional, e que existem obrigações morais. O dever de respeitar é incompatível com a ideia de que tudo é opcional. Mas, é exatamente isso que é incompatível com o relativismo, já que, por negar um papel à razão nas questões de ética, vê todas as decisões como igualmente válidas. Assim, o relativismo toleraria que uma decisão que é correta (opcional) fosse tratada como um dever, e vice-versa.

E, não é de se espantar, é isso o que mais assistimos: relativistas tratarem questões de ética como se fossem questões de preferência pessoal e vice-versa. É comum que se diga, por exemplo, que, se alguém quer comer animais ou não, a validade disso depende unicamente da opção pessoal desse alguém (como se a decisão de comer animais não implicasse dano algum sobre os mesmos). Agora, se alguém diz que prefere camiseta lilás ao invés de amarela, ou se diz que se sente bem ao ouvir determinado tipo de música, ironicamente, os mesmos relativistas muitas vezes afirmam: “você é louco, deveria apanhar!”. E é exatamente essa a consequência de se adotar um ponto de vista que rejeita o papel da razão na ética: não saber distinguir o que é opcional (não existirem boas razões para que seja um mal deixar de fazer algo, mas também não existirem para que seja um mal fazê-lo); do que é obrigatório (existirem boas razões para que seja um mal fazer ou deixar de fazer algo), e tomar um pelo outro. E é isso o que mais vemos: a defesa de que as coisas mais opcionais possíveis (por não causarem dano praticá-las ou não) são, na verdade, um dever; e a defesa de que as decisões mais arbitrárias, danosas, injustas possíveis são, na verdade, corretas. É isso que acontece quando se pensa que não há um papel para a razão na ética e que é tudo “muito relativo mesmo”: age-se irracionalmente, fazendo-se o contrário do que se reconheceria que deveria ser feito se tivesse o mínimo de senso crítico.

10 – Conseqüências danosas de descartar o papel da razão: pensar que só existem duas opções; ou nos calamos diante das injustiças, ou então usamos da violência para combatê-las.

Uma objeção frequente ao que expus acima é alegar o seguinte: “Ah, mas então você defende jogar uma bomba nos que consomem animais?”. Essa objeção é absurda porque envolve uma falsa dicotomia. Quem faz essa objeção pensa que só existem duas opções: ou todos se calam diante das atrocidades e ninguém julga as crenças morais de ninguém; ou então todo mundo deve sair “jogando bombas” nos outros. Talvez essa falsa dicotomia surja justamente da crença de que não é possível avaliar as posições morais de maneira objetiva. Quem faz tal objeção não percebe uma terceira (dentre muitas outras) possibilidade crucial: debater e avaliar criticamente, com base em argumentos e na discussão racional, as diversas posições sobre o tema.

Afirmar que uma posição é errada, e defender que ninguém deveria acreditar nela é muito diferente de ameaçar jogar uma bomba em quem acredita nela. Existe ainda uma quarta possibilidade crucial: ir além da mera afirmação de que algo é errado (e esse é a parte importante), e expor as razões pelas quais se pensa que uma determinada posição é errada e que ninguém deveria acreditar nela. Só assim é que estamos demonstrando respeito pelo interlocutor, pois, desta maneira, reconhecemos que ele pode, tanto compreender o que pensamos, quanto nos ajudar a verificar se o que pensamos está correto ou não. Penso que é essa atitude, e não as outras três mencionadas (ou não se fala nada, ou se diz que algo é errado sem apresentar um argumento que sustente a tese, ou se “joga uma bomba”) que possui mais chances de trazer benefícios duradouros para os animais não humanos. Para que as pessoas mudem suas atitudes, é necessário que elas mudem suas crenças. As pessoas só adotam crenças que possuem argumentos sólidos a seu favor quando adotam uma postura crítica, e não, acrítica.

11 – Consequências danosas de descartar o papel da razão: a criação da falsa dicotomia entre razão e emoção.

Um bom exemplo, tanto de argumento autorrefutante quanto de falsa dicotomia, aparece na alegação de que, ou somos racionais ou somos emocionais, e que devemos optar pelo último. É importante esclarecer essa confusão por ser muito freqüente (principalmente no meio da defesa animal) e com consequências extremamente danosas (principalmente para os animais não humanos).

Primeiro, vejamos por que alegações desse tipo são autorrefutantes. Tais alegações aparecem em reivindicações do tipo: “deixemos de ser racionais; vejam só o que o uso da razão fez aos animais: os humanos construíram as granjas industriais e toda uma parafernália para torturá-los aos bilhões”. Um primeiro ponto a ser notado é que o que a alegação se refere por “razão” é muito diferente do que estávamos a chamar razão anteriormente (como quando, por exemplo, usamos os termos “ter as melhores razões a seu favor”, “ter razão”, “oferecer uma razão”, etc.). Anteriormente, então, definimos razão como apelar a um padrão que possa ser validado de forma objetiva, com base em argumentos que se mantenham de pé perante as críticas (que mostre que suas premissas são verdadeiras e sua forma é válida). Vimos que uma característica crucial de razão, nesse sentido, é que seja válido para qualquer um que possa pensar com clareza sobre a questão, e não, meramente válido para mim ou para membros de minha cultura. Para melhor entendimento, vou chamar agora essa definição de razão 1.

