Xenotransplantes

Pesquisadores de Munique (Alemanha) divulgaram na revista Transplantation haverem criado porcos geneticamente modificados. Esses porcos poderiam, em um futuro não muito longínquo, produzir órgãos que gerariam menos rejeição ao serem transplantados para seres humanos.

Essa técnica de transplante de órgãos de uma espécie para outra é conhecida como xenotransplante (em oposição ao alotransplante, ou transplante de órgãos entre animais da mesma espécie). Ela tem como alegado benefício permitir a redução nas filas de espera de transplante de órgãos, uma vez que a procura tem sido maior do que a oferta.

Até o momento, todos os pacientes que receberam xenotransplantes morreram em curto espaço de tempo, especialmente porque os mecanismos de defesa imunológica do organismo receptor tendem a destruir o órgão transplantado, reconhecendo-o como um corpo invasor.

Mas será que todo o problema relacionado com os xenotransplantes limita-se à reação imunológica do organismo receptor? E pode realmente esse problema ser resolvido com porcos geneticamente modificados?

Ainda que a modificação genética sofrida pelos porcos permita que as células dos órgãos por eles produzidos não sejam consideradas invasoras no organismo receptor, há outras questões que precisam ser consideradas em relação aos xenotransplantes.

Problemas éticos

O filme A Ilha (Warner Bros., 2005), com Ewan McGregor e Scarlett Johansson, traz muitos elementos que permitem iniciar uma discussão ética em relação aos xenotransplantes. Nesse filme, clones de seres humanos são mantidos em um laboratório para servirem como fontes de órgãos para seres humanos originais.

Embora o transplante de órgãos, nesse caso, não seja de uma espécie para outra, em termos éticos a situação é exatamente a mesma, pois em ambos os casos um organismo senciente é criado e mantido com a finalidade de fornecer material para transplante.

Os xenotransplantes, como os transplantes realizados no filme, são possíveis apenas mediante a morte de uma “cobaia”, um ser reconhecidamente capaz de sentir dor, medo, amor, enfim, todas as sensações a que estão sujeitos também os organismos que irão receber os órgãos doados. No entanto, por questões comerciais ou de preconceito, algo faz com que o organismo receptor tenha mais direito à vida que o organismo doador.

Em verdade não faz nenhuma diferença ética se tratamos de seres humanos ou animais, se o órgão não provém de doação, mas sim foi retirado à revelia, ou se essa retirada ocasionou na morte do organismo doador, o transplante deve ser considerado antiético.

Problemas técnicos

Por mais que se aleguem semelhanças entre os órgãos de porcos e seres humanos, essas afirmações são feitas mais com base em formato e volume, e não em fisiologia e metabolismo. As diferenças existem e são muito significativas, a ponto de não se poder afirmar que órgãos extraídos de animais poderão realmente manter um ser humano vivo, ainda que se exclua o problema da rejeição do órgão.

Mesmo sendo fato que existem analogias entre as moléculas produzidas por determinado órgão do porco em relação ao órgão do ser humano, uma pequena modificação na estrutura dessa molécula, característica da espécie fornecedora, pode comprometer todo o seu funcionamento no organismo da espécie receptora.

Dessa maneira, embora o órgão esteja ali presente e por um ou outro motivo não sofra rejeição, sua função metabólica é bastante limitada visto que o órgão não interage com o resto do organismo de maneira satisfatória.

Problemas com o surgimento de novas doenças

Os xenotransplantes trazem outro risco, que é o de permitir o surgimento de novas doenças. Homens interagem com porcos há milhares de anos e, embora a proximidade seja antiga, inclusive implicando a predação de uma espécie pela outra, em nenhum momento desse processo houve troca de material biológico in natura. Explica-se: tocar com a pele na pele de um porco é diferente de injetar soro de porco na veia. Comer carne de porco assada ou cozida é diferente de introduzir o fígado do porco diretamente no corpo humano.

