Células-tronco e o direito de quem não nasceu

Foi divulgado nesta semana que um hospital escocês iniciará testes com células-tronco de fetos abortados, para tratar pacientes de derrame. O derrame é uma doença terrível e incapacitante, que apenas em um terço dos casos pode ser tratada com fisioterapia.

A ideia é retirar as células-tronco de fetos abortados, multiplicá-las e injetar no cérebro de pessoas que sofrem derrames. As células-tronco têm capacidade de se transformar em células diferenciadas, inclusive células neurais, reconstituindo o tecido danificado.

Devido à lentidão com que os processos tramitam no órgão americano que controla medicamentos e tratamentos (a FDA), optou-se por tranferir a fase clínica da pesquisa para o Reino Unido.

A controvérsia

Para que o tratamento possa ser testado em seres humanos ele foi previamente testado em animais experimentais. Os testes em animais mostraram que o tratamento é efetivo, no entanto, não é essa a prova de que o tratamento é seguro para seres humanos. Primeiramente porque seres humanos são diferentes de animais; diferentes tratamentos mostram-se seguros ou efetivos em animais e inseguros ou infetivos em seres humanos. O teste em um não assegura efetividade ou segurança no outro. Em segundo lugar, os animais utilizados para os testes não sofrem de derrame, mas tiveram parte de suas células neurais danificadas por meios artificiais. Embora os sintomas possam ser semelhantes, a doença não é a mesma.

A controvérsia, porém, não se encontra no uso de animais utilizados nessa pesquisa. Não se encontra, tampouco, na quantidade de recursos gastos com pesquisas inúteis, nem no tempo que foi perdido testando em animais um tratamento que já poderia estar aprovado para uso por seres humanos que de fato precisam dele.

Por incrível que pareça, a controvérsia encontra-se no fato de que as células-tronco utilizadas nesse tratamento foram retiradas de fetos humanos. Não fetos humanos abortados para esse fim, mas fetos humanos que, uma vez abortados, serviram para fornecer células que serão multiplicadas e produzirão tratamento para milhares de pacientes.

Tão logo a empresa Reneuron, que desenvolveu o tratamento, solicitou autorização para iniciar testes com seres humanos nos EUA, há dois anos, uma sociedade denominada Society for the Unborn Child (Sociedade pela Criança Não Nascida) iniciou suas criticas.

Aparentemente, essa sociedade defende que fetos abortados possuem direitos. Um direito esquisito, a bem dizer. Eles não são vivos nem chegarão a viver, mas por possuírem algo de humano (o DNA, talvez), merecem todo o nosso respeito.

Camundongos, ratos, porquinhos-da-índia, cães… enfim, animais inteiros, vivos, nascidos, sencientes, porém não humanos, não são alvo dessa controvérsia.

A defesa dos direitos de alguém que não nasceu e que jamais chegará a nascer não encontra fundamento na ética. Ela foge da esfera da academia, da ciência. Encontra respaldo apenas no pensamento religioso, que por sinal varia de indivíduo para indivíduo.

Quando o Vaticano e outras instituições religiosas quiserem de fato se envolver no debate referente à ética na ciência, se preocuparão com a senciência dos animais utilizados em laboratório, e não com a inércia das células-tronco fetais. Caso contrário, tudo o que for feito será em nome da veneração da figura do homem enquanto ápice da criação, e não qualquer outra coisa.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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