A presente alegação, diferentemente, entende que, se algo foi feito através de cálculos, planejamento e tecnologia, é produto da razão. Vamos chamar essa definição de razão 2. Agora, deve estar claro que uma coisa não necessariamente é a mesma que a outra. Não é porque algo é produto do planejamento e cálculos (razão 2) que automaticamente está justificado; que automaticamente apresenta um bom argumento a seu favor que ninguém consegue demonstrar que está errado (razão 1). Se pegarmos como exemplo as práticas especistas, muitas delas (ainda que boa parte não seja!) são feitas a partir do que foi definido como razão 2, mas nenhuma delas se classifica como razão 1. Com isso, quero dizer que não existem bons argumentos a favor dessas práticas, e que deveríamos abandoná-las. As razões para se pensar que não existem bons argumentos a favor do especismo ofereci em outros artigos. Quando uma decisão tem por efeito uma consequência que é negativa ou positiva, então entramos no território da ética. É preciso que se apresentem razões para sustentar que tal decisão é justificável. Então, mesmo que a prática especista que tomamos como exemplo se classifique como razão 2 (envolve planejar, executar, etc.), o que nos dirá se é correto ou não praticá-la é se ela passar no teste da razão 1 (verificar se possuem bons argumentos a seu favor).

12 – O papel da razão nos julgamentos éticos

A possibilidade de raciocinarmos sobre questões de ética nos coloca diante da exigência de justificação de nossas decisões. Basicamente, nossa própria razão (razão1) nos coloca duas coisas: (1) Temos de aplicar coerentemente o critério que escolhemos para fundamentar nossa decisão, ou seja, tratar casos relevantemente similares de maneira similar. Assim, se penso que é correto fazer determinada coisa com os outros, tenho que defender que é correto fazer o mesmo quando o atingido serei eu. A única maneira de justificar tratar diferentemente dois casos que aparentemente são iguais (iguais em tudo o que for relevante para o que está em jogo) é apontar uma diferença moralmente relevante entre esses vários casos, uma que justifique o tratamento diferente. Essa diferença, por sua vez, precisa se amparar num critério que seja, ele mesmo, geral, ou seja, aplicável quando a diferença alegada aparecer não apenas no caso x, mas em qualquer caso que a apresente. Se conseguimos cumprir com essa exigência, então somos coerentes. Contudo, a exigência principal para validar uma decisão é outra: (2) Temos de nos basear num critério que seja relevante para o que está em jogo. Essa exigência tem uma importância crucial, porque é possível que estejamos errando por aplicar coerentemente um critério que é, ele mesmo, irrelevante. Assim, já podemos perceber pelos menos duas maneiras de se mostrar que uma posição é injustificável, em ética: (1) Ou se erra por aplicar um critério relevante incoerentemente, (2) Ou se erra por aplicar coerentemente um critério irrelevante.

“Mas, o que conta como critério relevante não é algo subjetivo?”, perguntariam algumas pessoas. Como resposta, analisemos agora, por exemplo, o especismo. É possível formular a defesa das práticas especistas em termos gerais, ou seja, sem fazer referência aos indivíduos que serão atingidos pela decisão? Se fossem os papéis invertidos, e alguma outra espécie explorasse a nós humanos, com base na alegação de que não pertencemos à espécie deles, tal decisão estaria correta? Se não, então somos culpados de incoerência, a menos que apontemos uma diferença que seja moralmente relevante e justifique que, num caso, é certo discriminar por espécie, e, em outro, não. Contudo, imagine que alguém fosse coerente, e mantivesse que é correto explorar também os humanos (inclusive a ele próprio). Estaria sua decisão justificada? Não, justamente porque é possível escolher um critério que seja irrelevante, por ser arbitrário, e aplicá-lo coerentemente.

Para entendermos por que discriminar com base na espécie é irrelevante, quando o que está em jogo é a consideração pelos interesses de um indivíduo, basta perguntar por que é um mal desconsiderar os interesses de alguém. Ora, o mal está que o indivíduo é prejudicado. Imagine por um momento que só existissem humanos no mundo. Ninguém diria que é um erro desconsiderar seus interesses “porque são humanos”, mas sim, porque podem ser prejudicados. Existem duas maneiras básicas de se causar um dano: ou por inflicção (de alguma sensação ruim, física ou psicológica), ou por privação (impedimento de algum tipo de desfrute). O primeiro tipo de dano explica, por exemplo, o erro em fazer sofrer, e o segundo explica, por exemplo, o erro em assassinar. Mas, veja, nenhum dos dois erros é explicável com base na espécie do indivíduo atingido. Isso porque, uma vez que há a possibilidade de dano por privação de sensação boa ou por inflicção de sensação ruim (ou seja, uma vez que o indivíduo atingido é capaz de desfrutar de sensações), a existência de tal dano independe da espécie do indivíduo atingido. Isso mostra que um critério relevante para a moralidade do fazer sofrer ou assassinar é a possibilidade de dano para a vítima. Mostra também que, no que diz respeito a essa questão, a espécie é tão irrelevante quanto raça, formato do nariz, tamanho do nome, data de aniversário, etc. Ou seja, levando em conta a definição de razão 1, o especismo é baseado em critérios puramente irracionais. Obviamente que o especista acha que a espécie é um critério relevante. Mas, entre se pensar que algo é relevante e algo ser relevante tem uma distância enorme. E essa distância só pode ser coberta por bons argumentos. Como acabamos de ver, todas as razões parecem apontar para a conclusão de que a espécie não é relevante para a igual consideração.

13 – Explicando porque a dicotomia não é entre razão e emoção, mas entre razão e irracionalidade.

Com o que foi dito acima já podemos entender por que alegações do tipo “ou usamos a razão ou usamos a emoção, e devemos optar pela última porque a razão produz injustiças” são falaciosas.

Primeiramente, envolvem a falácia do equívoco. A palavra “razão” é usada com dois significados diferentes no argumento. Para ficar mais claro, veja em destaque os dois usos: “ou usamos a razão1 (argumentação) ou usamos a emoção, e devemos optar pela última porque a razão2 (uso instrumental) produz injustiças”.