Existe uma série de doenças conhecidas que os porcos podem transmitir para o ser humano. Todas essas doenças podem ser detectadas por exames simples. No entanto, há uma série de outras doenças que os porcos podem transmitir para o homem e que ainda não são nossas conhecidas. No organismos dos porcos, como no de outros animais, há bactérias e vírus que lá estão como simbiontes. Para o porco eles não representam doenças, pois esses parasitas ali evoluíram e encontraram seu equilíbrio. Porém, quando esses parasitas entram em contato com o organismo humano e encontram nesse novo hospedeiro uma nova possibilidade de colonização, novas doenças podem surgir.

Mesmo animais provenientes de biotérios, livres de germes e doenças conhecidas não estão certificados contra esses parasitas, que não são ainda conhecidos e nem serão enquanto não se tornarem um problema.

É irônico pensar que, caso seja resolvido o problema referente à rejeição de órgãos de outras espécies, uma pessoa que sobreviva ao transplante representará um risco para toda a população, pois tão logo essa pessoa volte ao convívio social, ela mesma se tornará veículo de transmissão de uma nova doença.

Problemas financeiros

As pesquisas referentes aos xenotransplantes já consumiram até o momento bilhões de dólares em todo o mundo, com taxa de sucesso insignificante. Isso parece incoerente com um mundo onde a maior parte da população não tem acesso aos serviços básicos de saúde. Além disso, pouco se investe em medicina preventiva, essa sim com potencial significativo de salvar vidas.

A solução do problema

Por todo o exposto parece claro que a solução para o problema da falta de órgãos para doação não passa pelos xenotransplantes. Xenotransplantes não são boas opções para reduzir a escassez de orgãos e tecidos humanos e a insistência nessa linha parece ter mais interesses econômicos envolvidos do que interesses em salvar vidas humanas.

A solução para o problema passa por sua compreensão: existe uma enorme fila de espera de pessoas que necessitam de órgãos e tecidos e uma pequena quantidade de órgãos e tecidos para doação. O problema seria resolvido se houvessem menos pessoas necessitando de órgãos e houvessem mais órgãos disponíveis.

Faz-se necessário questionar:

– O que torna essa demanda por órgãos tão grande? Será que todos os casos em que transplantes são recomendados necessitam realmente de transplantes? Será que a aplicação de melhores técnicas de diagnósticos e cirurgias poderia diminuir bastante essa demanda?

–   Será que algumas dessas doenças não poderiam ser evitadas mediante campanhas de prevenção, possibilitando à população permanecer saudável em vez de negligenciar sua saúde até que a população adoecesse para então buscar a cura?

– Será que muitos problemas de malformação de órgãos não estariam associados à exposições indevidas ocorridas durante a gestação, fatores que poderiam ser evitados?

– Será que muitos dos pacientes que receberam órgãos já não o fizeram em estado muito avançado da doença, comprometendo sua sobrevida e o órgão doado que poderia ter sido mais bem aplicado em outro paciente com melhores chances?

– Será que já se fez tudo o que era possível para aumentar o número de doações de órgãos para transplantes? Uma melhoria na estrutura de captação não permitiria que o número de órgãos disponíveis aumentasse?

Além disso, existem alternativas muito mais promissoras do que os xenotransplantes para, ao menos, aumentar a sobrevida de pacientes na fila de espera dos transplantes de órgãos humanos. Os aparelhos mecânicos, por exemplo, já suprem em parte as necessidades fisiológicas do organismo, embora tenham a limitação de, à semelhança dos órgãos derivados de animais, não cumprirem algumas funções bioquímicas mais complexas. No futuro, essa limitação será suprida por técnicas de engenharia de tecidos, que permitirão a construção de órgãos artificiais elaborados com células obtidas do próprio organismo do paciente.

Essa técnica já apresenta alguns bons resultados no presente, mas novas pesquisas fazem-se necessárias.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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