Sobre ter um animal de estimação – parte 2

Sobre ter um animal de estimação – parte 2

Por Marcio de Almeida Bueno

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Basicamente, me parece que pensar e lembrar aos demais que os animais não nasceram em pátios ou apartamentos é algo que ofende muita gente. Que o cachorro na coleira, gato no porão, passarinho na gaiola, peixe no aquário, tartaruga no cercadinho e outros são tão animais quanto a oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo. Nesse especismo do piso ao teto, a humanidade escolheu até mesmo seus ursinhos-de-dormir favoritos. E, como um Dr. Moreau, os moldou conforme sua imaginação – taí o cachorro com seus formatos e tamanhos diferentes, que não me deixa mentir. Modelos para todos os gostos.

E a ideia de dar liberdade a um animal não humano, desses escolhidos como bibelô-que-late-de-verdade, obviamente não é abrir a porta e deixar que encare uma vida de mendigo humano. Isso é feito pelos que abandonam – gente que teria ataques de coceira caso não tivesse um animal de estimação, e quando o sentimento-fogo-de-palha passou, largou o cachorro numa estrada, deixou o gato do outro lado da cidade. De maneira alguma os que querem e discutem a libertação animal pretendem uma vida nas asperezadas das ruas dos centros urbanos. Ali não é ambiente natural, não há água, comida, moradia – exceto com muita sorte ou malandragem, e não é esse o caso.

E falo urbano não como contraponto ao rural – idealizado por muitos hippies, pois bem sabemos como os animais são úteis ‘ou não’ em propriedades de produção rural.

A liberdade está nos biomas, campos, florestas, pradarias, montanhas, encostas, pântanos, serras – lugares que hoje pertencem a alguém, com escritura e tudo mais, especialmente a pose de proprietário. Capitanias hereditárias, excluindo tudo o que não lhe serve.

Pois estamos resolvendo o que as gerações anteriores fizeram de errado, e a presença dos animais de estimação hoje é um legado que se resolve na base do decreto, pela população descontrolada e que ‘pode transmitir doenças’, ‘pode atacar as pessoas’. Hoje precisamos adotar e tutelar pois há uma abundância de ninhadas, animais que sofrem atrocidades e a coisa vira notícia, e seu salvador muitas vezes se orgulha em contar detalhes horripilantes aos desavisados, como que para reforçar o feito heroico. Não desmereço, mas essas deveriam ser as primeiras pessoas a se permitirem pensar, questionar, a respeito da cultura dos animais de companhia. E, corajosamente, começar a quebrar esse moto-perpétuo que joga mais animais despreparados e fora de seu habitat, alvos do chute de um e carinho do outro.

E nem cito os criadores.

E nem cito os colecionadores.

Lá fora, nas ruas, o ambiente é inóspito para animais, crianças, idosos, distraídos, turistas, desavisados, portadores de deficiência, etc. A questão é que alguns certos animais foram trazidos para dentro dos apartamentos e pátios, e agora as ruas são tão espinhosas que o trancafiado vira solução para uma liberdade, digamos, arriscada. E então a humanidade inventa a coleira e o passeio-ao-redor-da-quadra, e é visível a expressão de impaciência em parte dos rostos dos ‘donos’, que arrastam o animal no meio de cada cheirada ou atenção dada a algum canteiro. Como mãe irritada puxando criança pela mão – eu me pergunto por que ter o cachorrinho, digo, o filho, se depois é indisfarçável a falta de paciência ao cumprir o passeio por obrigação.

Fomentar o animal-eletrodoméstico é permitir que os abusos aconteçam, pois mesmo que todos aqui sejam exemplo de fornecimento de comida, cama e calor a seus animais, o costume de ter esse animal faz com que o vizinho – é esse que maltrata, nunca nós mesmos – tenha um animal-alvo para surrar, deixar passar fome, abandonar ou praticar os atos sórdidos que tanto circulam por email, em fotos chocantes.

Se eu não bebo, e me incomodo com os que ingerem bebidas alcoólicas e provocam tragédias no trânsito, a terceiros, não me permitiria pensar em rever essa relação obrigatória das pessoas com o álcool. Quem tem um familiar com problemas de alcoolismo já se pegou amaldiçoando o primeiro Adão que montou um alambique?

Para muitos, discutir a posse é dividir a humanidade entre os que maltratam e os que tratam bem. Mas o ponto é separar os pets em escravos de barriga cheia ou barriga vazia. A violência pode ser barulhenta, que choca e ultimamente tem virado notícia, e rendido muito troca-troca de emails, ou pode ser silenciosa, e ainda com o manto de proteção, amor ou outra palavra bonita. A natureza, mesmo a mais idealizada ou que só existiu há muito tempo, está cheia de perigos, e nem por isso vamos botar cada zebra para dentro de nossas casas, para que o leão, esse malvado, não a coma. É a maneira humana de fazer as coisas tortas. Ou a mãe que reza cada vez que o filho sai de casa, mesmo que ele já tenha 40 anos.

Em resumo, não é muita coincidência tanta gente ter cachorro? Ou porque foi atrás, a fim de comprar ou adotar, ou como um ‘apanhador no campo de centeio’ precisou resolver os abandonos e violências cometidos por terceiros. Cabe, então, questionar essa necessidade de se ter o animal, pois o mundo não é feito só de bonzinhos idealistas, iguais a si.

Ter um animal não significa que a pessoa goste de animais. Pode parecer um paradoxo, mas tenho certeza de que todos hão de lembrar de algum caso. Nós que gostamos, e acordamos diariamente para viver uma vida em que não seja preciso comer um animal morto, nem vestir a pele de outro nos pés, nem beber a amamentação que outro havia destinado a seu filhote etc. Nós que salvamos um não humano da canalhice humana, que gastamos tempo e dinheiro com isso, nós que fomos ‘fazer baderna’ contra alguma forma de exploração animal. Nós é que precisamos pensar e discutir se essa proximidade com alguns certos não humanos está apenas lhes deixando à mercê, ou a um ‘fugir do pátio’ ou ‘escapar da coleira’, dos riscos que a aglomeração humana sedimentou em torno de si.

Fonte: ANDA


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