Segundo, porque é autorrefutante, já que a frase mesma pretende se basear na razão 1, ou seja, é ela mesma, um argumento que pretende validade universal. Quem fala tal frase pretende reivindicar que não se use a razão 1 (argumentação), mas é ela própria um argumento (afirma que a razão 2 é um mal porque pode produzir injustiças). Tal tese só é verdadeira se for falsa: se devemos rejeitar por completo apelos à razão (argumentos), então devemos rejeitar essa reivindicação também; então não precisamos dar bola para ela. Se, por outro lado, devemos aceitar tal tese (se ela pretende ser verdadeira, independentemente do que pensamos sobre ela) então é porque temos de aceitar pelo menos um argumento, independentemente de emoção (o que já contradiz a própria tese). É irônico que os que buscam melhorar a condição dos animais não humanos queiram rejeitar a razão (apelo a argumentos) por completo. Se melhorar a condição dos animais não humanos fosse apenas uma expressão de nossos sentimentos particulares (sem pretensão de validade universal, ou seja, sem se basear numa razão), que motivos teríamos para querer que outros a adotem? Como explicamos que tal reivindicação está correta e não é, meramente, um preconceito nosso? Quando damos um motivo, já estamos entrando no campo da argumentação (razão), pois é possível avaliar esse motivo criticamente.

Em terceiro lugar, é uma falsa dicotomia. A questão não é “ou usamos a razão, ou usamos a emoção”. Como já foi mencionado anteriormente, qualquer posição possui um argumento (uma razão) que lhe dá sustentação. A diferença toda está em que algumas pessoas deixam esses argumentos expostos; outras os escondem; outras nem se dão conta de que eles estão lá; e outras fingem que eles não existem, para dar uma certa impressão de pureza e auto evidência. O argumento ficar escondido é muito conveniente para quem quer tirar proveito disso: por se pensar que uma posição não assenta sobre argumentos, tais argumentos não são avaliados, e a posição é aceita acriticamente, desde que o interlocutor goste da posição. Geralmente, quando o argumento está escondido, é proposital, porque já se sabe que ele não resistiria às críticas.

A ocultação dos argumentos acontece não apenas nas posições de cada um, nos debates. Muitas posições de pensadores famosos da filosofia, por exemplo, são apresentados com os argumentos escondidos, enquanto que ao mesmo tempo se dá a impressão de que sua posição não precisa ser avaliada por ser “sublime”. O exemplo mais comum disso, no entanto, é a estratégia seguida por todas as correntes religiosas ou místicas: quando se afirma que uma determinada posição surgiu de uma revelação divina, ou de um “íntimo contato com o universo”, “com o todo”, “com a vida”, seja lá o que for, exime-se da exigência de ter que apresentar razões que sustentem as conclusões. Essa é a primeira estratégia que passa pela cabeça de alguém que quer que outras pessoas acreditem em algo quando não existem boas razões para se acreditar nele (ou, pior ainda, que existem muitas boas razões para não se acreditar). Então, uma diferença crucial que se perde de vista na falsa dicotomia entre razão e emoção é a diferença entre ter uma postura crítica (razão) e acrítica (irracional). Então, a dicotomia existe entre razão e irracionalidade, e não, entre razão e emoção, como veremos a seguir:

Não há dicotomia entre razão e emoção porque, sejamos críticos ou acríticos, sempre existirão emoções envolvidas em nossos raciocínios e tomadas de decisão. Então, a escolha é muito mais entre tomar uma decisão baseado na razão + emoção, ao invés de na irracionalidade + emoção, do que entre razão ou emoção. Um exemplo dessa diferença é que, alguém que se baseia na razão e na emoção vai primeiro analisar os argumentos e depois tomar sua decisão, com base na sua análise dos argumentos. Uma pessoa que se baseia na irracionalidade e na emoção vai, primeiro tirar sua conclusão com base em alguma intuição misteriosa (que geralmente é um preconceito) e, depois, vai buscar alguns argumentos (geralmente, dos mais fracos possíveis), para tentar se justificar. Agora, podemos entender também por que é falsa a ideia de que a razão exclui sentimentos como empatia, compaixão, amizade, etc. Comumente se fala “a razão nos torna frios”, “admitir que a razão possui um papel na ética criará uma moralidade fria”, etc. Quando entendemos que o que a razão nos exige é justificar nossas decisões com base em padrões que sejam gerais e relevantes, percebemos que isso não irá, excluir, por exemplo, a compaixão. Várias das virtudes que são comumente valorizadas possuem boas razões a seu favor. Então, é falso que a razão exclui a emoção.

14 – De onde é possível que surja a crença na falsa dicotomia entre razão e emoção

É possível explicar a crença nessa falsa dicotomia também a partir de outras três confusões:

A primeira consiste em pensar que, devido à razão mostrar que a moralidade de se causar um dano a uma vítima não depende das emoções que o agente sente por ela, então se pensar que a razão diz para não se nutrir sentimentos por ninguém. Ora, pensar assim envolve uma confusão. Afirmar que a existência do dever de não causar mal aos outros independe do que se sente por esses outros é muito diferente de dizer que não devemos sentir nada por ninguém. Afirmar que “você tem o dever de não explorar os animais, independentemente do que você sente por eles” é totalmente diferente de dizer “é errado sentir alguma coisa pelos animais”. Assim, a ideia de que a razão deveria guiar nossas decisões éticas não torna a moralidade “fria”, como comumente se afirma. O que a razão mostra que não faz sentido é pensar que, por faltar determinados sentimentos em mim, então que estou justificado a cometer atrocidades nos outros.

A segunda confusão consiste em se pensar que, da exigência de termos que apresentar justificativas (apelar a razões) para testar se nossas conclusões estão corretas, segue-se que temos de negar que os animais possuem sentimentos. Claramente, uma coisa não tem nada a ver com a outra. É bastante plausível pensar, por exemplo, que um cão possui vários tipos de sentimentos justamente porque temos bons argumentos a favor dessa ideia. [http://www.animal-rights-library.com/texts-c/darwin01.htm]

Uma terceira confusão, que leva muitos ativistas a levantarem uma bandeira contra a razão, se dá por pensar que, uma vez admitindo que há um papel para a razão desempenhar na ética, então que os únicos seres a quem temos o dever de dar igual consideração são os agentes racionais. Essa ideia é falsa justamente por que envolve uma confusão entre o critério para alguém ser responsabilizado pelo que decide e o critério para alguém ter seus interesses considerados [http://www.anda.jor.br/04/08/2011/sobre-a-importancia-da-razao-na-etica]. A razão pela qual deve-se levar em conta, por exemplo, os interesses mais básicos (como não sofrer e não morrer, por exemplo) dos seres racionais, é o dano existente (por inflicção de sensação ruim ou privação de sensação boa) caso esses interesses não sejam realizados. Note que esse dano tem lugar independentemente do grau de racionalidade do indivíduo. Então, tem-se que admitir, devido à exigência de tratar casos relevantemente similares de maneira similar, que temos iguais razões para levar em conta (e, com igual consideração) os mesmos interesses quando aparecem em seres que não são racionais. Assim, é uma ofensa à razão pensar que a razão prescreve que apenas os seres racionais devem contar moralmente. Reconhecer a importância do papel da razão na ética envolve, pelo contrário, reconhecer que a comunidade moral tem de ser expandida para além dos seres racionais.

15 – Consequências danosas de descartar o papel da razão: a confusão de se pensar que respeitar uma ideia é não avaliá-la criticamente

Outra tese frequente é a ideia de que respeitar alguém é não avaliar criticamente suas crenças. Peguemos, por exemplo, o debate sobre se deus existe ou não. Muitas vezes se acusa quem avalia uma determinada posição (seja lá qual for) de estar desrespeitando a pessoa que a possui e também a crença em questão. Essa tese também se baseia numa confusão, de não perceber duas diferenças importantes:

Uma primeira diferença crucial é entre respeitar uma ideia e respeitar a pessoa que tem tal ideia. É possível que alguém ache uma ideia imbecil, mas trate com respeito e tenha estima por quem a possui. A segunda diferença é entre demonstrar uma atitude de respeito por uma ideia e concordar com ela. Alguém que dispõe parte do seu tempo a avaliar criticamente e honestamente os argumentos que sustentam uma ideia está levando essa ideia a sério. Note que o que estou chamando de “levar a sério” não é concordar. Alguém leva a sério uma ideia e um argumento quando para para avaliá-los à luz da razão. É possível que, no final do processo de avaliação, a pessoa diga: “por tais e tais razões, penso que a ideia que você sustenta é falsa, etc.”. Tal pessoa demonstrou o devido respeito, não somente pela pessoa que defende a ideia que ela considera falsa, mas pela própria ideia, pois a tentou avaliá-la de maneira honesta.

Agora, imagine o oposto: de que maneira alguém poderia desprezar uma ideia ou argumento, se pensasse que tal ideia envolve alguma loucura ou esquisitice, ou se pensasse que quem a defende é um louco de pedra? Uma das maneiras seria dizer: “A gente discorda, por isso nem vamos avaliar nossas ideias; você fica com sua ideia e eu com a minha”. Essa atitude, apesar de aparentemente tolerante, é que na verdade demonstra desrespeito pela ideia contrária expressa pelo adversário. Assim, pensar que nenhuma ideia pode ser avaliada de maneira objetiva serve a dois propósitos que, no fundo, são bastante desrespeitosos: (1) Impede que sua própria posição seja colocada em cheque (outra maneira de fazer o mesmo é dizer, diante de qualquer crítica “não precisamos de críticas, precisamos é de união”) e; (2) Permite-lhe ter uma desculpa para não ter que parar e pensar nos argumentos que desafiam sua posição. Assim, é incrível que as pessoas pensem que estão abertas à discussão democrática, e ao mesmo tempo pensem que o limite que devem tolerar dessa abertura é até onde alguém começar questionar as bases sobre as quais assentam suas crenças. O exemplo mais comum dessa atitude aparece nos debates sobre se deus existe ou não. Geralmente as pessoas aceitam falar do assunto com pessoas que possuem uma posição contrária à sua desde que não coloquem em dúvida as bases sobre as quais assenta a sua posição. Isso demonstra não apenas uma falta de seriedade com as posições opostas, mas uma falta de vontade em descobrir a verdade sobre tal questão.

O que já se perdeu há muito tempo (ou que, talvez, nunca tenha existido) quando alguém adota esse tipo de atitude, é o desejo por descobrir a verdade. Ora, obviamente que, ou o especismo é justificável moralmente ou não é; ou deus existe ou não existe; ou existem casos em que o aborto e a eutanásia são justificáveis moralmente ou não existem; ou temos obrigação de ajudar os mais necessitados ou não temos, etc. É impossível que duas posições, sendo contrárias, sejam verdadeiras ao mesmo tempo. E descobrir a verdade sobre essas questões é o que se perde quando deixamos de praticar a avaliação racional das diversas posições.

Agora, compare com a atitude de alguém que expõe os seus argumentos: (1) Isso permite que o seu argumento como um todo seja avaliado; (2) Esse alguém assume que acredita em algo por uma razão, e reconhece que precisa sustentar essa conclusão em algo que não seja válido apenas somente para si próprio. Em uma cultura na qual se abandona a razão e se pensa que todas as posições são igualmente válidas, a busca em se descobrir a verdade foi tão abandonada que, as pessoas se sentem ofendidas ao verem alguém oferecer um argumento. Isso porque o costume é meramente, repetir de diversas maneiras a mesma tese sem expor uma razão que a sustente, ou xingar o adversário e outras manobras retóricas. De repente, alguém oferece um argumento, e se retruca: “Estávamos todos aqui nos ofendendo numa boa, e você vem dar um argumento???”. Alguém ficar ofendido por outra pessoa oferecer um argumento questionando as bases de suas crenças só pode acontecer quando se tem o costume de acreditar em algo sem ter boas razões para tal, e quando não se está acostumado a praticar o debate racional de ideias. É somente onde não se tem ideia alguma do que é a característica principal de uma democracia (a discussão racional e avaliação criteriosa das diversas posições e seus argumentos) que se pode pensar que tentar impedir de se avaliar ideias criticamente pode estar de acordo com um espírito democrático. Aliás, alegar que “precisamos de união, não críticas” lembra muito o slogan de uma certa ditadura que dizia “ame-o ou deixe-o”.

16 – A máscara da auto-evidência

Até agora falei de uma maneira de mascarar uma posição tirânica e dogmática e apresentá-la como se fosse tolerante: a tentativa de se dizer que todos os valores, decisões e crenças são igualmente válidos e de que não há como fazer uma avaliação de maneira objetiva para se descobrir quais estão certos e quais estão errados. Gostaria de apontar agora para outra maneira de se mascarar uma posição tirânica, que não segue a tática relativista: enxergar e apresentar a sua própria posição como se fosse auto evidente, ou seja, que não necessita de justificação e nem de responder aos argumentos que a colocam em cheque.

A atitude de apresentar uma posição como auto-evidente vem crescendo dentro do movimento de defesa animal. É comum presenciarmos, nos debates, seja de qual lado for, ataques pessoais e palavreado retórico. Quando alguém apresenta um argumento que coloca uma determinada posição em cheque, existem várias atitudes comuns que visam fugir do assunto e não pensar no ponto de interrogação colocado pelo argumento contrário. Uma delas consiste em palpitar sobre as motivações que levaram alguém a endereçar tal argumento. É verdade que as pessoas possuem as motivações mais nefastas possíveis para oferecerem os argumentos que oferecem, mas nada disso prova que o que a pessoa falou está errado. É possível que alguém tenha uma motivação ruim e tenha apresentado uma tese que está correta. Outra dessas atitudes consiste em ofender o adversário. É possível que o adversário seja um canalha, mas isso também não prova que o que ele falou está errado. Às vezes; se parte rapidamente para discutir a maneira como o argumento foi colocado (acusar o adversário de ter sido rude e catar seus erros de grafia são as tentativas mais comuns), e não o argumento em si. Ora, essa estratégia tem o efeito de fazer o público focar a atenção nos defeitos do adversário, o que faz com que o público esqueça que este nos colocou um desafio, que não sabíamos como responder. Às vezes as tentativas de fugir do assunto e não responder ao argumento aparecem disfarçadas em algum palavreado retórico como “você foi infeliz”, “evolua”, “reflita com sua consciência”, “tenha mente aberta para outras perspectivas”. Se acreditamos realmente que nossa posição possui do seu lado as melhores razões, precisamos parar de praticar a desonestidade intelectual, pois todas essas estratégias são as preferidas de quem não possui bons argumentos para acreditar no que acredita.

Penso que tais atitudes são extremamente prejudiciais aos animais, pois o sucesso em conseguir que a situação deles melhore depende, em sua maior parte, de convencer as pessoas que ainda acreditam no especismo, que ele é injustificável. E, apresentar uma posição como se fosse auto evidente (não sentir a necessidade de argumentar a favor dela, dá-la por correta) para alguém que ainda não partilha dessa mesma posição só faz esse alguém pensar que se faz isso porque não se tem como defender tal ideia. Ao se adotar essa postura, perde-se a oportunidade de oferecer ótimos argumentos contra o especismo.

A atitude de pensar que sua posição é auto-evidente costuma vir da parte de pessoas que rechaçam a razão, a argumentação e a teoria, em ética. Afirmam: “Para que preciso de teoria? Isso tudo que vocês precisam aprender, eu já nasci sabendo; sigo minhas intuições”. Aparece também, ainda que de maneira oculta, em discursos do tipo “Para que teoria? Precisamos é de prática!”, ou “Isso tudo está correto na teoria, mas não na prática”. Esse tipo de atitude revela que não se entendeu, nem de maneira mínima, para que serve uma teoria ética. A teoria ética existe justamente para que possamos investigar quais coisas são corretas, quais são erradas, quais são um dever, quais são opcionais, na prática. A teoria, em ética, serve para orientar a prática. Se a teoria ética não tivesse um papel a desempenhar na prática, então qualquer coisa que fizéssemos seria igualmente válida, desde estuprar até doar a vida para salvar alguém, pois não haveria como distinguir quais práticas são moralmente boas e quais não são. Quando se fala que “não precisamos de teoria, precisamos é de prática”, esquece-se de perguntar “que tipo de prática?”. Se houvesse essa dicotomia entre teoria e prática, na ética, então não haveria sentido algum em se fazer filosofia moral.

Alguém poderia objetar: “Mas, podemos decidir com base em nossas intuições, em nossos impulsos”. Quando não refletimos criticamente sobre nossas decisões, a tendência é que decidamos com base em algum impulso irrefletido. Geralmente, esses impulsos refletem nossos preconceitos. E, aí está o grande perigo: tais preconceitos geralmente aparecem para nós como se fossem verdades reveladas, auto-evidentes, coisas sublimes ditadas por alguma “voz interior”. Então, quem descarta o papel da razão e argumentação ao tomar suas decisões éticas, muito provavelmente está a seguir um preconceito que não resistiria a uma página de exame crítico, pensando que está a seguir “a voz da consciência”. A única maneira de demonstrar que tal intuição era mesmo uma boa coisa e não um delírio é testá-la contra os argumentos e contra exemplos das posições que dizem o contrário, para ver se a crença ainda se mantém de pé. Mas, note que aí já é necessário que a razão entre em cena, pois já se fez um raciocínio ético.

Outro problema com a atitude de se apresentar uma posição como auto-evidente é que dá a impressão de que se trata de uma imposição de uma preferência pessoal, e não, que se está fazendo uma reivindicação moral que possui sólidos argumentos sustentando-a. Pior ainda quando alguém afirma, com orgulho, que mantém a posição que mantém porque “ela vêm do que eu sinto, das minhas crenças!”. Ora, não é preciso ser gênio para perceber que o adversário possui sentimentos diferentes, crenças diferentes e tirou conclusões diferentes. Se ambos os lados ficam apenas a dizer “são meus sentimentos!”, tudo o que temos é uma guerra para ver quem grita mais alto. Ter um determinado sentimento não mostra que tal sentimento, ou a atitude que nasceu dele, é justificável. Não há saída; a única maneira, se queremos realmente tomar a decisão correta e não apenas fingir que a tomamos, é avaliar criticamente nossas posições morais. Para isso, é necessária uma investigação crítica e argumentativa, o que requer que a razão entre em cena.

17 – A principal diferença entre a máscara da auto evidência e a tentativa de argumentação racional

É necessário entender que estou a criticar um certo tipo de atitude, que é a de se pensar que uma visão é imune a críticas e de que não há necessidade de justificá-la. Em contraste em relação a essa atitude, há a atitude de defender sua posição apresentando os argumentos que lhe dão sustentação e estando aberto para discuti-los e abandoná-los junto com sua posição se eles se revelarem implausíveis. Obviamente que, para se construir um raciocínio, tem-se de partir de um ponto que, naquele momento não é questionado e é dado como correto (é visto como auto-evidente), pois ele dará sustentação aos outros pontos. Contudo, a diferença toda está que, num tipo de posição (a posição que chamo de dogmática), não é admitido, com base em outras razões, questionar esse ponto de partida; na atitude crítica, admite-se. O que não é possível fazer é questionar todas as razões ao mesmo tempo, partindo de nenhuma; mas é possível questionar uma de cada vez, partindo de outras, como já expliquei mais detalhadamente em outro artigo [http://www.anda.jor.br/04/08/2011/sobre-a-importancia-da-razao-na-etica]. Note que isso é uma diferença fundamentalmente de atitude, e não do tipo de reivindicação que se faz nem da plausibilidade da conclusão a que se chega.

Não é uma diferença sobre o tipo de reivindicação porque ambos, tanto quem apresenta sua posição como auto evidente como quem argumenta a favor de sua posição, fazem uma reivindicação objetiva: num debate sobre uma questão de ética, seja lá qual posição se defenda, sempre está implícito que se deseja que todos adotem aquela posição. Isso fica mais evidente quando se reivindica que uma determinada coisa é um dever (obrigatório moralmente de se fazer ou não fazer algo). Mas, isso acontece também, ainda que não fique tão exposto, quando se defende que algo deve ser opcional, pois quem propõe isso espera que os outros concordem que tal coisa é realmente opcional. Então, a diferença não é do tipo de reivindicação, pois qualquer um que debate faz uma reivindicação objetiva (com a diferença é que uns mascaram que fazem isso e outros não).

Também não é uma diferença sobre a plausibilidade da conclusão que se chega. É possível que alguém adote a atitude de apresentar sua posição como auto-evidente mas tenha chegado à conclusão correta. Por exemplo, existem pessoas que rejeitam o especismo baseadas em alguma “voz interior”; nunca testaram a sua crença e pensam que quem não concorda com ela é um imbecil, mas também não sabem oferecer nenhuma razão para alguém ter a crença que possuem. Penso que essas pessoas chegaram à conclusão correta, de que o especismo é injustificável, mas que isso aconteceu por sorte, pois o tipo de atitude que adotam (tomar decisões morais “no chute”) não possui grande probabilidade de fazer alguém chegar na decisão correta. Em contrapartida, aquele que oferece um argumento para sustentar sua conclusão não necessariamente chegou à conclusão correta. Pode ser que não tenha percebido algum problema com seu argumento, por exemplo. Então, é possível ter-se uma postura acrítica e chegar, por sorte, numa conclusão correta; e é possível se ter uma postura crítica e chegar na conclusão errada. Independentemente disso, penso que devemos incentivar uma postura crítica. Eis minhas razões para se pensar assim:

18 – Por que devemos adotar e incentivar a postura crítica argumentativa, e não a dogmática

O que frequentemente vemos nos debates é a exposição de muitas teses, conclusões (“tal coisa é certa”, “tal coisa é errada”, “tal coisa é opcional”, etc.). Discute-se muito sobre o suposto mau-caráter de quem possui as conclusões que estão em questão. A coisa principal que deveria ser feita, se o objetivo é descobrir a verdade nessas questões, quase nunca aparece: discutir os argumentos que dão sustentação às conclusões. São duas coisas muito diferentes: (1) Alguém bater o pé no chão e repetir mil vezes (de diversas maneiras diferentes) “isso está certo!”; e (2) Alguém dizer “isso está certo porque… (e oferecer um argumento). Essa diferença de atitude é essencial, pois é a única maneira de descobrirmos a verdade nessas questões. A diferença toda está em explicar por que se deve ter uma posição e não outra. Dizer que uma crença está errada e ponto final é diferente de dizer a mesma coisa e apresentar uma razão para isso. Se não se explicar (argumentar), estão todos a berrar e ver quem berra mais alto.Uma vez que expomos os nossos argumentos e o adversário expõe os dele, as cartas estão na mesa para avaliarmos criticamente nossas posições. Quando alguém oferece um argumento, coloca este em avaliação. Podemos julgar, após um exame minucioso, que o argumento não era sólido, mas, mesmo oferecendo um argumento ruim, só por alguém ter honestidade de dar sua cara a tapa e oferecer um argumento para sustentar suas conclusões, é uma atitude que deveria ser incentivada. Quanto mais gente adotar essa postura, maior a probabilidade de nos aproximarmos da verdade.

Adotar uma postura crítica argumentativa, e não, a dogmática ou a relativista (e, como vimos, a postura relativista também pode ser dogmática), depende fundamentalmente do tipo de motivação com que se entra num debate. Adotar uma postura crítica argumentativa exige honestidade intelectual: exige que entremos num debate com o objetivo de descobrir a verdade, e com a humildade necessária para reconhecer que é possível que estejamos errados e que nossos argumentos não sejam tão bons quanto pensamos. Assim, tal postura exige que se abandone a entrada num debate com o objetivo de manipular os outros para que passem a acreditar em algo que também não se sabe muito bem por qual razão se deve acreditar. E a busca pela verdade é um objetivo que parece ter sido perdido de vista, na maioria dos debates. O que acontece, geralmente, é primeiro se concluir com base em alguma intuição (que geralmente é um preconceito que não resistiria ao exame crítico), e, daí, buscar argumentos para, a todo custo, sustentar essa intuição, sem dar bola alguma para onde apontam as razões. Por que é importante descobrir a verdade nessas questões? Primeiramente, porque se errarmos numa questão ética, isso terá consequências gravíssimas (geralmente, quase sempre sobre os outros). Em segundo lugar, porque nossas crenças sobre outras questões não-éticas influenciam nossas decisões éticas. Imagine, por exemplo, aquela pessoa que não presta ajuda a ninguém porque acha que deus irá ajudar.

Uma vantagem em se incentivar que se exponha toda e qualquer ideia, é termos um contraponto às nossas ideias, o que nos dá oportunidade de testar aquilo no que acreditamos. Uma objeção que inicialmente achamos ridícula pode se revelar, no final do processo de análise crítica, um argumento difícil de ser refutado. Outra vantagem de se incentivar que se exponha toda e qualquer ideia é que isso dá a oportunidade de esclarecer o que há de errado com determinadas ideias, ou seja, a oportunidade de mostrar quais problemas existem com os argumentos que sustentam determinadas ideias. Por pior que seja o argumento apresentado, por mais injustificável que seja determinada ideia, é sempre bom incentivarmos que elas venham à tona, pois nos dá a oportunidade de explicar o que há de errado com elas. Essa é toda a diferença entre explicar o que há de errado com o especismo e proibir que ideias especistas sejam ditas. Quando se proíbe que uma ideia seja exposta, perde-se a oportunidade de explicar o que há de errado com ela. Quando tais proibições entram em vigor em larga escala, as pessoas começam a adotar uma postura não porque sabem quais razões a sustentam e que não existem boas razões para adotar o contrário, mas sim, por pressão social. Assim, um dos perigos de se proibir que sejam expostas ideias especistas, ou de ridicularizar alguém que as expõe, é conduzir as pessoas a serem contra o especismo, mas de maneira acrítica e dogmática, ou seja, sem saber por quê.

19 – Quais as consequências danosas de se adotar uma postura não crítica, mesmo quando a conclusão está, por acaso, correta.

A posição dogmática pode aparecer em qualquer posição moral. Existem especistas dogmáticos, e existem pessoas contrárias ao especismo que também são dogmáticas. Obviamente, isso não torna as duas posições erradas, pois, já que se contradizem, não é possível que ambas estejam corretas. Penso que não existe nenhum bom argumento para justificar o especismo, conclusão a favor da qual argumentei em outros lugares. [ http://olharanimal.org/porque-temos-o-dever-de-dar-igual-consideracao-aos-animais-nao-humanos-e-as-implicacoes-praticas-desse-dever/ ]. Como conclusão, penso que deveríamos ser anti especistas. Contudo, me preocupa bastante a adesão ao anti especismo, abolicionismo, veganismo, etc. de maneira acrítica. Obviamente que, se as únicas opções disponíveis fossem criar uma sociedade especista acrítica e uma anti especista acrítica, é melhor criar a segunda. Mas, felizmente, existe uma terceira possibilidade: criar uma sociedade anti especista crítica. E é isso que será impossível de ser criado enquanto os ativistas levantarem a bandeira do anti-intelectualismo, a bandeira contrária à razão.

Quando se adota uma posição sem saber por que (mesmo que tal posição esteja correta, como é o caso da rejeição do especismo), existem alguns perigos graves. Um deles é que a probabilidade de se tomar a decisão correta é pequena, já que isso acontece “no chute”. Por acaso alguém teve uma intuição de que deveria rejeitar o especismo. Poderia ter tido a intuição contrária. Como não está disposto a testar nenhuma de suas intuições, se acertar, vai ser na sorte.

O outro perigo envolve a probabilidade grande de se adotar a posição correta pelos motivos errados (por exemplo, com base num critério irrelevante, que, por acaso, leva, em um ou outro caso, à mesma atitude que levaria o critério relevante). E, adotando a posição correta pelos motivos errados (por exemplo, com base num critério irrelevante), temos probabilidade enorme de errar numa quantidade infinitamente maior de casos.

Um exemplo ajudará a entender esse ponto. Supondo que existam duas pessoas discordando: uma delas afirma que devemos levar os animais não humanos em consideração porque isso é o mais natural para o ser humano. A outra, afirma que não devemos levar os animais não-humanos em consideração porque isso é o mais natural para o ser humano. Ambas as pessoas, apesar de discordarem quanto aos fatos (descobrir o que é natural para o ser humano e o que não é), concordam com a mesma tese moral (que está errada!), que é “o que é natural deve ditar nossas decisões”. Tal tese está errada, porque descobrir qual a coisa certa a se fazer envolve essencialmente buscar por razões, justificativas para adotarmos uma decisão e não outra. Como os processos naturais não passam de processos inconscientes e irracionais (e, geralmente com as piores consequências possíveis para os indivíduos inseridos nesses processos), deveriam ser o último local onde alguém deveria buscar por justificativas. Se o que é natural é irrelevante para se descobrir o que é moral, discutir se uma atitude é ou não natural é a maior perda de tempo que alguém poderia fazer, se quer descobrir qual a decisão correta. E isso acontece frequentemente: vemos os debates se centrarem sobre questões sobre fatos (o que é natural e o que não é, por exemplo), e raramente se questiona a validade das teses morais que afirmam que tais fatos são relevantes (a tese de que o natural deveria ditar o que é moral, por exemplo). A primeira pessoa do exemplo, então, adota uma conclusão correta (de que devemos levar em consideração os animais não-humanos) pelos motivos errados (porque pensa que isso é natural). Agora, imagine que essa pessoa aplique coerentemente o critério irrelevante que escolheu: toda vez que descobre que um comportamento é natural, mas que é também uma atrocidade, aprova esse comportamento. É isso que acontece quando não adota uma postura crítica.

20 – Por que nem o dogmatismo nem o relativismo são compatíveis com uma atitude democrática

A possibilidade de se explicar o que há de errado com determinadas ideias só pode acontecer quando existe a liberdade para expô-las. Esse é um dos pontos principais que caracteriza uma visão democrática. A visão democrática não pode coexistir, ao mesmo tempo, com uma ditadura (aplicada por força física) nem com a ideia de que “todas as ideias são igualmente válidas”. Se fossem, não haveria sentido em debater coisa alguma, e também não haveria erro algum em impor uma decisão injustificável através da força bruta. Entendendo esse ponto, é que podemos perceber o absurdo com a ideia de que é anti-democrático oferecer um argumento e reivindicar que ele possui validade objetiva. Como vimos, os argumentos e a reivindicação objetiva estão sempre lá; a diferença é que uns não escondem que o fazem, enquanto outros sim.

Mais absurdo ainda é acusar aquele que oferece um argumento (o que envolve reivindicar que pretende validade objetiva) de estar tomando sua posição como uma verdade absoluta. Muito pelo contrário: são os dogmáticos (aqueles que não sentem a necessidade de argumentar com vistas a testar suas posições para descobrir se são mesmo justificáveis – e isso inclui boa parte dos relativistas) que poderiam ser acusados de tomarem sua própria posição como verdade absoluta (pois a consideram inquestionável). O fato de alguém oferecer um argumento para justificar sua posição mostra, tanto que a pessoa reconhece que ela não é auto evidente e que necessita de apoio racional; quanto que está disposta a expor suas razões para acreditar em algo (o que permite que avaliemos criticamente se suas razões são boas ou não).

Pensar que um argumento tem validade objetiva (que todos deveriam reconhecer a força das suas razões) é muito diferente de dizer que tal argumento é uma verdade absoluta. No primeiro caso, o objetivo é descobrir a verdade, e isso depende fundamentalmente de expor o argumento para que os outros o avaliem para ver se há algum problema com ele (então, não é possível que a pessoa pense que ele é uma verdade absoluta). No segundo caso, a pessoa está tão certa de que já descobriu a verdade, que não sente a mínima necessidade de justificar sua posição. Por isso, por trás de muitas das atitudes que, à primeira vista, parecem expressar uma abertura para posições diferentes da sua (como a atitude de dizer “eu tenho a minha posição e você tem a sua” ou “apenas sigo minhas intuições”) esconde-se uma postura dogmática, que não quer saber de testar a validade da posição que assume. É por isso que a humildade em se reconhecer que é possível que sua posição esteja errada não combina com o relativismo. Para alguém reconhecer que errou, é necessário que acredite que existem bons e maus argumentos, crenças verdadeiras e falsas. Mas, é isso mesmo que o relativismo nega que existam.

O ideal de democracia envolve a liberdade de argumentar. Argumentar, como vimos, envolve sempre oferecer razões para se aceitar ou não algo. Razões, por sua vez, como vimos, envolvem a pretensão de objetividade: ser válida para todos, não apenas para aquele que formulou o argumento. Vimos também que a pretensão de objetividade está presente em qualquer posição. Está presente inclusive nas que defendem que “não existe posição válida para todos”; já que a pessoa espera que os outros aceitem que “não existe posição válida para todos” – o que, é claro, é autorrefutante. Pensa-se frequentemente que nem todas as posições fazem reivindicações objetivas porque muitas vezes a reivindicação está mascarada.

Por não se ter o costume de praticar o ideal democrático do debate argumentativo, é comum se cometer as seguintes confusões: (1) Pensar que argumentar é impor e vice-versa; (2) Entender a persuasão racional como manipulação e vice-versa; (3) Confundir, o direito de expor uma opinião com “toda opinião é igualmente válida”; (4) Saltar do “já que tenho direito de ser respeitado” para “então não preciso argumentar a favor da minha posição”; (5) Não enxergar as distinções entre opcional e obrigatório, questões morais e de preferência pessoal, e tomar um pelo outro; (6) Não perceber a diferença entre objetivo e absoluto; (7) Não perceber que determinadas posições são autorrefutantes; (8) Acreditar numa falsa dicotomia entre razão e emoção; (9) Não perceber que o relativismo é incompatível com a tolerância e o respeito; (10) Basear suas conclusões morais em critérios que são irrelevantes, mesmo quando aplicados coerentemente e (11) Pensar que avaliar criticamente a posição de alguém é mostrar desrespeito por esse alguém e por essa posição.

A mudança prática que a justiça exige para os animais não-humanos, para ser duradoura, depende fundamentalmente de corrigirmos essas confusões, e de adotarmos uma postura crítica argumentativa, e não, acrítica.

Revisão ortográfica: Amanda Azis Alexandre


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